sábado, 28 de novembro de 2020

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Há 128 anos nascia um dos maiores escritores do mundo

Por Redação

Há 128 anos, no dia 27 de outubro de 1892, nascia em Alagoas aquele que seria um dos maiores escritores de todos os tempos: Graciliano Ramos. Ele nasceu na cidade de Quebrangulo, em uma família de 16 irmãos. Mas foi em Palmeira dos Índios que ele iniciou sua carreira de escritor e também de político. Inclusive, foi na época em que atuou como prefeito da cidade palmeirense, em 1928, que foi descoberto como escritor, por causa da qualidade literária que imprimia nos relatórios que enviava ao governo de Alagoas. Graciliano foi eleito com 433 votos no pleito realizado no dia 7 de outubro de 1927 e não teve adversários.

Mas ele só aceitou e concorrer depois de muito hesitar, sendo afinal convencido por amigos de diferentes grupos políticos de que, por sua honradez, era o único nome de consenso. Não participou de campanha eleitoral, não fez promessas e nem se envolveu em composições políticas para a escolha dos conselheiros municipais, que hoje chamamos de vereadores.

O prefeito Graciliano herdou uma massa de governo falida. Havia 105 mil-réis nos cofres municipais, o que mal dava para cobrir a folha de pagamento dos servidores. Era preciso colocar ordem na casa. E foi assim que ele instruiu os fiscais a cobrar os impostos com rigor, pois as dívidas atrasadas teriam de ser pagas imediatamente, sob pena de execução judicial. E as isenções, que beneficiavam grandes proprietários, comerciantes e chefes políticos, perderam validade. Ele passou a controlar com mão de ferro o registro geral de despesas da prefeitura, tendo como critério básico não gastar mais do que se arrecadava. Ele próprio anotava, à tinta, a finalidade do gasto, a quantia paga e o nome do beneficiado – como se pode constatar no livro contábil exposto na Casa Museu Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios.

Palmeira nunca fugia ao figurino de cidades pequenas do Agreste, onde o poder das oligarquias se sobrepunha ao interesse coletivo e às normas vigentes. Graciliano não se amedrontou e fez cumprir a lei, mesmo desgastando-se junto aos grupos políticos dominantes na região. Cobrava resultados dos auxiliares e não hesitava em substituir ocupantes de cargos de confiança que vacilassem, inclusive, os que haviam mantido a pedido de seus apoiadores na campanha eleitoral de 1927. Ele determinou a limpeza de ruas e logradouros públicos, onde proliferavam animais vadios, lixo acumulado, lama e detritos.

Os donos de cães e porcos, acostumados a deixá-los à solta, tomaram um susto quando os animais começaram a ser recolhidos. Mas resistiram, libertando novamente os animais. O prefeito ordenou que todos os bichos encontrados nas ruas fossem mortos, e que multasse quem reincidisse.

Ao saber que seu pai, Sebastião Ramos, não acatara a ordem, mandou o fiscal multá-lo. Magoado, o pai teve de ouvir uma advertência. “Prefeito não tem pai. Eu posso pagar sua multa, mas terei de apreender seus animais toda vez que o senhor os deixar na rua”, disse Graciliano ao pai.

Em uma cidade de hábitos arraigados, essas ações moralizadoras despertaram logo lamúrias e incompreensões. Em carta escrita à sua mulher, Heloísa de Medeiros Ramos, que se encontrava em Maceió, queixou-se dos dissabores. “Para os cargos de administração municipal escolhem de preferência os imbecis e os gatunos. Eu, que não sou gatuno, que tenho na cabeça uns parafusos de menos, mas não sou imbecil, não dou para o ofício e qualquer dia renuncio”, reclamou.

Se por um lado ele não caia nas graças dos empresários e fazendeiros da época, por outro, agradava os menos endinheirados e tinha um jeito informal de governar que o fez ser conhecido como o “prefeito revolucionário”. Construiu estradas, escolas, prendia os ‘vagabundos’ e os obrigava a trabalhar. Recebia qualquer um em seu gabinete, sem hora marcada, e gostava de conversar com amigos e pessoas nas ruas.

Mas foi na literatura que o “Velho Graça” arrebatou simpatizantes e admiradores de suas obras em todo o mundo. Este ano, as comemorações em razão do nascimento do “Mestre Graça”, em Palmeira, estão um pouco acanhadas. A celebração pela data de seu aniversário, promovida pela Secretaria de Cultura do município, vai ser realizada na Casa Museu Graciliano Ramos, a partir das 9h, com palestras, rodas de conversas e apresentações culturais e rodas de leitura. Em um evento paralelo, às 19h, a Academia Palmeirense de Letras (Apalca) vai apresentar um documentário sobre Graciliano, além de um bate-papo sobre o homenageado com o escritor Ivan Barros.

Para o roteirista, contista e escritor Ricardo Ramos Filho, este é um momento de lembrar a obra de Graciliano e resgatar a figura engajada politicamente que foi. “Comemoraremos 124 anos de seu nascimento. Até em termos de número é uma data importante. Alguma coisa tem sido feita, em memória de Graciliano. No ano passado estivemos em Maceió homenageando o velho, inaugurando uma estátua com sua imagem, na Pajuçara. Mas acredito que o estado onde ele nasceu, as cidades onde viveu, deveriam prestigiá-lo um pouco mais”, comentou.

E continuou. “Quando eu era pequeno, na escola, ao lerem algum texto por mim escrito alegavam ser eu filho de peixe. Meu pai, o escritor Ricardo Ramos, por sua vez, deve ter ouvido a mesma coisa”.

A sombra de Graciliano chegou até a gente direta e indiretamente como ofício, vocação, vontade de também deitar palavras em um papel branco. Há 124 anos, em Quebrangulo, Alagoas, nascia meu avô Graciliano. Eu não o conheci, nasci um ano após a sua morte. Minto, as pessoas falam tanto dele comigo que ele se fez presente mansamente em minha existência. Então é com uma frase sua, para mim ensinamento, que o saúdo: ‘Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só’, finalizou.

Curiosidades sobre Graciliano Ramos

Graciliano gostava de usar pseudônimos como: Soeiro Lobato, Feliciano de Olivença, Anastácio Anacleto e Soares de Almeida Cunha em suas publicações para jornais e revistas. Os livros mais famosos do escritor são: Vidas Secas, Caetés, Memórias do Cárcere, Angústia, Infância, Insônia e São Bernardo. Das curiosidades sobre as obras de Graciliano é que São Bernardo teve suas primeiras páginas escritas na sacristia de uma igreja de Palmeira dos Índios e não teve o último capítulo concluído, e foi lançado assim, após sua morte.

Já o livro Angústia foi pulicado quando Graciliano estava sob um cárcere no Rio de Janeiro, durante o governo de Getúlio Vargas. Vidas Secas devia se chamar “O Mundo Coberto de Penas”, que foi o título do penúltimo capítulo do livro. Em 1962, o livro foi premiado pela fundação norte-americana William Faulkner como Livro Representativo da Literatura Brasileira Moderna.

Em 1942, Graciliano publicou, em parceria com Raquel de Queiróz, Jorge Amado, Aníbal Machado e José Lins do Rego, um romance batizado Entre o Mar e o Amor. O escritor era ateu convicto, mas mantinha sempre uma Bíblia na cabeceira para apreciar elementos de retórica e algumas de suas lições. Era um fumante inveterado. O cigarro está presente em muitas das fotos de Graciliano que ficaram para a posteridade. Aliás, ele morreu de câncer do pulmão, em 1953. Graciliano escrevia todos os textos à mão, geralmente no período da manhã. Garranchos, o seu último livro, foi publicado em 2012, quase seis décadas depois de sua morte. Graciliano Ramos foi o grande homenageado da Festa Literária de Paraty de 2013, um ano após o centenário de seu nascimento.

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