sábado, 28 de novembro de 2020

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A fome tem pressa

Por João Baptista Herkenhoff
Dezesseis de outubro, Dia Mundial contra a Fome.
Quase um bilhão de seres humanos não possui uma alimentação saudável.
A maioria que passa fome é constituída por mulheres e crianças. As mortes por fome, segundo dados da ONU, suplantam as mortes por sida, malária e tuberculose.
Se todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, os seres humanos, antes de mais nada, precisam de comida para viver e sobreviver. A fome é a mais violenta negação dos direitos humanos.
Grande Josué de Castro, que merece estátuas modeladas em ouro, em bronze, ou simplesmente em pão, em todos os Horizontes e em todos os Continentes, inclusive na sede da ONU!  
Josué de Castro denunciou a fome como “problema social”. 
Graciliano Ramos, nos seus romances, mostrou que  a fome não brota do céu.  A fome tem causas na terra, nas injustiças imperantes.
Josué e Graciliano sofreram exílio e prisão.
Parecem-nos chocantes as sociedades que estabeleciam ou estabelecem expressamente a existência de “párias”, na escala social; mas temos, na estrutura da sociedade brasileira, “párias” que não são legalmente ou expressamente declarados como tais, mas que “párias” são em verdade.
São “párias” e têm seus descendentes condenados à condição de “párias”.
São “párias” porque estão à margem de qualquer direito, à margem do alimento que a terra produz, à margem da habitação que a mão do homem pode construir, à margem do trabalho e do emprego, à margem da participação política, à margem da cultura e da fraternidade, à margem do passado, do presente, do futuro, à margem da História, à margem da esperança.  Só não estão à margem de Deus porque em Deus confiam.
No Brasil, a grande figura profética, na luta contra a fome, foi o sociólogo Herbert de Souza, ou simplesmente o Betinho, como ficou carinhosamente conhecido.
A fome tem pressa, disse Betinho, com extrema racionalidade.  
Condenado a morrer, Betinho lutou, até o último momento, pela vida.  Mas não tanto pela sua vida. Lutou muito mais pela vida do povo brasileiro, dos marginalizados e oprimidos, dos que são massacrados pela injustiça brutal que é a fome.
Morto Betinho, a luta continuou e prossegue, sob a inspiração desse ser humano incomum que, com muita razão, Frei Leonardo Boff proclamou como “santo”.
Que se multiplique por este país, de todas as formas possíveis, o eco ao apelo que Betinho fez, em nome dos que não têm calorias nem para protestar.
A vida concedeu-me a felicidade de ter três encontros com Betinho: no Rio, na sede do IBASE, para atender uma convocação sua no sentido de escrever um livro sobre a Constituinte.  Mais uma vez no Rio, na Universidade Santa Úrsula, para participar de um debate com ele. Finalmente, em Belo Horizonte, para comparecer ao lançamento de um livro seu.
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