domingo, 27 de setembro de 2020

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Maior cientista político do sertão conta história de vida

Por Redação

Azeário Ferreira, nascido em Major Isidoro vivenciou grandes fatos do cotidiano, da política e do futebol du- > rante décadas. Ele conheceu personalidades da vida nacional e conta a história real de perto

Nascido no dia 27 de setembro 1943, nο Povoado Riacho dο Sertão, hoje São Marcos, filho de Ermenegilda Maria da Conceição e Jοãο Porfírio da Silva, Azeário Ferreira atravessou fronteiras para vencer na vida e conheceu muitos personagens marcantes da história.

Azeário, considerado o maior cabo eleitoral do sertão e cientista político, relembra nesta reportagem alguns episódios marcantes e sua vida.

Ainda na infância conheceu ο famoso coronel João Bezerra que foi ο comandante da tropa dα Polícia alagoana, que naquela época era conhecido como “volante”, que eliminou o famoso cangaceiro Lampião, sua esposa Maria Bonita e mais nove cangaceiros.

“Estava na casa do senhor Justino Lopes Carneiro que era escrivão do lugar. Nesse tempo eu tinha de nove a dez anos. Era muito curioso para saber das coisas e perguntei ao coronel se ele tinha matado o famoso Lampião, o rei do cangaço. Ele respondeu em cima da bucha: “Quem matou Lampião foi a bala”. Percebi que ele não gostou da minha pergunta, então fui embora para casa.

Outros personagens marcantes para Azeário foram os ex-governadores Muniz Falcão e Arnon de Melo, pai do ex-presidente Collor.

“Por volta de 1950, meses depois da visita de João Bezerra, chega na casa da minha família, um senhor por nome de Muniz Falcão, que era amigo do meu pai. Ele foi deputado federal e um bom governador de Alagoas. Mas foi cassado. Certo dia vou a feira de Sertãozinho que hoje é Major Isidoro e assisti um comício do dr. Arnon de Melo. Era candidato ao governo do Estado (isso por volta de 1949 ou 1950) e no intervalo do comício vi um jipe que tinha uma máquina de costura que ele ia dizia que ia dar a uma amiga dele. Dizem que ele percorreu todo o estado de Alagoas com a máquina e não encontrou essa amiga.

Getúlio, Lacerda e celebridades intelectuais 

Anos depois em 1953 Azeário viaja com sua família para a Capital Federal, o Rio de Janeiro.

“Fomos de caminhão (que naquele tempo era apelidado de pau de arara) e gastamos 21 dias de viagem para chegar ao Rio de Janeiro. Parecia que o Rio, era o fim do mundo.

“Fomos morar na casa do meu tio Oséas, em Bangu. Um ano depois em 1954, morre o presidente Getúlio Vargas.

Lembro do meu tio – ao saber da morte do presidente – chorando muito. Perguntei o porque ele estava chorando e ele respondeu que Getúlio era o pai da pobreza do Brasil”.

“Essa história não acabara aí, pois o governador do Rio Carlos Lacerda, simulou um atentado contra ele na Rua Toneleiros e as pessoas da época diziam que esse atentado foi inventado, pois ele queria incriminar o presidente Getúlio para enfraquecer seu governo e consequentemente chegar ao poder. Lacerda pagou caro por isso”, lembra.

Dois anos depois, Azeário foi trabalhar na Gráfica Freitas Bastos, na Rua José de Alencar, no bairro de São Cristóvão, de propriedade do Dr. Jackson e o gerente geral Dr. Reinaldo, anos depois o transferiu para trabalhar na Livraria Freitas Bastos no Largo da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro, onde fica o edifício central.

“Lá tive a honra de conhecer Nelson Hungria, Pontes de Miranda, Miguel Reale, Orlando Fragoso e Aurélio Buarque de Holanda. Anos depois fui trabalhar em outra livraria de nome Brasiliana na Rua Dom Pedro I, que fica ao lado do Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, onde conheci artistas famosos como Paulo Gracindo, Jardel Filho, Stênio Garcia. Outra que era cliente da livraria brasiliana era Virgínia Lane, a primeira vedete do Brasil. Pra mim ela foi a vedete mais importante do Brasil, e hoje seu nome está no esquecimento da cultura brasileira. Na Livraria Brasiliana tive o prazer de fazer belas amizades com Raquel de Queiroz, professor Astério de Campos,
Jorge Amado, professor Melo de Souza (Malba Tahan). Anos depois fui trabalhar na famosa Livraria São José de propriedade de Valter Alves da Cunha e Carlos Ribeiro e lá convivi com pessoas como Gilberto Freitas, Otto Maria Carpeax, Manuel Bandeira, Ferreira de Castro e o governador de Minas Gerais Magalhães Pinto”, relata.

Ditadura militar 

Azeário foi considerado subversivo pelo DOPS. Ele conta uma triste passagem do ano de 1964 quando eclodia a ditadura militar no país.

“No ano de 1964, que era um ano da tirania da ditadura militar, lembro muito bem, quando estava almoçando no restaurante Bela Itália, que fica na rua Dom Pedro I, esquina com a Praça Tiradentes, quando apareceu dois soldados e me deram voz de prisão.

Eles me disseram que eu era subversivo e me levaram para o DOPS que ficava na rua Marechal Floriano, no centro do Rio. Me colocaram em um quarto escuro e me falaram que a noite eu ia dar um passeio sem volta. Antes disso eles me interrogaram e perguntaram se eu pertencia a algum grupo comunista. Eu respondi que não, que trabalhava na Livraria Brasiliana e se eles não acreditassem eles poderiam perguntar ao dono da livraria, o senhor Roberto Alves da Cunha, mais conhecido como Robertinho. Deus me protegeu que no outro dia bem cedo fui liberto e voltei a trabalhar. Meses depois assisti o grande comício do ex-ministro do trabalho João Goulart (do governo de Getúlio) na central do Brasil. O Brasil entrou num caminho quase em volta.

Ídolos do futebol: Mané Garrincha e Pelé

O sertanejo de Major Isidoro também foi testemunha ocular de grandes momentos do futebol.

“Vi no maracanã Brasil e Inglaterra, no ano 1959. Nesse dia, Mané Garrincha não pode
jogar e o técnico Vicente Feola escalou Julinho Botelho no lugar de Garrincha. O Maracanã estava lotado com mais de 130 mil pessoas e estremeçeu com as vaias em Julinho Botelho, Mas Deus sabe o que faz e ele nesse jogo só não fez chover. Além do gol que marcou, ainda deu o passe para o segundo gol feito pelo atacante Henrique do Flamengo. O brasil saiu vitorioso diante da Inglaterra do famoso jogador Bob Charlton.

Em 1963, vi as partidas entre Santos e Milan pela Libertadores. O Santos tinha que ganhar as duas partidas para ser campeão. Ganhou a primeira por 4×2 e a segunda por 1×0. Em 1966, a final do campeonato carioca foi memorável. Vi meu Bangu ganhar do Flamengo por 3×0. Vi também a despedida de Mané Garrincha, no ano de 1973. Assisti também no maracanã um jogo amistoso entre Santos e Vasco. Nesse jogo o rei Pelé, de pênalti, fez o milésimo gol em cima do goleiro Andrada.

Lugares e pessoas

Azeário relembra pontos frequentados pela sociedade carioca ainda existentes no Rio de Janeiro.

“Conheci pontos famosos do Rio de Janeiro; a famosa e centenária Confeitaria Colombo, onde fui diversas vezes. Era ponto de encontro da política e da cultura no Rio  de Janeiro. Essa confeitaria era visitada por ilustres como Rui Barbosa, Olavo Bilac, presidente Getúlio Vargas, Chiquinha Gonzaga e VillaLobos e também o Bar do Amarelinho que fica na Cinelândia.

Em Moça bonita conheci o presidente do Bangu, Eusébio Andrada e seu filho, o famoso bicheiro Castor de Andrada, que na minha opinião foi o maior presidente do Bangu. C Ataulfo Alves, Valdir Amaral, Jorge Curi e o comentarista Rui Porto, João Saldanha e Otto Glória, tive o privilégio de conhecer.

No Rio de Janeiro eu ia a Caxias conversar com meu amigo Ivan Barros. Ele trabalhava no jornal Luta Democrática, de Tenório Cavalcanti. Anos depois, Ivan Barros já trabalhava na Revista Manchete de Adolpho Bloch. Na morte do presidente Juscelino na Rio-São Paulo foi o primeiro repórter a dar a notícia da morte do presidente. Anos antes Ivan Barros fora eleito vereador de Palmeira dos Índios, mais votado da história e depois torna-se candidato a deputado e mais tarde é candidato a prefeito de Palmeira dos Índios. Eu assisti seus discursos que eram brilhantes e eu o apelidei de “patativa do sertão”.

Brasil: miseráveis e corruptos Azeário fala da situação do país nos dias de hoje e o avanço da corrupção em todos os níveis políticos. “Nos dias de hoje vejo dois brasis, um dos miseráveis e outros dos corruptos, o brasileiro é vítima da imensa carga tributária, pois o brasil é talvez o país que mais se paga impostos do planeta terra e esses impostos não são revertidos para a população mais carente”.

Para encerrar Azeário deixa uma pequena frase para reflexão; “não existe sábio em sua terra natal, por que a verdadeira amizade é um perfume que embalsa a vida. Nunca morre. Pense nisso”, diz.

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