sexta-feira, 18 de setembro de 2020

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Estudante com hidrocefalia consegue na Justiça Federal correção da prova do Enem

Por Redação
A jornalista Mônica Nunes recorreu à justiça para que a prova de Luiz Felipe fosse novamente corrigida (Foto: Arquivo Pessoal)

A jornalista Mônica Nunes recorreu à justiça para que a prova de Luiz Felipe fosse novamente corrigida (Foto: Arquivo Pessoal)

A Justiça Federal determinou que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), faça uma correção da prova de Redação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), que foi redigida pelo estudante Luiz Felipe Alves Pereira, em um prazo de 30 dias, atendendo as limitações e singularidades inerentes a uma pessoa portadora de necessidades especiais. O candidato mora em Arapiraca, e é portador de Hidrocefalia e Paralisia Cerebral Diplégica Estática (CID 10: G801).

A informação foi enviada pela Assessoria de Comunicação da Justiça Federal, por determinação do juiz federal Flávio Marcondes Soares Rodrigues, titular da 8ª Vara Federal.

No mês passado, a jornalista Mônica Nunes, mãe de Luiz Felipe, mostrou revolta porque o sistema de provas do Enem não possui uma avaliação diferenciada para portadores de necessidades especiais. De acordo com ela, Luiz Felipe foi avaliado na Redação com nota zero, fato que o excluía de entrar para uma universidade, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

Ela disse, ainda, que da maneira dele, o filho passou seis horas dentro da sala de aula e escreveu a prova, contendo 30 linhas, relatando que mulheres não deveriam ser agredidas, pois o tema da prova era sobre a violência contra a mulher.

Luiz Felipe possui hidrocefalia congênita,  uma doença que acumula  líquido dentro do crânio, provocando problemas como pouca força muscular, déficit de atenção e declínio no desempenho escolar. Mesmo com todas as dificuldades eles foi alfabetizado aos 8 anos e concluiu o ensino médio aos 20 anos.

Nas redes sociais, a jornalista fez um desabafo comovente e que acabou em mais uma vitória para a família. Leia na íntegra:

Nota de uma mãe sobre o resultado ENEM:

“Parabéns a turma de corretores do ENEM, vocês conseguiram!

Deram 0 ( isso, zero), a redação de Luiz Felipe Alves Pereira na prova, anulando suas chances de ingresso através do SISU. Se a intenção de vocês era “selecionar” os jovens para acesso à universidade, vocês conseguiram uma proeza: perderam a oportunidade de ler além do que está escrito, colocando lá dentro quem realmente merece.

Aquela nota foi difícil digerir. Aliás, a ausência dela.

Vocês conseguiram, fui dormir em exaustão de chorar. Mas pela manhã já me refiz para dizer: vocês não sabem ler. Não à vida que ele escreve.

Ele ficou seis horas numa sala, escreveu trinta linhas e, do seu jeito, disse que mulheres não merecem ser agredidas. Mas vocês não entenderam. E foi mais fácil zerar as possibilidades de quem, desde que foi gerado, tenta viver “apesar” de gente como vocês… Que não leem além do beabá dos outros.

Vocês não leram as dificuldades de aprendizado, o preconceito e a discriminação. Vocês buscavam ortografia, gramática, semântica…

Felipe tem outros dons. Sobreviveu a médicos que o condenaram à cirurgias que o moldaram, a dores que o machucaram e a gente que não o aceita. Mas ele é um cidadão. Se submeteu a essa tortura chamada ENEM, sem reclamar de nada. Ele é um cidadão respeitador da ordem. A ordem era fazer a prova. Ele a fez.

A ordem seria ele ter uma nota. Mínima, mas que respeitasse seu esforço sob uma coluna arqueada, tentando coordenar os pensamentos que dançam em sua cabeça infiltrada de água da hidrocefalia. Mas vocês não leriam isso.

Não leram os anos de escola, as dezenas de simulados tentando aprender essa regra desleal; nem leram a expectativa frustrada diante de uma nota em branco. Atônito, ele não entendeu mais essa. Mas resignado, ele a aceitou.

Mas eu não. Segunda entro com um mandando de segurança, uma liminar, uma pedra na mão… Claro que não será fácil, nem sei se teremos alguma mudança nesse resultado. De certa forma, nem sei se quero mudar essa regra, esse jogo.

Queria apenas que alguém que corrigiu aquela prova tivesse alguma chance de conhecê-lo, para olhando nesses olhos tão ingênuos e vendo aquele sorriso tão marcante, que nota daria para essa vida?

Não, Felipe não precisa de nota de ninguém, de nada. Ele não veio para aprender. Ele está aqui para ensinar.

Te amo filho. Olha aí o resultado! Parabéns meu anjo! Você é 10! “

Mônica Nunes, jornalista, mãe de Luiz Felipe, portador de necessidades especiais.

 

 

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