terça-feira, 18 de Maio de 2021

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Sabino Romariz

Por Divaldo Suruagy

    A colonização brasileira, fortemente influenciada pelos princípios de religiosidade que os jesuítas implantaram nas novas possessões portuguesas, terá motivado a tradição, viva até quase metade do século XX, de as famílias mais tradicionais, sobretudo as do Norte e Nordeste do país, escolherem um de seus filhos para encaminhá-lo ao seminário. Muitos sacerdotes virtuosos e cultos foram fruto dessa escolha vocacional paterna, embora alguns não tenham chegado à ordenação.
Em pleno Brasil-Império, nasceu, em Penedo, município já à época notável por suas riquezas históricas, no dia 25 de março de 1873, o filho do então renomado poeta luso-alagoano, João de Almeida Romariz, batizado Sabino, em homenagem ao avô materno que, inclusive, foi o seu verdadeiro genitor já que os pais faleceram quando o garoto sequer atingira a primeira década da vida. Sob a orientação do Capitão Sabino Alves Feitosa e de dona Ana Senhorinha, ele cresceu em inteligência e saber. Concluído o curso de humanidades, no rincão natal, foi matriculado, como aluno, interno, no Colégio Diocesano da capital pernambucana, para fazer os preparatórios e dali, induzido, ou não, o jovem Sabino ingressou no Seminário de Olinda, então centro de cultura humanística e filosófica da maior importância no contexto nacional.
À medida em que amadurecia como homem e intelectual, Romariz foi descobrindo não possuir vocação religiosa suficiente para ser padre.
Às vésperas da ordenação, abandonou o seminário, para desespero dos avós que consideravam a expectativa de ter um neto “pastor de almas”, uma honraria singular. Em represália, cortaram-lhe a mesada. Para sobreviver, passou a lecionar, destacando-se como professor de português, latim, inglês e francês, atividade que exerceu com grande eficiência em Alagoas, na Paraíba, no Rio de Janeiro e no próprio Seminário de Olinda, onde adquirira esses conhecimentos. Paralelamente, despontava seu talento literário. Colaborou nos melhores jornais e revistas de todas as cidades por onde passou. Seus poemas e sonetos o consagraram, a nível nacional, como um dos grandes poetas de sua geração.
Mesmo sem ser padre, não se afastou da espiritualidade, marca de sua poesia, fundamentalmente lírica e impregnada da religiosidade e do misticismo transcendental.
Morreu em Penedo, no dia 9 de maio de 1913, aos 40 anos. Deixou viúva  a jovem Aspásia, mocinha do campo, de poucas letras, muito mais nova do que ele, com quem se casara, para surpresa dos amigos que o consideravam um boêmio e inveterado celibatário. O casal teve dois filhos, João e José, troncos da família Romariz que hoje brilha com os valores intelectuais de seus descendentes, como Alary, Vera e Sabino Romariz, o herdeiro do nome do ancestral famoso.
A vasta obra do consagrado vate penedense está contida nos treze livros que legou à posteridade, o primeiro dos quais, As Três Gemas, publicado no Rio de Janeiro em 1998. São poemas heróicos e bíblicos, sonetos, prosa, como Mea Culpa, e, até um livro de dramas, Baiuca, recheado de peças burlescas. Nos versos de Ultima Lágrima, deixa um romântico testamento: Quando eu morrer, verás alma adorada / Qual ave que do mundo se intimida / A derradeira lágrima perdida, / Rolar-me pela face amargurada. / Alguém há de a guardar e és tu quem há – de, / a peregrina estrela da saudade, / a derradeira lágrima de amor.

(Último artigo escrito pelo ex-governador Divaldo Suruagy, publicado no semanário Tribuna do Sertão, edição de segunda-feira, 23)

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