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memória
O que pensava de si mesmo o escritor Graciliano Ramos
O mestre Graci descreve a si próprio em texto raro

Redação

       Há 57 anos o Brasil perdia o  escritor Graciliano Ramos, que foi prefeito de Palmeira dos Índios e considerado por muitos, como o “pai da lei de Responsabilidade Fiscal”, (legislação tão propalada nos dias de hoje, especialmente nos gabinetes das secretarias doGoverno Teotonio Vilela que se justifica através dela para não conceder reajustes do duodécimo aos outros  poderes, com a premissa de que não pode infringi-la).

       Mas, Graciliano,  partia, para a eternidade na morna madrugada de 20 de março de 1953. O áspero, amargo, mas profundamente humano e simples “Velho Graça” ou “Graci”, como chamavam os mais próximos - sertanejo autêntico, nascido em Quebrangulo, vivido maior parte da existência em Palmeira dos Índios - nasceu em 1892 e passou quarenta anos de sua vida enfrentando as mesmas dificuldades e as mesmas lutas dos seus conterrâneos, ainda hoje eternamente sacrificados pela inclemência da natureza e pelo abandono de todos os governos. Sóbrio como sempre foi, fez-se um dia negociante, na Loja Sincera, do pai, destruída criminosamente em 2000, pela avareza de alguns, e que de lá tornou-se prefeito. Foi só então que Graciliano Ramos encontrou oportunidade para se fazer escritor que sempre desejou ser, conforme narra Ivan Barros em seu livro "Graciliano Ramos Era assim "a ser reeditado pelo governo de Alagoas, neste ano Graciliano. Um relatório do obscuro prefeito de Palmeira dos Índios foi parar, não se sabe como, nas mãos do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt. Era um relatório trasbordante de pitoresco, original na linguagem e no modelo. Em conseqüência, editava-se em 1933 o primeiro romance "Caetés" daquele que viria a ser o mestre do gênero entre nós. "Caetés" é o retrato de Palmeira dos Índios e sua sociedade nos anos 20. Nos últimos anos de sua vida, Graciliano Ramos pôde dedicar-se à sua vocação de escritor, através do qual nos deu obras-primas como "Angústia" (1936), Vidas Secas (1938), "Infância" (1945), Insônia, (1947), sem falar em "São Bernardo" um romance de amor sem igual. Uma obra que não é grande pela quantidade, pois o velho Graça foi sempre um torturado da forma e do estilo. Mas pelo vigor da mensagem humana que encerra. As amarguras de uma vida intensamente vivida e sofrida tornaram-no um pessimista, às vezes exasperado. Mas foi testemunha, à sua maneira, calado e sóbrio da comovente consagração que povo e intelectuais promoveram em sua homenagem ao completar 60 anos. Morto, vingava-se da vida. Teve um enterro de rei.

       Por tudo isso, sua morte é lembrada pelos que fazem a Tribuna do Sertão, em Palmeira dos Índios, o jornal que tem mais anos de circulação do que O Índio (seu jornal nos anos 20), em homenagem a esse heróico nordestino e que continua sendo lembrado no mundo inteiro, por tudo o que fez, escreveu, viveu e amou.

             “Nasci em 27 de outubro de 1892, em Quebrangulo, Alagoas, donde saí com dois anos. Meu pai, Sebastião Ramos, negociante miúdo, casado com a filha de um criador de gado, ouviu os conselhos de minha avó, comprou uma fazenda em Buíque, Pernambuco, e levou para lá os filhos, a mulher e os cacarecos. Ali a seca matou o gado, e seu Sebastião abriu uma loja na vila, talvez em 95 ou 96. Da fazenda conservo a lembrança de Amaro vaqueiro e José Baía. Na vila conheci André Laerte, cabo José da Luz, Rosenda lavadeira, padre João Inácio, Felipe Benício, Theotoninho Sabiá e família, seu Batista, dona Maricas, minha professora, a mulher de seu Antônio Justino, personagens que utilizei anos depois. Aprendi a carta de ABC em casa, agüentando pancada. O primeiro livro na escola foi lido em uma semana; mas no segundo encrenquei: diversas viagens à fazenda de um avô interromperam o trabalho e logo no começo do volume antipático a história besta de Miguelzinho que recebia lições com os passarinhos fechou-me, por algum tempo, o caminho das letras. Meu avô dormiu numa cama de couro cru, e em redor da trempe de pedras, na cozinha, a preta Vitória mexia-se preparando a comida, o chiqueiro das cabras, meninos e cachorros numerosos, soltos no pátio, cobras em quantidade. Nesse meio e na vila passei os meus primeiros anos. Depois seu Sebastião aprumou-se e em 99 foi viver em Viçosa, Alagoas, onde tinha parentes. Aí entrei no primeiro livro e percorri várias escolas, sem proveito. Como levava uma vida bastante chata, habituei-me a ler romances. Os indivíduos que me conduziram esse vício foram o Tabelião Jerônimo Barreto e o agente do correio, Mário Venâncio, grande admirador de Coelho Neto e também literato, autor dum conto que principiava assim: “Jerusalém, a deicida, dormia sossegadamente à luz pálida das estrelas. Sobre as colinas pairava uma tênue neblina, que era como o hálito da grande cidade adormecida”. Um conto bonito, que elogiei demais, embora intimamente preferisse o de Paulo Kock e o de Júlio Verne. Desembestei para a literatura. No colégio de Maceió, onde estive por pouco tempo, fui um aluno medíocre. Voltei para Viçosa; fiz sonetos e conheci Paulo Honório que em um dos meus livros aparece com outro nome. Aos dezoito anos fui com minha gente morar em Palmeira dos Índios. Fiz algumas viagens à Buíque, revi parentes do lado materno, todos em decadência. Em começos de 1914, enjoado da loja de fazendas de meu pai, vim para o Rio, onde me empreguei como foca de revisão. Nunca passei disso.

        Em fim de 1915, embrenhei-me de novo em Palmeira dos Índios. Fiz-me negociante, casei-me, ganhei algum dinheiro, que depois perdi, enviuvei, e tornei a casar, enchi-me de filhos, fui eleito prefeito e enviei dois relatórios para o governador. Lendo um desses relatórios, Schimidt imaginou que eu tinha algum romance inédito e quis lançá-lo. Realmente o romance existia, um desastre. Foi arranjado em 1926 e apareceu em 1933. Em princípio de 1930 larguei a prefeitura e dias depois fui convidado para diretor da imprensa oficial. Demiti-me em 1931. No começo de 1932 escrevi os primeiros capítulos de “São Bernardo”, que terminei quando saí do hospital. As recordações do hospital estão em dois contos publicados ultimamente, um em Buenos Aires, outro aqui. Em janeiro de 1933 nomearam-me diretor da instrução pública de Alagoas – disparate administrativo que nenhuma resolução poderia justificar. Em março de 1936, no dia em que me afastavam desse cargo, entreguei à datilógrafa as últimas páginas de “Angústia”, que saiu em agosto do mesmo ano, se não estou enganado, e foi bem recebido, não pelo que vale, mas porque me tornei de algum modo conhecido, infelizmente. Mudei para o Rio, ou antes, mudaram-me para o Rio onde existo, agora. Aqui fiz o meu último livro história mesquinha, um casal vagabundo, uma cachorra e dois meninos. Certamente não ficarei na cidade grande. Preciso sair. Apesar de não gostar de viagens, sempre vivi de arribada, como um cigano. Projetos não tenho. Estou no fim da vida, se é que a isso se pode dar o nome de vida. Instrução quase nenhuma. José Lins do Rego tem razão quando diz que a minha cultura, moderada, foi obtida em almanaques”.

 
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