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memória
Jacinto Silva: no coração da gente
Jacinto, ícone musical nascido em Palmeira dos Índios

Luciano José

 

          A cultura musical nordestina, atualmente tão maltratada por expressões de qualidade duvidosa, pode ser definida a partir do nome de três figuras emblemáticas: Luiz Gonzaga (inventor e divulgador do baião), Jackson do Pandeiro (cantor de habilidade rítmica invejável) e Dominguinhos (virtuoso instrumentista de herança gonzagueana). No entanto, as festividades juninas em terras xucurus remetem ao nome musicalmente mais expressivo que a cidade já apresentou: Jacinto Silva (cantor especialista em várias modalidades de coco e  forró).

          Ao popularizar o coco sincopado – gênero desenvolvido por Jackson do Pandeiro que fundia trava-língua com pique de embolada – Jacinto consegue desenvolvê-lo de forma complexa e sofisticada, tanto no modo de compor como na forma de interpretar. Usando uma divisão rítmica peculiar interpretava canções que possuíam sutis armadilhas capazes de enrolar a língua daquele que não tivesse o talento típico dos emboladores.

          No texto “O desmantelo que constrói” de Gilson Oliveira, o autor apresenta uma explicação de Jacinto sobre o estilo trava-língua. Tratando do tema, Jacinto esclarece que “esse nome trava-língua foi extraído das cantorias, mais precisamente daqueles em que os repentistas procuram complicar a vida dos desafiadores, através de rimas raríssimas e estruturas poéticas complicadas, como a sextilha”. Um exemplo claro dessa questão se encontra no refrão da música Coco do M, composição de Jacinto em parceria com Zé do Brejo: “Mané mandou, Maria, Mateus / Murilo mandou o meu martelo no meia má / Quando eu canto esse coco / A minha língua treme / Quem fizer outro coco em M / Eu amarro e mando matar.”

          Sebastião Jacinto da Silva nasceu em 23 de outubro de 1933 no  Povoado de Canudos, atualmente Belém. Foi criado ouvindo os cantadores de coco, violeiros, mestres de reisados, guerreiros, cantadores de sentinela e terço. Ainda pré-adolescente, influenciado por Jackson do Pandeiro e Ary Lobo, começou a cantar embolada, coco-de-roda e forró, acompanhado por um conjunto regional. Exerceu várias atividades para ajudar a família pobre, se envolveu com muitas brincadeiras e abandonou a escola muito cedo. Casou-se em 1951 com Marina Ferreira da Silva e teve cinco filhas: Ana Maria, Rosa Maria, Sônia Maria, Ruth Maria e Cícera Maria.

          Sua estréia artística ocorreu, em 1952, na antiga Rádio Difusora de Alagoas (ZYO-4) no programa “Rádio Variedades”, comandado por Odete Pacheco. Na ocasião, interpretou a música “Vontade de comer goiaba” de Carlos Galindo e retornou a Palmeira rebatizado pela comunicadora com o nome de Jacinto Silva e um apelido que o tirava do sério: Sebastião da goiaba.   

           Em 1957 chegou a Caruaru e resolveu fixar residência. Em 1960, após ter trabalhado em Palmeira dos Índios e em Maceió como fabricante de mosaico, exerceu esse ofício pela última vez. Integrou as caravanas de Ivan Bulhões e Pau de Sebo que reunia nomes importantes da música nordestina como: Abdias, Marinês, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro, Osvaldo Oliveira, João do Pife, Coronel Ludugero, Elino Julião, entre outros. A caravana lotava praças, clubes, circos, cinemas e ginásios esportivos nas cidades por onde se apresentava.

           Após a separação com Marina, casou-se com Maria Lieta e teve seis filhos: Jacira Jacinto, Jailton Jacinto, Penha Maria Jacinto, José Jairo Jacinto, Jaira Jacinto e o filho que morreu aos 10 anos de idade. Em 1962 gravou seu 1º disco 78 RPM “Justiça divina / Bambuê bambuá”. Depois surgiram “Coco trocado / Chora bananeira”, “Tombou e virou / Carreira novo”, “Aquela rosa / Na base do tamanco”.

          Ao longo dos anos sessenta e setenta, teve seu talento reconhecido, assinou contrato com a gravadora CBS (atual Sony Music) e fez uma série de apresentações nos clubes sociais de Maceió e em outras cidades. A partir de então, passou a ser destaque nas festas juninas da cidade de Caruaru.

          Nos anos oitenta, seu prestígio foi ignorado pelo desinteresse no forró por parte das grandes gravadoras e pela massificação do rock nacional e do axé music. Em 1982, lança o LP O vestido da Mariana e se insere no estilo conhecido como “pornoforró”, ou seja, músicas de duplo sentido que, visando atender aos interesses comerciais da indústria fonográfica, contamina uma parte considerável dos compositores nordestinos a partir da década de setenta.

          Em 1994, participou do projeto I Voo do Forró, com apresentações em cidades da Europa, junto com outros artistas de Caruaru, para divulgar a música nordestina.

          Em 1996, conheceu Silvério Pessoa, consolidando uma intensa amizade e um encontro musical bastante fértil. Tornou-se membro do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV) e levou com ele toda a família. Jacinto buscava nos vegetais a cura para combater o estágio avançado da esquistossomose.

          Em 1998, gravou com o grupo Cascabulho a canção “Xodó de sanfoneiro”, do CD “Fome dá dor de cabeça”, lançada por Jackson do Pandeiro em 1962 e no ano seguinte apresenta-se no programa Ensaio da TV Cultura de São Paulo comandado por Fernando Faro.

          Em 2000, Silvério Pessoa gravou o CD “Bate o mancá” com repertório de Jacinto. Ainda neste ano gravou seu último trabalho “Só não dança quem não quer” e participou do documentário “Moro no Brasil” do finlandês Mika Kaurismäki, cantando junto com Silvério Pessoa.

          Em 19 de fevereiro de 2001, morreu em Caruaru, aos 67 anos, de complicações no fígado deixando viúva Maria Lieta, 4 filhos e 3 netos. Segundo Jacinto, seu grande sucesso foi a marcha de roda Aquela rosa, mas outras músicas lhe valeram sucessos como Sabiá da mata, Terra do folclore, Gírias do Norte, Puxa o fole Zé, Saudade de Alagoas, Coco machucado, Adeus Corina, Aboio de um vaqueiro, Coco trocado, Carreiro novo e outras. Gravou ao longo da carreira 4 discos 78 RPM, 2 compactos duplos, 20 LPs e 3 CDs.

            Dentre os LPs gravados podemos destacar os seguintes: Ritmo explosivo (64), Cantando (65), Só era eu (67), É caco pra todo lado (69), Jogo do amor (70), Agora tu pega e vira (71), Desafio (72), Xodó de lado (73), Eu chego já (73), O que é meu é teu (75), Festival de verão (78), Tire que tem forró (79), Passando a cabeça o resto passa (80), Gírias do Norte (81), O vestido de Mariana (82), Confusão no galinheiro (83), Mocotó com catuaba (86), O forrozeiro (93), Em nome do sol (95), Só não dança quem não quer (2000).

          Participou como compositor dos trabalhos de vários artistas: Abdias dos Oito Baixos, Anastácia, Ângela Maria, Ary Lobo, Clemilda, Coronel Ludugero, Genival Lacerda, Ivan Ferraz, João do Pife, Joci Batista, Manezinho Silva, Marinês e Sua Gente, Marlene Vidal, Os 3 do Nordeste, Quinteto Violado, Trio Nordestino e Xangai.

          Em maio deste ano, foi lançado pela Link Comunicação e Propaganda  em parceria com a Candeeiro Records o CD tributo intitulado Jacinto Silva: No coração da gente, com vários artistas interpretando seu repertório com versões e arranjos novos.

           Portanto, alimentar o hábito de ouvir o trabalho musical de Jacinto Silva é não só valorizar as raízes e a tradição de um povo, mas também admirar o talento de um indivíduo que soube superar as contingências da vida cantando, compondo, promovendo desafios e alegrando sua gente. A música popular nordestina, além da contribuição de grandes nomes, precisa tomar novo fôlego e se abastecer das criações de Jacinto Silva. Precisa ser ouvido ao longo do ano e não só nos festejos juninos. Precisa ser aclamado com gosto: Vida longa ao mestre do coco sincopado!

 

 
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