| “Que é que essa gente de Maceió sabe a respeito de minhas resoluções? Não quero emprego no comércio – antes ser mordido por uma cobra. Sei também que há dificuldades em se achar um emprego público. Também não importo com isso. Vou procurar alguma coisa na imprensa, que agora, com a guerra, está boa a valer, penso. Portanto... os amigos que guardem suas opiniões”, Viçosa, em 21 de agosto de 1914. Graciliano Ramos, em carta ao pai, Sebastião Ramos , aos 22 anos.
O mestre Graça dedicou-se à literatura, à política e ao ensino, mas também era um grande jornalista. Foi no batente dos jornais onde trabalhou - no Rio de Janeiro e em Alagoas - com sua linguagem enxuta e sintética que Graciliano obteve mais fermento para sua obra.
O então governador Álvaro Paes, impressionado com os dois relatórios de prestação de contas de sua administração (1929 e 1930), como prefeito de Palmeira dos Índios, convida Graciliano Ramos para dirigir a Imprensa Oficial do Estado. Os relatórios, escritos de forma impecável e em linguagem literária, depois ficaram famosos e integram o corpo do livro Viventes das Alagoas.
O intelectual fica empolgado com o convite e renuncia ao cargo de prefeito e muda-se com a família para Maceió. O orçamento do órgão é raquítico, mas mesmo diante das dificuldades faz uma boa administração. Adota uma gestão rigorosa quanto à presença dos servidores; é perfeccionista na revisão do Diário Oficial.
A Imprensa Oficial onde Graciliano Ramos atuou tinha sede na rua Boa Vista, centro de Maceió, em um belo casarão de dois andares construído pelo governador Clodoaldo da Fonseca, em 1912. Um fato curioso do surgimento da Imprensa no Estado, registrado pela Associação Brasileira de Imprensas Oficiais, é que o decreto que criava a instituição tornava obrigatória a assinatura do Diário Oficial para todos os servidores públicos na ativa.
No centro, entre os prédios importantes da época já estavam a Assembléia Legislativa, as igrejas, e os sobrados que compunham a primeira fisionomia urbana de Maceió. O prelo de chumbo e todo material tipográfico só foram aposentados em 1974, quando foi introduzido o sistema offset na Imprensa Oficial, já em sua nova sede, na avenida Durval de Góes Monteiro, na gestão do governador Afrânio Lajes.
“Foi nesse meio que a Imprensa Oficial surgiu como força inestimável para a formação de mão-de-obra para o desenvolvimento das artes gráficas e do jornalismo, e a fixação da memória do governo, atos e legislações ao longo dos séculos, hoje dispersos em coleções esparsas e cuja recuperação é muito duvidosa”, afirma o jornalista e estudioso da Imprensa alagoana, Petrúcio Vilela.
Para Vilela, recuperar o prédio da antiga Imprensa Oficial, no centro de Maceió, que foi alienado e vendido em leilão pelo governador Manoel Gomes de Barros, seria um bom presente para marcar as comemorações em torno dos 78 anos do Mestre Graça, no D.O.
“Durante as décadas de 1930 a 1950, a Imprensa Oficial era o maior celeiro de grandes intelectuais da terrinha, principalmente um grupo de escritores que iria formar o romance social nordestino. Eles estavam aqui, em Maceió construindo o até hoje mais denso e permanente núcleo da literatura brasileira. E os alagoanos pouco sabem disso!”, completa Vilela.
No tempo em que Graciliano Ramos dirigia a Imprensa Oficial, Aurélio Buarque de Holanda era o revisor de textos, e moravam na capital o romancista paraibano José Lins do Rego e a cearense Raquel de Queiroz. Jorge de Lima atendia em sua clínica médica e já acendia seus lampiões em versos sobre paisagens alagoanas. E a turma avançava com Théo Brandão, Manuel Diegues Júnior, Raul Lima, Carlos Paurílio, Alberto Passos Guimarães, Valdemar Cavalcanti, Aluísio Branco, Cipriano Jucá, alguns deles com passagens pela Imprensa Oficial.
“O pessoal da redação chefiada por Graciliano ia para a Imprensa Oficial bater o ponto e fechar o D.O, e depois arruavam pelo Centro e Jaraguá. Tomavam cervejas e cafezinho no Bar do Cupertino, na esquina da rua do Comércio e a do Livramento. Uma verdadeira sucursal. O diretor Graciliano Ramos teve então que ampliar o número de máquinas de escrever e modernizar toda a estrutura da Imprensa Oficial”, conta Vilela.
A gestão de Graciliano na Imprensa Oficial do Estado é rápida. Ele assume em 31 de maio de 1930, e fica até 26 de dezembro de 1931. Desgostoso com a vida de burocrata da imprensa, ele volta para Palmeira dos Índios, onde escreve os primeiros capítulos de São Bernardo, entre cafés, cachaças e cigarros, na sacristia da Igreja Matriz.
Mas é convidado pelo interventor do Estado de Alagoas, capitão Afonso de Carvalho (nomeado pelo presidente Getúlio Vargas), a assumir a direção da Instrução Pública, hoje seria um secretário estadual de Educação.
Desempregado, Graciliano aceita o convite e deixa definitivamente Palmeira dos Índios para morar em Maceió. Como responsável pela educação no Estado faz visitas surpresas às escolas e sabatina professores, cria a merenda escolar na rede pública. Em 1936, três anos após sua posse na Educação do Estado, é demitido e preso, acusado de subversão, em sua casa na rua da Caridade, no bairro da Pajuçara, onde escrevia Angústia.
Suas crônicas reunidas nos livros póstumos Linhas Tortas (1962) e Viventes das Alagoas (1962) apontam para uma relação clara entre literatura e jornalismo. Em Viventes das Alagoas, na década de 1940, as crônicas do livro foram publicadas na revista Cultura Política, publicação do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, comando pelo truculento Felinto Muller - considerado o “Goebels” (ministro da Comunicação de Adolf Hitler) – no governo de Getúlio Vargas.
Graciliano, como grandes escritores de sua época, ingressava no serviço público para complementar a renda, já que o mercado editorial da época – ainda hoje - estava concentrado no Sudeste e Sul do país e os direitos editoriais eram uma utopia. O próprio Graciliano Ramos descreve a situação, em trecho reproduzido do artigo “Graciliano: literatura e engajamento”, do professor e jornalista Dênis de Moraes, autor do livro “O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos”.
“Como a profissão literária ainda é uma remota possibilidade, os artistas em geral se livram da fome entrando no funcionalismo público”, afirmou Graciliano, que compôs um time dos sonhos dos jornalistas-escritores, cerrando fileira em textos oficiais e governamentais: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Marques Rebelo, Murilo Mendes, Antonio Callado, Otto Lara Resende, Otto Maria Carpeaux, Paulo Mendes Campos, Rubens Braga e Joel Silveira, que virou amigo de Graciliano Ramos no semanário literário Dom Casmurro, onde também trabalhavam Jorge Amado, Cecília Meireles e Carlos Lacerda.
Uma pérola sobre sua passagem pelo jornal Dom Casmurro está na crônica de Graciliano, Os Sapateiros da Literatura, rebatendo um outro artigo de Mário de Andrade, em Linhas Tortas:
“Afinal, quem são os rapazes do D. Casmurro? Os sapateiros da literatura. Não se zanguem, é isto. Somos sapateiros, apenas. Quando, há alguns anos, desconhecidos, encolhidos e magros, descemos as nossas terras miseráveis, éramos retirantes, os flagelados da literatura. Tomamos o costume de arrastar os pés no asfalto, frequentamos as livrarias e os jornais, arranjamos por aí ocupações precárias e ficamos na tripeça, cosendo, batendo, grudando ... Enfim as sovelas furam e a faca pequena corta. São armas insignificantes, mas são armas”.
O menino jornalista
Com 12 anos, em Viçosa, escreve seus primeiros textos. Foi em Viçosa onde nasceu de fato a verve de escritor e jornalista, quando conheceu o agente dos Correios, intelectual e dono da maior biblioteca da cidade, Mário Venâncio. Além de professor de Geografia, Venâncio era editor do periódico O Dilúculo (crepúsculo matutino, algo como: A Tarde), de publicação bimensal. Graciliano trabalhou até o fechamento do jornal, um ano depois, com a morte de Venâncio.
Foi devorando os livros de Venâncio e a convivência alegre com outros jovens viçosenses, que Graciliano tomou gosto pela literatura. O jornalista alagoano Audálio Dantas, autor e curador da maior exposição sobre a vida e a obra do escritor – O Chão de Graciliano – que depois se transformou em um livro reportagem, é quem fala desse rito de passagem de Graciliano em Viçosa.
“Ele passou a ler tudo, de jornais velhos a folhinhas e almanaques. A cidade esqueceu que foi ali, entre os sobradões imponentes que resistem em suas ruas centrais, que iniciou a sua formação o escritor que marcaria a literatura brasileira do século XX”, assinala Dantas.
Em 1909 inicia sua colaboração no Jornal de Alagoas, sob vários pseudônimos, Almeida Cunha e Lambda. Em Palmeira dos Índios, Graciliano também colaborou como cronista de O Índio, assinando com o pseudônimo J. Calisto.
Em agosto de 1914, aos 22 anos, embarca para o Rio de Janeiro no vapor Itassupê, e continua sua carreira de jornalista como revisor dos jornais cariocas Correio da Manhã, A Tarde, O Século, e periódico fluminense Paraíba do Sul. No final do ano, Graciliano volta para Palmeira dos Índios, onde passa a fazer jornalismo e política; é eleito prefeito (1928—1930), e escreve duas obras: Caetés (1933) e São Bernardo (1934)..
Depois de passar quase 11 meses preso pelo governo getulista, Graciliano é libertado em janeiro de 1937, quando decide se estabelecer de forma definitiva no Rio de Janeiro. Passa a escrever crônicas, contos e artigos para jornais e revistas, e pelas mãos de seu amigo José Lins do Rego, é apresentado à vida literária da capital.
Em sua monografia “Crônica: Jornalismo em Graciliano”, para a Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, o jornalista Thiago Mio Salla, resume a relação de Graciliano com o jornalismo.
“Ele expõe as limitações da imprensa, critica o academicismo literário, enfoca o patriarcalismo e o poder oligárquico da estrutura política e destaca a hipocrisia de certas práticas da Igreja Católica. Pratica o discurso irônico como forma de argumentação e reflexão, buscando a conivência do receptor em novas leituras de velhos episódios”. |