domingo, 23 de setembro de 2018

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Um vulcão ativo

Um conhecido veterano militante de esquerda, nos idos de 2006 disse-me com a plena convicção de uma sentença, em contraposição a argumentos de preocupações sobre a realidade brasileira: “não existe isso, o País tem uma democracia consolidada!”. Hoje em dia faz parte dos que denunciam o impeachment contra a presidente Dilma e os seus desdobramentos até os dias atuais.

O grande problema atual, nessas três últimas décadas, é que muita gente acreditou que no Brasil havia, finalmente, um regime democrático totalmente sustentável, a partir da promulgação da Constituição de 1988.

As novas gerações, inclusive de militantes de esquerda e ativistas de redes sociais, foram educadas com essa mesma visão, que lhes passaram “gurus” de várias espécies, na economia, na grande mídia, com seus sociólogos e cientistas políticos engomadinhos, de sotaques indecifráveis.

A discorrerem sobre um País asséptico, globalizado, em que tanto faria analisar os fenômenos surgidos aqui como em New York, Londres ou Paris, como era chamado antes o Circuito Helena Rubinstein da moda. A realidade seria a mesma, os anseios da sociedade idênticos, as características culturais iguais.

Esse sonho, ou pesadelo, foi vendido, e comprado, nas academias, em muitos estratos artísticos, entre os jornalistas, nos chamados “ativistas sociais”, de tal maneira que se tornou o verniz que encobriu os problemas do Brasil real, das grandes maiorias da sociedade.

Quem incentivou, financiou essa visão de País foi o Mercado Financeiro, especialmente o especulativo, com os seus megaespeculadores, a exemplo de George Soros e suas ONGs, cuja finalidade seria a pasteurização do discurso político e cultural por aqui. E funcionou, ainda funciona. A interpretação do Brasil verdadeiro foi chutada para as calendas gregas, salvo os muitos resistentes conhecidos.

Nem os Estados Unidos, a França, a Inglaterra encarnam semelhante idealização na vida prática ou na sua História. A Inglaterra transformou-se em uma nação do primeiro mundo sobre uma imensa pilha de cadáveres de um império colonial “onde o sol nunca se punha”, como eles próprios diziam. Até hoje a sua política externa é bruta e a realidade interna da maioria da população inglesa está distante do “politicamente  correto” adotado pelos filhos da classe média inglesa. A realidade para os demais é pesada.

A charmosa cidade de New York que nos é vendida pelo sistema Globo de TV, e a Globo News voltada para a classe média e as elites, é também outra, muito barra pesada, que o digam os imigrantes legais ou ilegais de lá.

A cidade foi edificada sob os violentíssimos e mortais confrontos entre as gangues de New York que representavam grupos antagônicos de colonos, que disputavam o poder entre si, imortalizado pelo diretor de cinema Martin Scorsese.

Os Estados Unidos trazem até hoje consigo dois conflitos cujas feridas ainda estão abertas: o apartheid que vigorou, oficialmente, até os anos 1960 passados, quase como na África do Sul, e a Guerra Civil americana onde morreram mais de 1 milhão de norte-americanos, número de vítimas jamais superado em outras das dezenas de guerras em que se envolveram, inclusive as primeira e segunda guerras mundiais. Algumas causas da atual divisão nos EUA provêm dessa época.

A França, oh a França culta, sua História é um verdadeiro banho de sangue interno com as guilhotinas sobre as cabeças dos adversários rolando dia e noite incessantemente, onde a revolução burguesa não tendo a quem mais, devorou os seus próprios filhos, em um período conhecido como O Terror. Além do mais, o refinamento da cultura francesa repousa sobre os escombros do colonialismo de ontem e o neocolonialismo de hoje. Que o digam os vietnamitas, os argelinos, os africanos hoje etc.

Mas o que procuram passar os intelectuais, objetiva e subjetivamente, mentalmente colonizados? É copiar essas nações porque suas Histórias foram civilizadas. É como uma socióloga paulista disse anos atrás: “por aqui são quinhentos anos de nada”. Por isso, entre outras coisas, o que vale é a agenda do “politicamente correto” que eles, generosamente, inventaram e nós inteligentemente adotamos como solução definitiva aos nossos males de origem.

A História do Brasil também nunca foi tranquila, mas ao contrário, carregada de sérios conflitos, muitas vezes à bala.

Para não retroceder a outras épocas mais remotas da nossa breve trajetória como nação, citamos a revolta dos Tenentes em 1922, a revolução de 1930 que deu início ao processo de modernização do País com Getúlio Vargas. Essa foi uma revolução real de conflitos políticos e militares, com mortos, feridos e tudo mais.

Em 1932 as oligarquias cafeeiras de São Paulo rebelaram-se contra a vitoriosa revolução de 1930. O País todo levantou-se contra as oligarquias paulistas e atacou São Paulo em intenso combate político e militar.

As elites paulistas guardam até hoje mágoas do resto do País pela derrota, inclusive parte da sua elite acadêmica, em todos espectros políticos.

Em 1935 houve uma tentativa de rebelião, basicamente militar, nos quarteis, sob a liderança do PCB, Partido Comunista do Brasil. Debelada. O que causou imensa repressão contra intelectuais, militantes progressistas. Os comunistas tinham feito uma análise extremamente equivocada da realidade brasileira, mas a III Internacional em Moscou nela teria acreditado, endossando-a. Alguns analistas contestam que os líderes soviéticos tenham aceito tal informe dos comunistas brasileiros.

Além desse episódio, houve em 1938 a tentativa de insurreição armada dos Integralistas, vertente de massas, no Brasil, do nazifascismo que vivia o seu auge com o avanço da Alemanha nazista e da Itália fascista de Mussolini. Foram igualmente derrotados, e consequente repressão.

Getúlio Vargas, líder e promotor da revolução de 1930, que modernizou o Brasil, inclusive nos direitos trabalhistas, sob pressão, renunciou em 1945, voltou em 1950 ao poder pelo voto popular e, acossado pela reação, suicidou-se em 1954, derrotando com esse gesto seus adversários.

Juscelino que interiorizou o País com a construção de Brasília, só tomou posse quando eleito, porque o Marechal Lott colocou os tanques na rua, fechou um canal de TV que fazia campanha contra a sua posse, prendeu gente, e Juscelino governou, apesar de duas tentativas de golpe, de Jacareacanga e Aragarças, abafadas. Juscelino, estadista e hábil político, anistiou os revoltosos.

O governo nacionalista de João Goulart foi pego em meio a uma escalada da Guerra Fria. Para derrubá-lo armou-se uma conspiração interna e externa. Muitos, pouco estavam ligando para a tal da Guerra Fria. Queriam o poder político e o mando do País. O golpe de 1964 foi mais civil que militar, mas os civis golpistas, que eram a maioria das elites brasileiras, conseguiram passar incólumes no processo recente da revisão do golpe.

Com a exceção do jornal Última Hora de Samuel Wainer, toda a imprensa brasileira da época conspirou e apoiou abertamente para a derrubada de Jango, incluindo religiosos. Era o perigo comunista que batia à porta. A toda poderosa hoje Globo, promotora atual das agendas do politicamente correto, publicou um editorial redimindo-se do “erro em ter apoiado o golpe de 1964”.

Jamais vai se safar desse ato perante a História. Até porque já está metida de novo em uma conspirata à qual, nem ela, dona quase absoluta da opinião midiática nacional, sabe, no momento, para onde vai. O Brasil vive um quadro institucional kafkiano.

A Folha de São Paulo, porta voz do pós-modernismo multicultural, não só apoiou o golpe como ajudou o processo repressivo durante o a vigência do regime. Enfim, o Brasil não é para iniciantes, como disseram.

Após a promulgação da Constituição de 1988 que encerrou o ciclo autoritário o Brasil viu-se  diante de duas questões: a ânsia da ressaca do autoritarismo que fez com que a Constituinte centrasse os seus esforços em assegurar todos os diretos civis, e outros mais, que tinham deixado de existir, e a ausência de uma carta magna voltada para um projeto de Estado nacional.

Os governos subsequentes aprofundaram o espírito autônomo das corporações do Estado, criando uma constelação de instituições poderosas que defendem o seus próprios protagonismos e poderes, desvinculados de qualquer rumo nacional, abrindo amplos espaços para a hegemonia do Mercado Financeiro, interesses externos das grandes potências, e a absoluta hegemonia de uma grande mídia associada às estratégias desse Mercado financeiro.

A consequência é a violência institucional que vivemos no presente. Nessas condições, a política e a vida democrática só atrapalham os poderosos grupos e estamentos do aparelho de Estado e midiáticos que controlam o País. Assim, essa crise atual não surgiu do éter. O pior é que as forças políticas partidárias coonestaram com ele ou porque nele acreditaram na resultante ou porque não o entenderam.

Durante a época após a Constituição de 1988 todos os presidentes eleitos sofreram a tentativa de afastamento, dois foram impedidos, sem a participação das forças armadas, através da luta social sob vários argumentos, uma espécie de “fora todo mundo, menos eu”, especialmente a corrupção, que é o principal mote até os dias atuais, nenhum sob a primazia da legalidade democrática, demonstrando vocação autoritária, mesmo sob bases populares, de organizações sociais.

Assim, o Brasil não tem uma democracia consolidada de longo curso. Nunca teve, as forças políticas jogam pesado, as elites não brincam em serviço, a mídia é poderosa e implacável, as corporações do Estado viraram, cada uma delas, protagonistas dos seus próprios interesses. Esse é o quadro da atual crise dramática que vivemos. Mas a única via correta é a democracia através da atividade política em bom senso e respeito à legalidade constitucional, embora o atual ciclo Histórico mostre sinais evidentes de esgotamento.

As recentes gerações não têm a ideia, ou não foram educadas para tanto, de que o País não é uma vasta terra de consolidados hábitos democráticos. O Brasil é um vulcão ativo que, vez em quando, entra em erupção cuspindo lava por todos os lados. Aliás, o planeta é um vulcão em erupção.

A melhor maneira de participar é defender a via democrática, discutindo os caminhos da nação, as suas necessidades fundamentais, sua agenda para o desenvolvimento, o aperfeiçoamento da vida democrática, defendendo os interesses nacionais, diminuindo as abissais desigualdades sociais, ou qualquer outro tipo de injustiças.

A História das outras nações foi e tem sido lavrada em sangue e conflitos tenebrosos. Essa coisa de “noblesse oblige” europeia é produto de exportação para os outros.

A globalização financeira, George Soros e megaespeculadores, “venderam” ao Brasil e ao mundo, especialmente a partir do século XXI, uma interpretação da História, da cultura, da vida real, da geopolítica, das artes, do contínuo Histórico das nações, inteiramente ficcional. E tanta foi a força da grande mídia global, e o investimento, bilhões de dólares, que atingiram os objetivos que pretendiam. Um estágio de descolamento da realidade em parcelas importantes da população. Especialmente em setores médios.

A luta em defesa permanente da democracia, da vida política, dos interesses da nação, dos avanços sociais é, como sempre foi, tremenda, inconstante, difícil, cheia de armadilhas, exige atenção e persistência. Bem vindos, apesar dos pesares, ao Brasil, e ao mundo  real.

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