terça-feira, 25 de setembro de 2018

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Um senil no Exército

Devo concordar com os historiadores quando eles dizem que o regime militar é muito recente para que tenhamos uma visão confiável e consolidada sobre os vários aspectos da sociedade brasileira à época e como o regime influenciou as décadas posteriores. E ainda que não tenha vivido tão nebulosa época, seus reflexos são sentidos por mim, indiretamente, como uma das gerações subsequentes – que herdaram os males e os benefícios (se houve) da ditadura.

Quase não penso nos militares e quando me vejo refletindo sobre o período militar é, geralmente, como consequência de fatores externos. Esses dias estava sentado à mesa de um dos 1º Sargentos da 6ª Região Militar, à espera de atendimento, quando uma cena muito inusitada ocorreu bem na minha frente. Um homem, passado e muito da idade de andar sozinho na rua, ocupou  o 1º Sargento, que atendia o público e que logo me atenderia, com nomes e datas errados, para um fim que nem Deus saberia dizer, por longos trinta minutos. E quando ia embora, já de pé, voltou para o militar e confidenciou-lhe, como um segredo de Estado, “que a palavra corrupção não existia no dicionário do Governo Militar e que só passou a existir a partir do Governo Sarney. Não existia corrupção naquela época. Isso é coisa desses Governos”.

Observando passivamente o monólogo do homem (o militar controlava-se para não sorrir e concordava com a cabeça), pude confirmar que nem todos os militares, que foram incorporados durante os governos democráticos, ao menos, não concordam com as virtudes do Governo Militar. E por motivos óbvios.

“Quem assumiu o Governo morreu pobre. Pobre não, só com o salário que o Exército pagava”, dizia o homem.

Sim, claro. Vamos ver isso continua como devaneio verdadeiro se abríssemos os arquivos da ditadura. É muito fácil ser virtuoso com uma capa de chumbo cobrindo arquivos governamentais – que hoje a Lei de Acesso à Informação obriga a publicar, nos governos federal, estaduais e municipais.

Os militares continuam com um grau gigante de sucateamento em suas repartições e deverá continuar assim enquanto tivermos medo de outro golpe militar. E não devemos negar que os serviços de engenharia do Exército é de uma qualidade ímpar. Mas nem tudo são flores e a Mão amiga tem um Braço Forte demais para o gosto dos sensatos.

Os insensatos acreditam que o Braço Forte é exponencialmente mais virtuoso que a democracia – até que esse mesmo Braço, usando essa mão amiga, arrebente-lhe os dentes. E certamente aquele homem senil nunca deve ter sentido o carinho do Braço Forte.

Ao ir embora, depois de cumprimentar o Coronel e trocar amenidades, tive mais uma vez a certeza que as Forças Armadas tem mais defensores fora que dentro.

Mais em http://rafaelarielrodrigo.blogspot.com.br

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