sábado, 17 de novembro de 2018

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Relato de um assistido

Fonte: Imagem  das redes sociais.

Fonte: Imagem das redes sociais.

Sempre estudei em escola pública (estadual e federal) e na maior parte do tempo em que estive no ambiente escolar não vi, nem mesmo a mera referência, o(a) assistente social. No ensino fundamental, porque esse profissional simplesmente não existia – e, se verificar atentamente, ainda não existe na escola em que estudei. No ensino médio, na pública federal, esse personagem só apareceu na metade do curso – antes do aparecimento da Assistente Social uma trinca de servidores aleatórios fazia as vezes de “distribuidor de bolsas e auxílios”.

É a realidade e o pensamento de gestores da educação e de pais: Assistente Social só serve para distribuir bolsas e auxílios.

Esse pensamento, fortemente em voga, é comum a escolas e universidades e o papel do Assistente Social, na cultura popular, é de um mero manipulador e distribuidor de bolsas e auxílios. Esse pensamento faz-me refletir sobre o que fazia esse profissional quando as bolsas e auxílios, tão normais hoje, não existiam. Será que não existia a Assistência Social?

A verdade, para ser direto e um tanto cruel, é que o conceito popular da Assistência Social interessa muitíssimo a gestores públicos e educacionais porque, de outro modo, o assistente social exerceria o sutil poder de reclamar igualdade, mitigar preconceitos e defender o fim das fronteiras segregadoras entre as classes sociais e tudo o que essa segregação provoca; e deixaria de estar preso em uma sala processando trabalhos burocráticos de distribuição de bolsas e auxílios.

Quando o assistente social deixa a burocracia de lado e busca, junto aos assistidos, que direitos e deveres sejam de fato exercidos, que fronteiras segregadoras e preconceituosas caiam, que a dignidade da pessoa humana seja realmente investida de poder e cuja atuação arranque o socialmente marginalizado das garras da opressão então ele está de fato assistindo homens, mulheres e crianças que são impedidos de estudar, de trabalhar e de viver com dignidade.

E isso não interessa, às vezes isso nem mesmo interessa a alguns assistentes sociais.

Por isso, e pela obvialidade de uma formação deficitária, arcaica e prejudicial à categoria, não me espantei ao ver a postagem da Unopar, e ela não está sozinha nisso, em que reduzia a profissão do assistente social a um estereótipo de um ser “deboísta” e hippie. Associada à imagem de distribuidor de bolsas e auxílios, o conceito de instituições como a Unopar sobre o assistente social revela somente a falta de compromisso com a formação de profissionais que verdadeiramente podem fazer a diferença na vida daqueles que podem ser assistidos.

O povo não precisa apenas de dinheiro, originado com uma bolsa ou um auxílio. O povo precisa de um profissional que saiba tratar de uma mulher violentada física e moralmente; de uma criança escravizada pela necessidade de ajudar a sustentar a família – e por isso deixa de estudar; de homens que precisam de apoio  quando caem nas armadilhas das drogas.

E não apenas esses – o povo precisa de um profissional que esteja nas boas e más situações.

O povo não precisa de contabilistas, burocratas e elitistas travestidos de assistentes sociais.

O povo precisa ser ensinado sobre o que faz a Assistência Social.

E o assistente social não pode ser formado tendo como base formativa o “deboísmo”, a mera distribuição de dinheiro e o estilo hippie.

Durante o ensino médio técnico a Assistência Social foi apenas uma distribuição de bolsas e auxílios. E ninguém quis mostrar que a assistente social poderia fazer algo mais. Na Universidade o setor de serviço social era apenas o lugar em que eu ia para entregar a folha de ponto ou buscar informações sobre o andamento do pagamento das bolsas e auxílios.

E quando o cadastro e recadastro terminava, na universidade, não se via nem a sombra dos assistentes sociais.

Não fosse pela turma do curso de serviço social que cursou psicologia geral, junto com os alunos avulsos da engenharia, o que me incluía, jamais saberia que as aulas do curso de serviço social era “normal”, ou seja, tinha conteúdos sérios e que o papel da Assistência social é muito mais amplo do que aquele pregado e exercido por Universidades, Institutos e Escolas estaduais e municipais.

E se as instituições de ensino, formadoras e operadoras da Assistência Social, promovem a desqualificação do próprio profissional, fico imaginando o que será de assistentes e assistidos em um futuro no qual a crise econômica tende a se aprofundar e o orçamento para bolsas e auxílios  tende a ser reduzido – a Assistência Social tende a desaparecer na mesma proporção em que o orçamento encolhe?

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