terça-feira, 24 de setembro de 2019

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Paris está em chamas

Na Segunda Guerra mundial, a França que era considerada o maior exército do mundo, foi derrotada e ocupada em tempo recorde, seja porque o exército nazista tinha desenvolvido uma técnica militar relâmpago, as famosas blitzkrieg, mas também por fatores internos.

Parte considerável das elites francesas da época, civis e militares, eram abertamente pró germânicas. De tal forma que, segundo historiadores, dividida, a capitulação do seu exército foi inevitável.

Sobrou a resistência contra a ocupação que se resumia a alguns poucos milhares de combatentes em território francês, clandestinos, imortalizados em livros e filmes, como o excelente “O exército das sombras”, e o documentário “A tristeza e a piedade”, formado por nacionalistas e comunistas.

O colaboracionismo das elites francesas foi tão explícito que Hitler “concedeu” à França um governo autônomo, o governo de Vichy, cuja capital ficava no sul do País.

Parece inacreditável, mas esse governo tinha inclusive um embaixador em Paris, ocupada militarmente pelas tropas nazistas. O Marquês de Brinon, um germanófilo incontestável.

No entanto, o general De Gaulle, com a nação derrotada, de forma humilhante, recusou-se a participar de tamanha farsa e fugiu, com algumas poucas divisões, para a Inglaterra e formou outra resistência que denominou o “governo francês no exílio”.

O que provocou constante irritação ao primeiro-ministro Churchill, porque ele desejava que os soldados franceses, e o seu general, fossem apenas mais uma legião de lutadores contra o nazismo, que vinham de todas as nações europeias ocupadas para a Inglaterra, que lutava bravamente contra a expansão militar de Hitler sob a liderança formidável do dirigente inglês, apesar de ser um conservador.

Se a Grã-Bretanha não estivesse sob o comando político de Churchill teria capitulado à ofensiva nazista. Sua bravura, coragem pessoal, capacidade política e oratória, fizeram com que o povo inglês, sob a sua liderança, aguentasse as maiores provações, com uma Londres submetida a bombardeios diuturnos, literalmente ardendo em chamas com dezenas de milhares de civis mortos sob as bombas da força aérea alemã.

Mas de Gaulle usava diariamente a rádio BBC de Londres, em nome do governo francês no exílio, contrariando o líder inglês, porque sabia que a França estava humilhada pela capitulação vergonhosa, e considerava que com a vitória dos Aliados o destino do seu País era imprevisível, poderia ser fatiado em, no mínimo, duas nações sob a supervisão dos Aliados vitoriosos.

Com a derrota do exército de ocupação alemão na França, e a libertação de Paris, exigida por De Gaulle, porque a capital francesa era um objetivo militar secundário na marcha para Berlim, o líder francês teve outra escaramuça com os comandantes aliados, e exigiu que as tropas francesas entrassem primeiro na capital e ele pessoalmente marchasse sob o Arco do Triunfo nos Campos Elísios, há exatos 75 anos, mostrando que, de colaboracionista, a França passava a libertar Paris ao lado dos aliados vitoriosos.

Finda a guerra com a derrota da Alemanha nazista, De Gaulle viu-se diante de uma França espatifada. Os resistentes que foram massacrados, torturados e mortos em grande número. Começou a revanche contra as centenas de milhares de colaboracionistas pró-nazistas. Era quase iminente uma guerra civil.

De Gaulle, com a autoridade conquistada, e pensando na França, declarou: todos foram resistentes, à exceção de minorias, as aberrações. Ele sabia que isso não era verdade, mas tinha que unir o povo francês e não o dividir irreversivelmente.

Com o “governo no exílio”, a entrada triunfal em Paris com suas tropas à frente nos Campos Elísios, e o mito de que “todos foram resistentes, à exceção de uma minoria”, de Gaulle praticamente refundou a França, que estava fraturada, humilhada, envergonhada ao mais baixo nível.

Foram três grandes gestos e iniciativas que o elevaram à condição de grande Estadista.

Por um acaso do destino, várias décadas após, anos 90, eu estava em Paris quando acompanhei pela televisão a mais alta condecoração francesa ao então comandante de ocupação alemão de Paris, general Von Choltitz, já muito velho.

Durante a retirada das tropas nazistas da capital francesa, frente ao avanço dos aliados, Hitler ordenou-lhe que implodisse totalmente Paris. O general alemão, mesmo com um telefonema de Hitler: “Paris está em chamas?”, disse que sim, mentindo.

De Gaulle, Estadista, refundou literalmente a grande nação francesa e a humanidade hoje deve a existência de Paris como patrimônio arquitetônico da humanidade, a um general alemão que desobedeceu a Hitler, assim como aos bravos combatentes da resistência francesa. A História nos ensina muitas coisas.

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