quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Blogs

Os 170 anos da Refrega de Taquari

À esquerda: gravura do padre Morais. À esquerda: retrato do coronel Maranhão.
À esquerda: gravura do padre Morais. À esquerda: retrato do coronel Maranhão.

Neste dia de finados de 2014 se completam os 170 anos de um episódio que marcou um ciclo violento de disputas territoriais entre as elites em Palmeira dos Índios e também o surgimento, no século XIX, de um dos primeiros bandos de cangaceiros da história, representantes de um tipo de banditismo que, como escreveu o Mestre Graça, “nem sempre ameaçava a propriedade”, sendo, em alguns casos, até mesmo “um sustentáculo dela”, formado por bandos chefiados geralmente por “pessoas de consideração, homens de boa família, perseguidos por adversários políticos que eles juravam eliminar”.

Um dos protagonistas dessa batalha que aqui chamamos de Refrega de Taquari foi o padre José Caetano de Morais, primeiro vigário colado e nono pároco da freguesia, empossado por ato do então príncipe regente dom João VI, em 13 de outubro de 1811. Foi irmão do quinto pároco, o padre Manuel Caetano de Morais, que exerceu o ministério entre 1812 e 1814, quando morreu ensandecido. Baseados em autores como Moreno Brandão, Luiz B. Torres, Luiz Byron Passos Torres e Francisco Reinaldo Amorim de Barros, podemos dizer que, à época da proclamação da Independência do Brasil e início do Império, exercia o cargo de juiz de paz do então arraial de Palmeira dos Índios o coronel José Daniel Carneiro da Cunha (conhecido como coronel Daniel das Flecheiras), auxiliado por seu grupo de parentela, das famílias Holanda, Veiga, Canuto e Pereira, moradores em Gravatá-Açu e Caldeirões de Baixo. Daniel das Flecheiras fazia oposição ao pároco da freguesia, proprietário dos sítios Lagoa do Moreira, Riacho Panelas e Rio Coruripe, desde a primeira eleição que levou o padre Morais à Assembleia Provincial como deputado.

Os ânimos entre as partes se acirraram após o assassinato do doutor Fonseca Lessa, também adversário do vigário e juiz de direito da comarca de Anadia, à qual Palmeira dos Índios passou a pertencer a partir de 1838, elevada à categoria de vila – depois da derrota do extinto distrito de Palmeira de Fora na disputa pela sede, e de construída a casa grande (um sobrado) para o funcionamento do conselho municipal (na parte de cima) e da cadeia pública (na parte de baixo). Daniel das Flecheiras acusou como autores intelectuais do crime, ocorrido em 3 de setembro de 1838, o padre Morais e seu sobrinho e genro, tenente-coronel Manoel Tavares Bastos, comandante de um batalhão da Guarda Nacional e presidente do conselho do município (cargo correspondente ao de um presidente de câmara municipal, com poder equivalente ao de prefeito), tratando de reunir as provas e indícios que pudessem incriminá-los. O padre Morais utilizou-se então de sua grande influência política na província para executar seu plano de vingança contra o juiz de paz e os parentes deste: apresentou o projeto de um novo mapa territorial de Palmeira dos Índios, aprovado em poucos dias, que incorporava as localidades de Flecheiras, Caldeirões de Baixo, Lajes e Gravatá-Açu à então vila de Assembleia (atual minicípio de Viçosa), excluindo de Palmeira as famílias vinculadas a seus adversários políticos.

“Seu projeto estabelecia como divisória uma linha tortuosa e quebrada, de modo a poder salvar para Palmeira o importante sítio Pau-Sangue, bastante povoado, e que pertencia a seus amigos os fazendeiros Matias da Costa Barros e Manoel Vitorino da Costa Barros”, explica Francisco Reinaldo Amorim de Barros, autor do “ABC das Alagoas”.

As arengas locais reproduziam as nacionais. Por este tempo, revezavam-se no cenário político do Império do Brasil apenas dois partidos: o Conservador e o Liberal, apelidados respectivamente de “Cabeludos” e “Lisos”. “Formados majoritariamente por representantes das classes proprietárias de terras e de escravos, por isso mesmo, sem grandes diferenças programáticas quanto à ordem social (foi só na década de 1870 que os liberais aderiram, a muito custo, a causa antiescravocrata), os dois partidos tinham divergências no plano político que os levavam a disputar com afinco as eleições”, escreveu Suzana Cavani Rosas, professora do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco. “Para os liberais, o que importava, fundamentalmente era a descentralização do poder e a autonomia das províncias; os conservadores, ao contrário, queriam a centralização política e as províncias com atribuições de poder limitadas”.

A rivalidade sangrenta justificava a existência do poder moderador – originalmente concebido pelo pensador francês Henri-Benjamin Constant de Rebeque (1767-1830) e instituído no Brasil pela Constituição de 1824 – como forma de o imperador equilibrar os outros três poderes (executivo, legislativo e judiciário) e de se estabelecer o cessar de hostilidades entre o partido dos “Lisos” e o partido dos “Cabeludos”.

Novamente citando o Mestre Graça, a respeito dos dois partidos: “Um deles dirigia os negócios públicos. O outro, na oposição, dizia cobras e lagartos dos governantes, até que estes se comprometiam e S. M. os derrubava e substituía pelos descontentes, que eram depois substituídos. Os programas dessas facções divergiam, é claro, mas na prática elas se assemelhavam bastante. E como apenas duas se revezavam no poder, facilmente se tornavam conhecidas e não inspiravam confiança”.

O padre Morais representava, nesse contexto, o Partido Liberal. Era, portanto, um “Liso”, também destacado no episódio que a historiografia de Alagoas chama de “Guerra entre Lisos e Cabeludos”. Tratou-se de uma série de conflitos, ocorridos em 1844, que se espalharam pela província depois que os “Cabeludos” trasladaram a sede governamental de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul (atual cidade de Marechal Deodoro) para Maceió, onde permanece até hoje. Em reação à decisão prevalecente, e como esses dois partidos imperiais, como ensina Cavani, “nunca deixaram de valer-se da violência para levar a melhor nas urnas”, os “Lisos” pegaram em armas contra os “Cabeludos”, que tinham João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, barão de Maceió, como líder máximo na província.

Não obstante ter permanecido na Assembleia como deputado, o padre Morais não possuía mais o prestígio de outrora, pois o seu partido havia sido derrotado na eleição para o conselho da vila da Palmeira, tornando-se este conselho hegemonicamente conservador, ou, como poderia ser dito naquela época, era totalmente “Cabeludo”, sendo composto por Manuel Vitorino da Costa Barros (ex-aliado do padre), Adrião da Silva Melo, Antônio Simplício Damasceno e Manuel Vieira da Rocha, sob a presidência de Manuel Antônio Pereira Junior. Sem armas suficientes, pois o arsenal de seus aliados foi recolhido após a derrota no referido pleito, o padre Morais partiu para o Sítio Taquari – antigo quilombo que hoje se chama Rainha Isabel, distrito do município pernambucano de Bom Conselho (à época, freguesia de Papacaça) –, onde tinha amigos e parentes, para arregimentar correligionários para o enfrentamento direto com os adversários. De lá, o deputado e pároco da freguesia escreveu uma carta a seu outro sobrinho, o doutor José Tavares Bastos – líder dos revoltosos, ocupante do cargo de 3.º vice-presidente da província –, na qual solicitava apoio para a tomada da vila, sem dele obter nenhuma resposta.

No dia 2 de novembro, finalmente, o subdelegado da vila, Antonio das Chagas Pinto – substituto do conselheiro municipal Luiz de Araújo Jucá (outro genro do padre Morais), demitido pelo presidente provincial Bernardo de Souza Franco – partiu com duzentos homens para romper a resistência dos “Lisos” em Taquari, divididos em dois grupos: trinta deles seguiram o subdelegado pela estrada principal, e os outros cento e setenta foram espalhados por outros caminhos que também davam acesso ao povoado. O primeiro grupo cercou a igreja onde estava o padre, que recebeu voz de prisão do subtenente após rezar a missa de finados. Resistindo, o padre Morais tentou fazer com que houvesse tempo para que seus aliados viessem em seu socorro. Primeiro, pediu para tomar o desjejum matinal antes de ser levado preso para a vila. Foi atendido, mas ninguém veio socorrê-lo. Depois, pediu para que a tropa aguardasse a vinda de seu cavalo, que deveria estar sendo trazido.

Conforme Luiz B. Torres: “Cada minuto de atraso propiciaria a chegada de seus correligionários, infelizmente pegados de surpresa. O subdelegado entendeu que o padre estava tentando prolongar a sua hora de partida, certamente a espera de amigos para o libertar da humilhante prisão. Na hora do viaja ou não viaja, chegaram, finalmente, os 170 homens da volante policial, que palmilhavam atalhos pouco usados por almocreves e viajantes. Estabeleceu-se grande tiroteio entre a força policial e os amigos do reverendo”.

A refrega de Taquari resultou nas mortes do padre José Caetano de Morais, do tenente-coronel Tavares Bastos, do subdelegado Chagas Pinto, dos guardas da tropa nacional José Roberto e Francisco José Bezerra, além de Adrião Melo, Antônio Barbosa, José Jucá – todos estes de Caldeirões – e de dezenas de moradores do termo de Palmeira dos Índios. Dezesseis pessoas ficaram feridas.

No círculo das vinganças motivadas por questões políticas e familiares, José e Manoel de Araújo Morais, dois dos oito filhos que o padre teve com uma concubina, chamada Maria Clementina , lideraram um grupo que passou a atacar aqueles que eram considerados responsáveis pela morte do pai. Por sete anos, os “irmãos Morais” espalharam terror por toda a região e provocaram o êxodo de muitas famílias ligadas aos “Cabeludos”, entre elas as de Matias da Costa Barros, Manoel Vitorino da Costa Barros, coronel Manoel Antônio, Sabino José de Oliveira, José Joaquim Duarte, Simplício Fonseca Barbosa e Antônio Izidoro, que venderam por uma ninharia as boas propriedades de que eram donos. A fuga dessas famílias deixou a vila sem seu pessoal mais preparado para o desempenho de cargos públicos, fazendo a vida administrativa e econômica de Palmeira dos Índios estacionar. José Maria Tenório Rocha, autor do livro “Quebrangulo, Quebrangulo, sempre serás!”, relata a ação criminosa dos Morais além das fronteiras palmeirenses: “Em Quebrangulo atacaram a casa do proprietário de terras Tenente Coronel Manoel de Mello da Silveira assassinaram com inúmeras facadas e tiros, bem como a seu irmão Antonio, a um afilhado do tenente e a um vaqueiro que ali se encontrava, além de outros. Roubaram 9 cavalos e o dinheiro para comprar 73 bois, ainda todo o ouro e prata e outras ferramentas. As roupas das vítimas foram levadas e as que não serviam, foram rasgadas; para as vítimas, foi preciso encontrar panos para cobrir a nudez. Outras pessoas do Município foram ameaçadas e fugiram. O Presidente da Província, por verificar que o subdelegado de Quebrangulo nada fez contra os celerados, o demitiu e colocou no cargo Antonio Tenório, que não era residente na cidade, mas ficara no lugar do subdelegado por ocasião dos acontecimentos”. A sucessão de escândalos, matanças e fugas motivou a publicação da resolução n.º 43, de 4 de maio de 1846, que determinou a supressão da vila de Palmeira dos Índios e a fez voltar à condição de distrito, anexado, desta vez, à vila de Anadia.

Na crônica “Dois cangaços”, publicada originalmente no ano de sua morte, o mestre Graça teceu considerações sobre as características do banditismo típico do século anterior ao de Lampião, citando, inclusive, dentre outras figuras que ilustram um rol de bandoleiros antigos – como Antônio Silvino, Jesuíno Brilhante, Casimiro Honório, Antônio Germano e Amaro Mimbura – os “irmãos Morais”, filhos do padre Morais: “Os cangaceiros atuais são de ordinário criaturas vindas de baixo, rebotalho social. Os métodos antigos divergiam dos presentemente adotados. Em geral os mal-feitores ocultavam as suas truculências ou apresentavam-nas como fatos necessários e justos: enfeitados, romantizados pela imaginação popular, dedicavam-se a obras de reivindicação e de vingança, eram uns heróis, quase uns apóstolos, na opinião dos matutos. Distribuíam punhados de moedas roubadas, queimavam regularmente as cercas, assolavam as fazendas dos amigos do governo, coisas agradáveis à gente miúda, cobiçosa por necessidade e naturalmente oposicionista”.

Um pouco mais adiante, o cronista expôs a radical diferença entre o seu conceito de lampionismo – que se definia por estar “infinitamente distante do coronel” e pelo fato de seus representantes nada terem a perder – e o modelo de cangaço surgido no século XIX: “Lampião era um monstro, tornou-se um monstro, símbolo de todas as monstruosidades possíveis. Resta, porém, saber se os outros, não praticavam ações como as dele e se não havia qualquer interesse em escondê-las. Talvez houvesse. Casimiro Honório, os Morais, Jesuíno Brilhante e Antônio Silvino tinham alguma coisa que perder, terra ou fazenda, pelo menos um nome, valor tradicional. Não podiam mostrar-se de repente demolidores de instituições respeitadas: precisavam mantê-las, apesar de réprobos, eram de alguma forma elementos de ordem, amigos da propriedade, de todos os atributos da propriedade. O que eles combatiam era, não a propriedade em si, mas a propriedade dos seus inimigos. Daí talvez surgirem conservadores, poetizados e aumentados na literatura branca do Nordeste”.

Noutra crônica, Graciliano discorre analogamente sobre o tema, da seguinte forma: “O tipo heróico do cangaceiro do século passado, espécie de Quixote que se rebelava contra a ordem para corrigir injustiças, por questões de honra ou desavença política, é uma figura que vai desaparecendo ou desapareceu completamente. O cangaceiro atual é uma criatura que luta para não morrer de fome. Aquele era um proprietário que, perseguido por vizinhos mais fortes, tomava armas e, com um pequeno grupo de parentes e aliados, resolvia eliminar o delegado, o juiz, todas as autoridades que favoreciam os seus inimigos; este é um sujeito sem melindres, que provavelmente não conserva a lembrança de ofensas recebidas e se alguma vez teve negócio com a polícia, e dormiu no tronco, acha o fato natural, pois ‘apanhar do governo não é desfeita’. O cangaço antigo, em que surgiam rasgos de cavalheirismo, certamente duvidoso, mas afinal aceitos sem dificuldade e propagados pelos trovadores broncos do interior, era um fenômeno de ordem social; o de hoje, bárbaro, monstruoso, é uma conseqüência da desorganização econômica. O primeiro deu Jesuíno Brilhante, o segundo produziu Lampião”.

Manoel Morais foi morto no dia 29 de setembro de 1848, assassinado nas matas de Vicente de Paula Ferreira Tavares Coutinho – militar desertor que chefiou a Guerra dos Cabanos – por um de seus comparsas, por um caboclo chamado Hilário. José – que, sob a influência do pai, havia estudado no seminário de Olinda – foi morto no dia 15 de agosto de 1851, nas caatingas da fronteira entre a Bahia e Sergipe por Apolinário, o “doido”. Seus perseguidores, parentes do sogro do Visconde de Sinimbu, regressaram a Águas Belas (PE), com a cabeça do filho do reverendo espetada na ponta de uma vara, como troféu.

Os povoamentos excluídos do mapa do padre Morais posteriormente voltaram a ser anexados ao distrito de Palmeira dos Índios, retornando, portanto, ao território palmeirense, todas as famílias expulsas por aquele documento. A família do coronel José Daniel, que já tinha falecido nesse tempo, era representada agora por seu genro, o coronel José Cândido de Albuquerque Maranhão, novo dono de Flecheiras, deputado provincial e comandante do 25.º Batalhão da Guarda Nacional.

Palmeira dos Índios só retornou à condição de vila quase oito anos depois dessa história toda, através da Lei n.º 309, de 23 de junho de 1853.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com