quarta-feira, 19 de setembro de 2018

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O Graciliano da boca do povo

Graciliano Ramos/ Foto: RobertaFFireman

Dizem que Graciliano Ramos não era dado ao puxa-saquismo ou a ser bajulado e considerando suas obras e o que delas podemos inferir ele também não possuía lá muito senso de humor para a burguesia decadente que hoje lota Academias de Letras. E isso, considerando que não o conheci e que só li suas histórias e ouvi falar dele, tendo à mão o pouco deficitário da Casa Museu Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios-AL, pode induzir-me ao erro ao falar e escrever sobre o Graciliano.

No entanto, não posso deixar de notar certas singularidades na terra dos marechais e que se tornam muito engraçadas à medida que o tempo vai escorrendo pelas línguas negras da orla de Maceió. É estranho que justamente a pessoa que não gostava de ser bajulado seja rotineiramente levada à fina flor da bajulação e tenha, em qualquer lugar vulgar, o nome jogado à mesa para uma discussão literária. Ninguém diz como Viventes das Alagoas retrata incisivamente os alagoanos e as veias da corrupção e do achismo do serviço público ou de como uma certa casa no centro de Palmeira dos Índios poderia representar muito bem uma cena ou outra de São Bernardo ou de como, muitos anos depois, Vidas Secas é tão vívido quanto o povo que morre sem um atendimento de saúde decente na mesorregião alagoana– e isso para citar por cima.

Não. Nas discussões literárias, estranhamente distante da política (o que torna ainda mais estranho visto que Graciliano também era político), onde o mais importante é parecer culto, e não propriamente ser, Graciliano é objeto de ostentação e sua obra é um mero detalhe em uma sociedade de princípios maleáveis e obendientemente bajuladora. Se vivo, Ramos olharia com bons olhos essas atitudes, tidas como louváveis, ou agiria como costumam dizer, rechaçando para longe de si e de seu nome todo esse vazio intelectual?

Agora acharam de reproduzir sua imagem em tamanho natural em Maceió, distante de Palmeira dos Índios e Quebrangulo, cidades e regiões onde a inspiração veio-lhe sem medo, como uma homenagem (a quem, de fato?). E como o Tom Jobim e o Carlos Drummond de Andrade, na Cidade do Rio de Janeiro, Graciliano servirá para turistas tirar fotografias, ser objeto de roubo, ser escora para pedestres cansados. Verá eternamente as línguas negras que apodrecem a não tão cuidada orla da burguesia maceioense e ainda terá que suportar as falhas de caráter política que tanto expôs quando era político.

Embora seja totalmente a favor de práticas que visem homenagear célebres cidadãos que contribuíram para a cultura e para a melhoria da qualidade de vida e do serviço público de Alagoas, sou também cauteloso ao expor pessoas que, em vida, talvez não fossem gostar de tal veneração desmedida.

O problema do adorador é pressupor que o adorado vai amar os devaneios em nome dessa adoração.

De minha parte acredito que um edifício que poderia abrigar uma biblioteca, um centro de inclusão digital e um espaço para a promoção e fomento da arte, em suas mais diversas formas, com recursos garantidos para os trabalhos sociais, dedicado ao Graciliano, seria muito mais útil e uma homenagem muito mais digna que uma mera estátua. Afinal de contas, o povo continuará sem saber quem foi Graciliano Ramos nem o que ele escreveu ou fez. Os Fabianos e Sinhas Vitoria serão sempre retirantes de uma vida sem arte, lutando apenas pelo pão nos grandes domínios dos senhores de terras modernos de Alagoas.

Mas disso, evidentemente, ninguém quer mesmo saber.

 

Mais em http://rafaelarielrodrigo.blogspot.com.br

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