quarta-feira, 21 de novembro de 2018

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Idiossincrasia religiosa

Quadro: Portrait of Olga Merson. Henri Matisse, 1911.

Quadro: Portrait of Olga Merson. Henri Matisse, 1911.

Para o homem comum, que infelizmente ocupa a base da pirâmide social, todos os problemas físicos (sociais, econômicos e estruturais) e abstratos (morais e religiosos) são produtos das ações de deuses, ou de um Deus, sobre a vida ridícula deste mesmo homem. E isso explicaria o desemprego, a febre tifoide, a peste negra, as depressões econômicas, a corrupção e os assassinatos.

O que o homem comum não admite, por ignorância ou extrema corrupção moral, é que as próprias ações são as únicas que podem resultar em prejuízos ou glórias durante sua não tão breve estadia na Terra. Se um homem, no auge de sua irresponsabilidade, transa com diversas mulheres e sem proteção é natural que esse homem e suas parceiras sejam portadores de doenças sexualmente transmissíveis e que cada mulher tenha, ao menos, um bastardo. Esses bastardos, sem a devida educação, poderão repetir os erros dos genitores acrescendo mais doenças e bastardos à estrutura social. O acúmulo sistemático de bastardos e de indivíduos doentes acabam por sobrecarregar os sistemas de saúde e da previdência social e os índices de desenvolvimento humano, considerando indivíduos ignorantes e doentes, cai vertiginosamente. Em uma geração ou duas o que se pode observar é a proliferação de doenças mutantes, favelas, dor e sofrimento intelectual e uma busca sem sentido pela causa dos males sociais ou, quando muito, das razões que levaram uma Divindade cruel a julgar e maltratar sua própria criação.

O próximo passo na cadeia limitada de análise dos bastardos e doentes é a criação de inúmeras igrejas que vendem a cura para todas as enfermidades do planeta e do resfriado à AIDS, que tecnicamente não mata, a solução são umas gotas de óleo de soja ou de água da torneira; solução para o desemprego, ainda que os desempregos sejam analfabetos funcionais que vivem às custas do Governo, por preguiça ou mera falta de oportunidade; para os problemas familiares, ainda que as famílias sejam compostas por mulheres que temem pela própria vida no ambiente doméstico e por filhos tenham medo de apanhar por qualquer bobagem infantil; para os problemas religiosos, ainda que o máximo que o homem faça seja levar uma vida vulgar, decaída e desprezível.

Essa etapa, na qual estamos chafurdados até o pescoço, parece ainda estar só no começo e de igreja com atributos cristãos o que temos são portas comerciais que vendem cura, terrenos celestes e empregos de sucesso. Em qualquer lugar, ou para qualquer pessoa minimamente inteligente, isso é crime e que é  previsto no Código Penal. Para os menos instruídos isso pode ser visto como conversa para boi dormir.

E embora isso não seja novidade nessa nossa sociedade hipócrita e moralmente decaída, parece que as igrejas chegaram em seu ponto de saturação e a demanda está menor que a oferta. Pelas leis de mercado o que estamos vendo é que ou as igrejas baixam seu preço, por serviço, ou os trouxas, quero dizer, fiéis, vão abandonar o barco bem no meio da atual crise financeira pela qual o Brasil está passando.

De repente a insistente falta de senso do meu vizinho em buscar clientes todos os dias com falsas promessas ou palavras vãs seja porque seu negócio está prestes a pedir falência ou que os bastardos e doentes estejam, enfim, saturados das mesmas promessas vazias. Seja qual for o motivo, as tardes nessa quente e nada deliciosa cidade têm ficado mais opressoras com mais um pastor querendo arrebanhar trouxas, quero dizer, clientes. Seria melhor ele, o meu vizinho, montar uma funerária porque, considerando os casos das febres do Aedes Aegypti e do aumento de casos de doenças sexualmente transmissíveis, o mais certo é que a Divindade cruel na qual muitos idólatras acreditam esteja limpando a sujeira humana, e não apenas jogando-a para debaixo do tapete.

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