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terça-feira, 18 de setembro de 2018

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Dar um cheiro: arretada herança sino-lusitana

No carnaval passado, publiquei um texto discorrendo brevemente sobre a história de uma demonstração de afeto nascida na Ásia e difundida no Ocidente a partir da cultura greco-latina: o beijo. Não mencionei, no entanto, um substituto do beijo que é bastante específico do Nordeste brasileiro e que envolve nosso mais aguçado sentido: o cheiro.

Que seria do chamego sem um cheiro no cangote? Que seria do dengo materno sem o desejo de dar um cheiro em sua cria? Mas afinal, qual seria a origem desse mimo entre os nordestinos (mais um traço que nos distingue dentre o povo brasileiro), desconhecido entre os povos indígenas e africanos antes do contato com o europeu?

Segundo Camara Cascudo, um dos mais importantes estudiosos da cultura popular brasileira, apenas dois outros grupos humanos no mundo praticam a carícia de sentir o odor da pessoa amada: os esquimós e os chineses. Com esses últimos, os portugueses mantiveram estreito contato desde o século XVI, trazendo para o Brasil mais do que porcelanas.

Confirma a hipótese dessa influência chinesa na cultura nordestina o depoimento do militar português Wenceslau de Moraes, que serviu no Oriente no século XIX e explicou em seu livro “Traços do Oriente” a origem do gesto carinhoso tipicamente nosso. De acordo com ele, “os chineses não dão beijos… Não dão beijos, ou dão-nos de uma maneira muito diferente da nossa, sem o uso dos lábios, mas aproximando a fronte, o nariz, do objeto amado, e aspirando detidamente… O china beija o filhinho tenro, beija a face pálida da esposa, como nós beijamos as flores, aspirando-lhes o perfume; a assimilação é graciosa… Tendo agora por conhecida, e é coisa que não se contesta, a extrema agudeza olfativa dos chineses (os negociantes cheiram as moedas de ouro que julgam falsas, e assim conhecem o grau maior ou menor da liga de cobre), podemos talvez conceber uma vaga idéia do prazer da mãe, respirando sobre a carne fresca do filho um ambiente que ela não confunde como outro; o prazer do mandarim apaixonado, conquistando à brisa o perfume de uns cabelos negros, que ele aprendeu a adorar.”

Um cheiro!!!

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