quarta-feira, 21 de novembro de 2018

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Causarum cognitio ou A Escola de Atenas: filosofia e subversão na famosa obra de Rafael Sanzio

Obra-prima do pintor Rafael Sanzio (1483-1520), “Causarum cognitio”, mais conhecido como “A Escola de Atenas” desde o século XVII, é um dos afrescos mais famosos do período renascentista. Produzido entre 1508 e 1511, com o patrocínio do Papa Júlio II (Giuliano della Rovere), compõe um conjunto de quatro paineis que ilustram a Stanza della segnatura, onde o pontífice despachava, dentro do Palácio do Vaticano. Apesar do nome pelo qual é mais conhecido, os filósofos que ali figuram não viveram todos em Atenas, mas representam variadas escolas filosóficas, pertencentes a épocas distintas.

RAFFAELLO-La-scuola-di-Atene

Sócrates, Heráclito, Parmênides, Pitágoras, Epicuro, Diógenes, Ptolomeu, Plotino, Averróis… Muito se tem especulado sobre as identidades das personalidades ali retratadas. Algumas são facilmente reconhecíveis, apesar de Rafael tê-las pintado com feições de outras pessoas. É o caso de Platão, representado com a cabeça de Leonardo Da Vinci, gênio contemporâneo de Rafael. Com a mão direita apontada para cima, para o mundo das ideias, Platão segura com a outra mão o Timeu, diálogo no qual teorizou sobre a distinção entre o mundo físico, sensível, mutável e perecível, e o mundo eterno, imutável, apreendido pelo logos (razão), portanto inteligível. Ao lado de Platão está seu discípulo Aristóteles, apontando para baixo, para o mundo da prática, e segurando o livro da Ética a Nicômaco. Ambos representam um debate central na filosofia, durante a Idade Média: a questão dos universais.

Platão e Aristóteles

Entre todos os representados, duas figuras chamam a atenção, pelo seu aspecto subversivo. São as únicas personagens que olham diretamente para o espectador. Uma delas é o próprio Rafael, auto-retratado no canto à direita do afresco, fazendo as vezes do pintor Apeles, artista do tempo de Alexandre, o Grande. A subversão dessa figura reside no fato de afrontar o que Platão propôs em A República: a expulsão dos artistas de sua cidade ideal, pois que os artistas imitavam a realidade material, que já seria uma imitação da realidade inteligível. A arte, segundo Platão, seria uma cópia da cópia. Ora, se uma cópia não é necessariamente algo tão bom quanto o original, imagine a cópia da cópia! Ao se pintar representando outra pessoa, Rafael não apenas restabeleceu os artistas entre grandes pensadores, como desenvolveu uma “representação da representação”, como uma espécie de “vingança” contra Platão.

Rafael e Rafael

A segunda figura que denota o aspecto subversivo da obra é Hipácia de Alexandria, a única mulher na pintura e, assim como Rafael/Apeles, também fita nos olhos o observador. Para incluí-la no afresco, evitando uma possível censura papal, Rafael a pintou com as feições de outro retratado seu: Francesco Maria I Della Rovere, Duque de Urbino, sobrinho de Júlio II.

Francisco Rovere

Última diretora da Biblioteca de Alexandria, no Egito sob o domínio romano, Hipácia foi filósofa, matemática e astrônoma. Bela e inteligente, em meio a um contexto de extrema intolerância religiosa, Hipácia foi martirizada por uma turba de fanáticos estimulados pelo patriarca cristão da cidade: o bispo Cirilo. Consta que em uma tarde de março do ano 415 d.C., enquanto voltava do Museu, Hipácia foi arrancada de sua carruagem, esfolada viva com conchas afiadas, teve o corpo arrastado pelas ruas, foi esquartejada, e seus restos mortais foram queimados em uma pira. O assassinato brutal de Hipácia marcou o fim da Antiguidade Clássica e também o fim da Universidade de Alexandria, que já havia produzido conhecimentos científicos profundos como, por exemplo, a quilometragem necessária para se dar a volta ao mundo e a determinação da distância da Terra à Lua. Depois disso, o conhecimento ficaria restrito aos intelectuais dos mosteiros, sob a autoridade da Igreja. Hipácia caiu no esquecimento, enquanto Cirilo foi canonizado: virou São Cirilo de Alexandria, Bispo e Doutor da Igreja – título honorífico conferido a menos de quatro dezenas santos católicos.

Ao reintroduzir Hipácia, por meio da representação artística, entre os grandes luminares do pensamento ocidental, Rafael promoveu uma segunda vingança, desta vez no seio da autoridade eclesiástica. Hipácia está lá, imortalizada dentro do Vaticano, para sempre observando o que fazem ou desfazem os guardiões da herança intelectual de seus algozes e assassinos.

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