quarta-feira, 19 de setembro de 2018

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Breve história do beijo

Anteontem, no bloco “As Pecinhas” de Palmeira dos Índios, eu beijei outro homem nos lábios (veja a matéria). Foi um selinho. Foi também parte daquela brincadeira de carnaval. Após 15 anos de existência, o bloco apresentava, em cima do trio elétrico, o primeiro beijo público entre “pecinhas”. Nem eu nem meu grande amigo Valdir Jr., que é da resenha, acordamos menos homens ou menos heterossexuais por causa daquilo. Por outro lado, um simples gesto motivou, como já era bem esperado, um debate na cidade. Uns contra, outros a favor. De um selinho, lembremo-nos.

Houve até quem colocasse Deus no meio, para indignar-se diante da imagem repercutida no Facebook. Logo Deus, que praticamente beijou as narinas de Adão quando inspirou vida em seu boneco de barro, fazendo do beijo um sopro vital, como fazem também aqueles que salvam vidas (vidas!) com a técnica da respiração boca a boca…

Todo o furdunço em torno daquele beijo motivou-me a pensar sobre os significados que esse gesto adquiriu ao longo da história humana. E não foram poucos! Resolvi tomar nota de alguns. Descobri que o beijo surgiu milhares de anos atrás numa época em que nossa espécie dependia do olfato para sobreviver. “Os homens das cavernas cheiravam pessoas de outras tribos para saber se eram inimigas”, explica Camila Nardini em seu post no blog Jovens Mentes.

As informações mais antigas sobre o beijo datam de 2500 a.C. e se tratam dos relatos nas paredes dos templos de Khajuraho, na Índia. Na Antiguidade, os gregos o adoravam e os romanos o difundiram. Segundo o relato bíblico, Jesus e seus discípulos beijavam-se no rosto mutuamente, realizando o chamado “osculum pacis” (ósculo santo). Entre os guerreiros greco-romanos, o beijo era comum após o retorno dos combates.

Durante o período medieval, o beijo na boca significava uma espécie de contrato firmado entre o senhor feudal e seu vassalo. O hábito de os homens beijarem pessoas do mesmo sexo sem envolvimento afetivo foi abolido no século XVII.

Em nossa sociedade, mesmo sendo garantida em lei a igualdade de direitos civis dos casais heterossexuais e homossexuais, o beijo entre homens ou entre mulheres ainda motiva reações indignadas. Dizem alguns insensatos: “a família brasileira não está preparada para o beijo gay”, como se fosse um gay na casa de cada família para dar um beijo desses.

O gesto que protagonizei na última quinta-feira (histórico, conforme dizem), teve um alcance político, ao tornar visível uma questão que envolve homofobia e outras formas de preconceito e violação dos direitos humanos. Ele terá mais valido a pena quanto mais as pessoas se inspirarem para demonstrar publicamente o seu afeto e quanto mais as outras pessoas não enxergarem a polifonia do amor como crime, anormalidade ou coisa do outro mundo. A questão está no meio de nós e precisamos encará-la.

Bom carnaval!

Beijos!

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