quinta-feira, 15 de novembro de 2018

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A balsa da Medusa

Em 1816 a fragata Medusa que ia da França para o Senegal naufragou, 147 pessoas que não conseguiram lugar nos botes salva-vidas improvisaram uma balsa com tábuas e o mastro do navio.

Com a embarcação à deriva deu-se um dos mais trágicos eventos da História náutica francesa, com pessoas morrendo de sede e fome. O médico francês Jean-Baptiste Henry Savigny assumiu a liderança do grupo e passou a dissecar os cadáveres e fomentar a prática do canibalismo para alimentar os demais náufragos.

Depois de treze dias à deriva a balsa foi resgatada pelo Argus, um pequeno navio mercante, só quinze pessoas sobreviveram. O episódio foi imortalizado em um quadro pintado em 1818 por Théodore Géricault, que se encontra exposto no museu do Louvre em Paris.

A vida institucional brasileira assemelha-se hoje, caricaturalmente, com a Balsa da Medusa, onde se pratica uma antropofagia política irrefreável, cuja consequência principal é a impossibilidade de medir o nível de qualquer lógica com o mínimo de racionalidade possível.

O candidato Jair Bolsonaro afirmou que se eleito presidente o Brasil iria retirar-se da ONU, depois desmentido por ele próprio, já que a entidade era “dirigida por comunistas”. Ora, tal declaração constitui-se em evidente delírio. Senão vejamos.

Cuba vive um embargo quase secular dos Estados Unidos. Tem uma economia em penúria, sobrevivendo às custas de malabarismos econômicos e diplomáticos.

A Coreia do Norte pratica uma geopolítica baseada no armamentismo atômico, temendo o destino de outros Países que afundaram ou foram invadidos pelas grandes potências.

Cercada, fechada em si mesma, nação pobre, sobrevive graças à proximidade com a China que tem os seus próprios objetivos nacionais geopolíticos e não permite que o vizinho fronteiriço caia nas mãos do Estados Unidos ou de outras potências.

A Rússia hoje nada tem de comunista, é uma sociedade capitalista, com seus interesses nacionais de protagonista no teatro das nações, quase milenar, em primeiro plano.

O Vietnã trata de curar as feridas da sua epopeia de libertação contra três potências – França, Japão e EUA – em menos de um século, adota um sistema de economia mista, Estado e iniciativa privada. Cuida exclusivamente do seu destino, conquistado tragicamente.

Existe a China, a segunda potência global, em crescimento contínuo, um sistema econômico de “Socialismo de Mercado” capitalista, cuja produtividade faz inveja aos maiores barões da indústria do planeta.

Enfim, vivemos hoje uma Guerra Comercial geopolítica, e não a Guerra Fria ideológica do século XX.

Quanto à ONU, por todos esses motivos e outros mais, não é “dirigida por comunistas” mas pelas grandes potências, com o predomínio do capital financeiro, principalmente especulador, que dita os seus objetivos e programas internacionais.

Esse mesmo capital especulador, de mega-bilionários, como George Soros e suas ONGs, é quem promove a Guerra Híbrida pelo mundo, que assola o Brasil, fomentando tempestades de ódios difusos e “ondas emocionais induzidas” via redes sociais.

A ONU não é uma instituição isenta e neutra, como dizem, mas um teatro de operações onde coabitam interesses econômicos poderosos e ambições geopolíticas para lá de evidentes.

É só lembrar o papel dessa instituição nas duas guerras do Iraque, Iugoslávia, Afeganistão, Líbia, Síria, as lutas fratricidas que ocorrem hoje no continente africano etc. e muito mais.

Retirar-se da ONU é portanto, delírio e bravata pura, um crime diplomático e geopolítico, uma apologia ao isolamento absoluto do País.

Mas o Brasil deve resolver suas pendências judiciais internamente, porque abdicar da capacidade de solução das suas questões, entregá-las aos desígnios dos interesses das grandes potências e das finanças globais é abrir as portas, oficialmente, às ambições dos magnatas financeiros, tanto como aos projetos das grandes potências em relação, por exemplo, à Amazônia brasileira e muitos outros mais. Seria a oficialização da vassalagem nacional e o reconhecimento público do status colonial.

Assim, com o desmantelamento das instituições republicanas, a tentativa da destruição da vida política democrática, via uma cultura falso-moralista e inconstitucional, os erros cometidos por organizações partidárias ditas de centro, esquerda e direita, as ações desestabilizadoras das grandes potências, que nadam de braçada no País, o fomento da Guerra Híbrida através dos megaespeculadores das finanças globais, o Brasil vive a maior crise da sua História republicana que se expressa nas atuais eleições.

Parece o quadro A Balsa da Medusa, pelo nível de canibalismo político e delírio geral.

Mas expressa também uma crise da Nova Ordem Mundial, que já não responde às demandas dos povos e nações do planeta. As insubordinações vão continuar a prosperar por todos os quadrantes e se agravar imensamente.

Para nós a única saída viável é a defesa dos valores democráticos, a estabilidade da vida brasileira, o retorno ao equilíbrio dos três poderes, a intransigente defesa da soberania nacional, o desenvolvimento econômico, dissipar as distâncias sociais abissais que ainda persistem até os dias atuais.

Vivemos um período em que a ausência de lideranças, que tenham o Brasil em primeiro plano, é infelizmente um fato objetivo. Para não falarmos em estadistas.

É possível que um período político da nossa história tenha se esgotado. Outros surgirão, porque o Brasil é inevitável, uma junção do nosso passado, presente e o futuro. Nada se faz como na peça Esperando Godot, na vida política o que vale é o agora, construir o amanhã.

Não é fácil nem o céu é de brigadeiro, as nuvens estão carregadas, mas a história é feita de desafios. Nunca foi diferente, aqui ou em qualquer outra nação do mundo que tenha a dimensão continental, a população, o protagonismo Histórico e geopolítico do Brasil. Este é o momento de muita lucidez, de novas ideias e novos projetos para o País, numa época em que se prenunciam grandes viragens globais. O que não podemos é ser a réplica  da Balsa de Medusa.

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