quarta-feira, 26 de setembro de 2018

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A segunda morte do mestre Graça

No ano passado publiquei sob o título acima um texto que julgo merecer ser republicado, com algumas necessárias atualizações.

Há 61 anos, um câncer de pulmão paralisava a pena do escritor que retirou as bijuterias da literatura brasileira. O passar do tempo, contudo, só tem confirmado a importância de Graciliano Ramos, não apenas por sua excelência literária, como pela atualidade de sua interpretação do mundo social. A publicação de “Garranchos”, conjunto de textos inéditos, por ocasião dos 120 anos do nascimento do escritor, há quase dois anos, são a prova da fecundidade da obra graciliânica, sobre a qual têm se debruçado inúmeros estudiosos, de várias partes do mundo, abordando-a a partir de diversas perspectivas teóricas.

Não obstante a consagração como um dos mais considerados artistas das letras, o reconhecimento de seu trabalho como fonte fidedigna de informação sobre a história, a cultura e a formação social do povo brasileiro, e servir de modelo de cidadão, político e administrador responsável, Graciliano continua um “ilustre desconhecido” em Palmeira dos Índios, justamente o lugar que serviu de cenário e matéria-prima de boa parte de sua produção cronística, romanesca e epistolar; justamente o lugar sobre o qual o autor de “Vidas secas” escreveu: “E aí está porque eu vou publicar em revistas sérias, onde gente grande colabora, coisas sobre a vida em Palmeira dos Índios, o único lugar que eu mais ou menos conheço, porque lá vivi quando tinha a idade de pensar”.

A demonstração de desprezo à necessidade de a cidade (re)conhecê-lo é oficial: com exceção do ano de 2012, em que a Secretaria Municipal de Cultura (quase extinta no ano passado) realizou uma Jornada Cultural (que não contou com a presença do atual sucessor de Graciliano na Prefeitura, bem como de representantes do Legislativo palmeirense), não se tem, há anos, uma programação que celebre a memória do escritor na cidade, além de não ser dirigida a devida atenção à Casa Museu, que precariamente é guardiã do acervo graciliânico.

Passaram despercebidos, por exemplo, os 80 anos da feitura de seus famosos relatórios (2010); os 75 anos de publicação de “Angústia”, seu terceiro romance (2011); e os 85 anos do começo da história de amor com Heloísa (2012). Despercebe-se comumente o aniversário de nascimento do escritor (27 de outubro). Desperceberam-se, em 2013, as 6 décadas do seu falecimento e as 8 de publicação de “Caetés”, seu romance de estreia, cujo cenário é Palmeira dos Índios. Tanto é que, quem quiser fazer uma reflexão mais profunda sobre o local, sua cultura, sua história, sua dinâmica da paisagem, sua vida política, enfim, o ser palmeirense e, através disso, atingir o âmago da condição humana, deve ler “Caetés”.

É triste constatar que a cidade onde o mestre Graça viveu a maior parte de sua vida, onde negociou, foi professor, secretário de educação, amou, casou, construiu família, sofreu, enraizou-se, enfim, se fez plenamente humano, é a mesma onde o poder público o condena a uma segunda morte: o esquecimento. Como entender isso? O próprio mestre Graça nos dá uma pista para o entendimento dessa contradição, ao decifrar a alma do palmeirense: “De resto, nenhum pensamento, nenhuma ação, muito falar. Temos a idolatria da palavra, vazia embora. Nossa preocupação máxima é falar bonito”.

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