quinta-feira, 23 de Janeiro de 2020

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O banho de seu Humberto

Por Carlito Lima

José de Arimatheia ficou radiante ao conseguir emprego na transportadora de valores, passado o período de capacitação, deram-lhe fardamento. Iniciou seu trabalho com atenção e medo de assaltantes. Ao retornar em seu bairro, fardado, sentia-se o próprio coronel de Polícia, até brigas e pendengas entre moradores ele era consultado. Comprou uma moto barata de segunda mão assumindo o débito no banco, para onde escorria metade de seu salário. Numa festa conheceu Claudinha, menina, 16 anos, se apaixonaram, namoraram, ela engravidou, casam-se. Foram morar numa casa alugada de porta e janela onde nasceu o Matheus. Arimatheia não deixou Claudinha trabalhar para cuidar do menino, comiam na casa de seu Claudio no bairro do Clima Bom.

Passaram-se quatro anos, o casal sobrevivendo, até que Arimatheia deu para beber, com comportamento estranho deixou de procurar a esposa na cama, ela que gostava tanto da vadiagem. Nessa época Claudinha havia arranjado um emprego de doméstica na casa de um ricaço na orla, limpava, passava e cozinhava. Melhorou a situação econômica, Matheus estudando, entretanto, a cachaça e o distanciamento do marido entristeceu a bela Claudinha. Certa tarde ela apanhou o filho mais cedo na escola, estava febril, ao chegar em casa percebeu a moto de Arimatheia. Teve a maior surpresa ao abrir a porta do quarto, o marido se pegando com um colega de trabalho. Essa é a maior decepção, humilhação e traição que uma mulher pode ter. No mesmo momento ela botou o marido para fora de casa, chorou a noite toda. No dia seguinte prometeu a ela mesma recuperar sua vida, tinha o amor de Matheus para lhe dar força.

Com um ano de separação a dor de Claudinha amenizou. Mulher bonita, assediada por muitos homens, preferiu fechar-se, não queria outro homem por enquanto. Até o patrão mostrava uma queda pela bela empregada, ela fingia não entender as insinuações. 

No dia que Seu Humberto, o patrão, completou 67 anos, ele teve um derrame, uma catástrofe na casa de Dona Antônia. Ela e os dois filhos deram a assistência devida no hospital. Ao voltar para o luxuoso apartamento Seu Humberto precisou de uma enfermeira para dar banho, vesti-lo, enfim cuidar do enfermo. Seu Humberto falava com dificuldade, mas dava para entender. As enfermeiras não agradaram, trocava sempre com seu mau humor. Certo dia ficou sem de enfermeira, Claudinha ajudou Seu Humberto a tomar o banho de banheira, enxugou-o, vestiu-o. O velho ficou surpreso com a delicadeza, a suavidade da empregada, gostou daquele cuidado, disse que queria apenas Claudinha cuidando dele. A partir daquele momento só chamava a empregada toda hora, durante todo dia, inclusive no banho de sol em cadeira de roda, só queria a jovem bonita. Claudinha dava conta da cozinha, da casa e do patrão. Ficou muito cansativo, inclusive em suas folgas sábado à tarde e domingo era chamada com urgência. Seu Humberto só aceitava a assistência da enfermeira improvisada. Quando Claudinha recusou a trabalhar nas folgas, foi um Deus no acuda, Dona Antônia entendeu que seu sossego dependia de Claudinha. E teve que entrar em um acordo com a empregada-enfermeira. Seu Humberto propôs ela morar em um de seus apartamentos perto de sua casa, pagava a escola de Matheus e aumentava o salário três vezes o valor, desde que ela tivesse dedicação integral a Seu Humberto. Claudinha aceitou sem abrir mão de sua folga aos domingos, assim ficou acertado.

Em véspera de completar 70 anos Seu Humberto melhorou bastante em sua mobilidade, devido a sua mulher que o ajuda e suave Claudinha, competente, cuja delicadeza minimiza o sofrimento do enfermo.

Pelo menos duas vezes na semana Dona Antônia passa a tarde em compras no Shopping, deixa Seu Humberto nos momentos de sua maior felicidade, o banho especial prolongado na banheira com a gentil e carinhosa Claudinha.

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