sábado, 19 de outubro de 2019

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Terror nacional que consegue fugir do óbvio

Mortos não falam. A não ser com Stênio, o plantonista do Instituto Médico Legal interpretado por Daniel de Oliveira. O que os finados lhe dizem são confidências das mais tortuosas. Envolvem da intimidade de sua esposa, Odete (Fabiula Nascimento), a relações perigosas com gangues, polícias e milícias.

O que se pode dizer deste que é o primeiro longa-metragem de Dennison Ramalho é que coloca o terror brasileiro contemporâneo em um patamar de excelência. Dennison sabe filmar. É diretor consistente e trabalha bem com imagens, como já se sabia por seus inúmeros curtas-metragens. E também por ter sido assistente de direção de Encarnação do Demônio, filme que trouxe de volta um então afastado José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Mojica é patrono de todos os aficionados brasileiros pelo gênero terror e foi considerado um dos grandes cineastas do país na época do cinema dito “marginal”. Em Morto não Fala, Dennison mostra-se um discípulo à altura do mestre. Em particular por colocar a distopia social brasileira no centro de sua história de horror. Não cai em sustinhos fáceis, próprios do gênero quando tratado de maneira óbvia. Prefere aliar o sobrenatural ao realismo social que, muitas vezes, revela-se mais macabro que qualquer aparição do além.

O erro de Stênio é quebrar o pacto com os mortos para resolver um problema particular. Ele é casado com Odete, que não o suporta mais. Ela não aguenta nem o cheiro trazido pelo marido do trabalho, entranhado na pele e nas roupas. Odor de morte. Odete envolve-se com outro homem, Jaime (Marco Ricca), dono de um botequim vizinho. Essa quebra de sigilo entre o aquém e o além túmulo precipita uma situação incontrolável para o traidor, que se estende a uma mocinha amiga da família (Bianca Comparato) e aos filhos de Stênio e Odete.

Morto não Fala tem seu lado gore. Não evita nem a sangueira e nem as sequências de cemitério, ambas de rigueur no gênero. Mas, de modo geral, Denisson, como cineasta, tenta se livrar do óbvio, dos clichês e as ideias recorrentes.

O resultado é muito bom, seja pela qualidade da filmagem, pela originalidade de tratamento do tema, seja pela excelência do elenco. Nem todo cineasta é capaz de reunir uma trinca de craques como Daniel de Oliveira, Marco Ricca e Fabiula Nascimento. Trabalhar com gente desse quilate é coisa de outro mundo.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Luiz Zanin Oricchi
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