quinta-feira, 21 de novembro de 2019

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Ramba chega ao Brasil e segue para ‘aposentadoria’ em santuário de elefantes

Depois de quase três décadas trabalhando como “artista” em circos, a elefanta asiática Ramba, de ao menos 53 anos, chegou ao Brasil, nesta quarta-feira, 16, para uma merecida aposentadoria. A passageira ilustre, com seus 3,6 mil quilos, desembarcou às 6h da manhã no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, interior de São Paulo, três horas depois de partir do aeroporto de Santiago, no Chile, a bordo de um Boeing 747-400.

Ramba foi trazida no interior de uma caixa de quase 6 toneladas, com água, alimentação, temperatura controlada e câmeras internas de monitoramento. A elefanta passou pelos trâmites da Receita Federal, foi inspecionada por técnicos do Ibama e recebeu uma guia de transporte expedida por funcionários do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Às 9h da manhã, Ramba seguiu em comboio rodoviário para o Santuário de Elefantes do Brasil, uma reserva de 1,1 mil hectares, em Chapada dos Guimarães (MT).

A viagem internacional marca um novo capítulo na história da elefanta que nasceu selvagem e foi domesticada para ser atração circense. A maratona, iniciada em Rancágua, a 90 km de Santiago, deve terminar somente na noite de quinta-feira, 17, ou na manhã de Sexta-feira (18) com a chegada de Ramba ao destino.

De acordo com o biólogo Daniel Moura, diretor do santuário, quem vai definir o tempo da viagem é a própria Ramba. “Seria bom que ela ficasse o menor tempo possível em viagem, mas como é um animal que vem de uma vida de sofrimento, vamos respeitar as vontades dela. Programamos de oito a dez paradas para o descanso, mas podem ser mais ou menos, dependendo de como ela estiver”, disse.

No percurso de 1.500 quilômetros, Ramba vai ter água à vontade e será alimentada com feno, frutas e legumes, além de suplementos. Se quiser, terá direito a caminhadas em fazendas ao longo do trajeto, que já estão de preparadas para essa eventualidade. Além do caminhão-guincho da empresa Porto Seguro, que cedeu o transporte, uma equipe de apoio incluindo uma veterinária e o presidente do santuário, Scott Blais, seguem com o comboio, escoltado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Aparato

A chegada de Ramba movimentou os bastidores do aeroporto de Viracopos, que em 59 anos de história, já recebeu baleia, onça, canguru, avestruzes, boiadas inteiras, mas nunca tinha recebido um elefante. A operação de desembarque mobilizou cerca de 30 pessoas.

Após um voo de três horas, Ramba chegou um pouco agitada, segundo o presidente do santuário, Scott Blais, que estava com ela no avião. “Ela sente que não está com os pés em terra firme e fica um pouco nervosa, mas logo se acalma”, disse.

A caixa foi retirada do avião pela porta lateral, desceu de guindaste-empilhadeira e seguiu para o setor de cargas. Funcionários da concessionária do aeroporto abriram uma faixa com os dizeres: “Ramba, seja bem-vinda ao Brasil. Viracopos te recebe de braços abertos”.

O contêiner foi aberto para higienização, mas Ramba permaneceu no interior. O gerente de operações de carga Ricardo Luize, disse que a recepção a Ramba vinha sendo preparada há três meses. “Foi tudo articulado em detalhes para que ela ficasse no terminal apenas o tempo necessário para os trâmites.”

A voluntária Tina Leão conta que foram necessários vários dias para convencer Ramba a entrar na caixa, preparada com exclusividade para ela. O ambiente interno, embora com grades de contenção, foi desenhado com o molde do corpo e formas anatômicas da elefanta. O comedouro e o bebedouro ficaram em compartimento de fácil acesso. “Ramba viajou muito com circos pela Argentina, Chile e outros países, por isso se acostumou às viagens, embora da pior forma possível. Nós usamos de estímulos suaves para atraí-la para a caixa, com palavras carinhosas e comida que ela ama, como melancia e isotônico vermelho. Cada vez que ela entrava, ganhava um estímulo positivo”, contou.

No santuário, a elefanta será recebida pelas novas companheiras Maia e Rana, que já vivem ali. A caixa será aberta em uma baia forrada com areia para que Ramba possa ter contato com o chão. De acordo com o biólogo, desse local ela poderá avistar as companheiras. “As duas estão bem adaptadas e a companhia pode ser boa para elas. Se houver algo que indique alguma tensão, a gente vai esperar para colocar Ramba com as outras. Também vamos avaliar as condições de saúde e iniciar os tratamentos. Queremos que ela tenha vida longa.”

Maus-tratos

A idade de Ramba é incerta, calculando-se que tenha entre 53 e 60 anos. Em liberdade, um elefante vive até 80 anos, mas o cativeiro pode reduzir essa previsão. Conhecida como a última elefanta de circo do Chile, Ramba foi comprada na Ásia e levada para a Argentina na década de 80. Durante três décadas, ela viajou de caminhão, presa a correntes, para ser vista pelas plateias.

Em 1997, o animal foi confiscado do circo “Los Tachuelas” pelo Serviço Agrícola e Pecuário do Chile, devido às denúncias de negligência e maus tratos.

Embora proibido de usá-la em apresentações, o circo continuou como depositário até a elefanta ser resgatada, em 2011, pela ONG Ecópolis de proteção aos animais, e levada para Rancágua. A entidade, que atua com outros animais silvestres e tem pouca experiência com elefantes, acabou entrando em contato com o santuário brasileiro.

De acordo com a voluntária Valéria Mindel, a elefanta continuava sofrendo com o rigor do inverno chileno e com a solidão. O santuário abriu um financiamento coletivo no Brasil e nos Estados Unidos para custear a transferência e contou com apoio de empresas para o transporte de Ramba. A entrada da elefanta no País foi autorizada pelo Ibama. O aeroporto de Viracopos não cobrou taxas alfandegárias.

Quando a reportagem perguntou ao presidente do santuário, Scott Blair, qual a sua formação, ele respondeu que era apenas formado em elefantes. Aos 46 anos, o cidadão americano dedica sua vida a esses animais. Ramba é o 36º elefante resgatado por Blair e sua mulher, Katherine, e transferido para os santuários espalhados pelo mundo.

Autor: José Maria Tomazela
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