sábado, 17 de agosto de 2019

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No escurinho do cinema

Por Carlito Lima

Nos anos 60, a maior diversão da juventude era, com certeza, o cinema. No Centro da cidade, bem instalado na Rua do Comércio, o Cine São Luiz reinava em Maceió, como o mais frequentado. Havia os cinemas dos bairros: o Cine Rex ficava na aprazível, Pajuçara, bairro da classe média alta, gente grã-fina, porém, o cinema é aberto para todos. A moçada da Rua do Cravo e imediações lotava o cinema para assistir filmes de cowboys e seriados. O cine Plaza, ficava no bairro do Poço, fui frequentador assíduo. O Cine Lux na Ponta Grossa fazia a alegria da pivetada dos bairros vizinhos. E o Cine Ideal na Levada passava as melhores séries, “voltem na próxima semana”. Nos anos 80 o Cine Ideal foi transformado em cinema pornô.

Certa vez fui jurado em um concurso literário. Fiquei impressionado com uma crônica bem escrita por um cidadão, homossexual, de Maragogi. Uma crônica- depoimento, onde confessava o que acontecia em suas tardes no Ideal. Quando ele sentia vontade, quando dava comichão no rabo, entrava no cinema com o filme já iniciado. Não demorava, alguém encostava, se oferecendo como parceiro; em pé, encostado à parede, eles satisfaziam-se mutuamente. Na crônica ele chegava a detalhes impressionantes. Outra jurada, professora da Universidade, arquivou aquela crônica como documento para estudos de comportamentos sexuais dos anos 80. É bom esclarecer aos apressadinhos meninos do arco-íris que o Cine Ideal já fechou há alguns anos.

        Na década de 50 o cinema mais chique no centro da cidade, o Cinearte passou a ser chamado São Luiz (minha mãe em lapso de memória às vezes chamava de Capitólio, seu nome original nos anos 30). Foi a época do cinemascope e tecnicolor, o auge dos grandes filmes americanos: “Suplício de Uma Saudade”; “Tarde Demais para Esquecer”; “Juventude Transviada”, entre outros. No início de uma paquera, o jovem marcava encontro no São Luiz, pedindo a moça para guardar seu lugar. Ao iniciar o filme, no escurinho do cinema, ele sentava-se ao lado. Às vezes, no primeiro dia, pegava na mão, era a glória, ter pegado na mão no primeiro dia. Quando era uma moça já calejada, marcava encontro nas cadeiras de trás, mais discreto para o beijo na boca, o alisar e outras carícias mais íntimas. À noite o cara se gabava com os amigos que tinha feito maior “sabão” com uma jovem no São Luiz.

As matinês do São Luiz eram bem frequentadas, os maloqueiros de Maceió se juntavam para fazer presepadas. Certa vez no filme “Sansão e Dalila”, numa cena, Dalila caminha numa estrada, a câmara focalizava ela andando de costas. De repente, Dalila para, vira a cabeça, olha para trás e dá um adeus com mão direita. Becker, um dos maiores presepeiros de Maceió, ficou para assistir outra seção do filme. Quando apareceu a cena de Dalila caminhando, Becker deu um grito: “Tchau Dalila!!!”. Nesse momento, na tela, Dalila parou, olhou para trás, deu adeus. O cinema veio a baixo, às gargalhadas. Outra vez durante um filme de terror, maior tensão, maior perigo, todos entretidos no filme, de repente, Becker em cima, no balcão, jogou uma galinha viva. O barulho que a galinha fez batendo as asas e o cacarejando alto, deu um susto apavorante na plateia. Parou o filme, tentaram inutilmente pegar meu querido amigo Becker. 

Havia um rapaz de uma das famílias mais distintas de Maceió que nasceu com problema, tinha idade mental de cinco anos, vivia perambulando pela Rua do Comércio, todos gostavam de Celinho. Ele assistia várias vezes os filmes no São Luiz. O gerente compadeceu. Propôs a Celinho entrar de graça e ser fiscal do cinema e disse quais suas funções: Não deixar pivete fazer maloqueiragem; não deixar fumar; não deixar se masturbar; beijar podia. Celinho repetia para memorizar: “Não pode fumar, não pode gritar, não pode se masturbar”

Celinho até que ajudou, quando percebia um cigarro aceso, aproximava-se: “Cigarro não! É proibido!”, o cara apagava. Ele ficava louco porque não podia identificar os meninos gritando nas matinês. Certa vez, Celinho encostado com a barriga na mureta notou um casal suspeito nas duas últimas cadeiras. Andou de ponta de pés até constatar a cena: a namorada segurava alguma coisa por dentro da braguilha do namorado. Celinho não advertiu, emocionado com o primeiro flagrante foi gritando:

_ “Ela tá masturbando ele! Tá masturbando. Não pode, não pode.”

O cinema veio abaixo numa só vaia. O casal saiu apressadinho pedindo licença entre as cadeiras. Por azar a moça foi identificada pela moçada da Rua do Comércio. Por muito tempo ficou conhecida como “Mãozinha de Ouro”. Celinho foi chamado pelo paciente administrador comunicando que ele devia ser discreto quando chamasse a atenção, ele entendeu. Celinho por muito tempo assistiu todos os filmes do São Luiz gratuitamente e zeloso, repreendia discretamente quem fumasse, quem gritasse ou quem se masturbasse, o que acontecia algumas vezes em filmes impróprios a 18 anos.

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