segunda-feira, 15 de julho de 2019

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Elina Garanca, a diva letã de alma espanhola

A expectativa do encontro com uma das maiores divas líricas da atualidade foi plenamente recompensado por uma noite magnífica e eclética. Aos 42 anos, Elina Garanca não é apenas fulgurantemente bela; possui uma voz incomparável de mezzo-soprano lírico, capaz de inesperadas doçuras como na inesquecível e refinadíssima versão de El Dia que Me Quieras, um presente final depois de quatro extras, com o público literalmente extasiado recebendo seu beijo de boa noite. E de incendiar corações e mentes com sua Carmen.

Duas partes bem definidas construíram o repertório de sábado, 22, na Sala São Paulo. Na primeira, o clímax ficou com sua interpretação propositalmente ambígua, sedutora e ao mesmo tempo falsa, de um de seus cavalos de batalha, na ária Mon Coeur souvre à Ta Voix, momento em que Dalila seduz Sansão para descobrir a origem de sua força (na ópera Sansão e Dalila, de Saint-Saëns). Na segunda, duas outras árias que a elevaram ao status de diva contemporânea. De novo repertório francês, com uma Habanera e uma Canção Cigana incendiárias, da Carmen de Bizet.

Na plateia, confirmava-se a impressão de que Elina se sente mais confortável no repertório francês – sobretudo quando os franceses recriam de modo genial uma Espanha imaginária, mítica. Isso remete à paixão desmedida da diva pela Espanha. Melhor, pelo sol, sua natureza exuberante e por sua música, com destaque para as encantadoras e derramadamente populares zarzuelas. E elas foram duas, no programa oficial e outro tanto nos extras: a levíssima Canción de la Paloma, de El Barberillo de Lavapiés, de Francisco Asenjo Barbieri; e De España vengo, de El Niño Judío de Pablo Luna Carné, declaração de amor ao país que adotou e no qual vive.

Quem leu até agora pode pensar que Elina não se deu bem no repertório italiano. Longe disso. Em Io son lumile Ancella, de Adriana Lecouvreur de Cilea, cristalizou um daqueles instantes eternos nos versos finais Um soffio è la mia voce,/che al novo di morrà (minha voz é um sopro/que morre a cada manhã). E esbanjou afinação e sangue nas veias em Voi lo Sapete, o Mamma, da Cavaleria Rusticana, de Mascagni.

Recheada de “cachezistas” profissionais, a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro foi bem, com o maestro Constantine Orbelian cumprindo duas funções: regeu e também atuou como “claqueur”, comandando as palmas do público. Importante: foi sábio dando tempo a Marisa Lui, ex-primeiro clarinete da extinta Banda Sinfônica do Estado, substituir seu instrumento, pois logo no segundo minuto da abertura de Orfeu nos Infernos, de Offenbach, teve problemas com seu clarinete no solo a descoberto; com nervos de aço, ela retomou seu solo e tocou com brilho. Ao vivo, como se sabe, tudo pode acontecer. O concerto será repetido nesta segunda-feira, 24, às 21 horas, novamente na Sala São Paulo.

ELINA GARANCA
Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/nº, Campos Elíseos, telefone: (011) 3777-9721. Segunda (24), às 21h. Ingressos: R$ 420 / R$ 1.000.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: João Marcos Coelho, especial para o Estado
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