segunda-feira, 24 de junho de 2019

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‘O Traidor’ traz saga do mafioso Tommaso Buscetta

Mais próximo dos thrillers políticos de Costa-Gavras (como Z) que do tom épico de tintas românticas dos gângsteres de O Poderoso Chefão (1972) e que da criminalidade ordinária de Os Bons Companheiros (1990), o eletrizante O Traidor (Il Traditore), de Marco Bellocchio fez o 72º Festival de Cannes repensar suas certezas sobre a Itália e sobre os clássicos de Máfia das telas.

E com suas transgressões para fatos históricos antes encarados como certezas inquestionáveis e para clichês celebrizados por Hollywood, o novo longa do realizador de Vincere (2009) bagunçou o placar da disputa pela Palma de Ouro de 2019, em favor de italianos e brasileiros.

Rodado parcialmente no Rio e estrelado por talentos nacionais como Luciano Quirino, Jonas Bloch e uma Maria Fernanda Cândido em estado de graça, o filme revive os dias em que o mafioso Tommaso Buscetta (1928-2000) fez o Brasil de lar, ao lado da sua mulher, a carioca Maria Cristina de Almeida Guimarães. Ela é vivida por Maria Fernanda. Tommaso foi confiado ao romano Pierfrancesco Favino (visto em Guerra Mundial Z e Anjos e Demônios), que dispara como favorito ao prêmio de ator. Depois de elogios em revistas como Screen Daily e Variety, já há quem veja no longa um rival de peso para o espanhol Pedro Almodóvar e seu Dor e Glória como aposta principal.

A saga de Buscetta é o segundo concorrente do ano com sangue verde e amarelo nas veias, exibido na França nove dias depois da consagração do pernambucano Bacurau, cotadíssimo para a láurea de roteiro.

“A traição de Buscetta, ao delatar a Cosa Nostra à Justiça da Itália, é carregada de ambiguidade. Ele não trai por uma conveniência, trai porque, antes dele, com a entrada do tráfico de drogas nas atividades da Máfia e uma guerra de sangue, alguém desrespeitou o que antes era sagrado para eles. E o sagrado é, justamente, a palavra. A palavra da honra”, diz Bellocchio, que foi aclamado pela crítica mundial já em sua estreia em longas, em 1965, com De Punhos Cerrados (1965), mas não ganhou, em Cannes, uma láurea à altura de seu prestígio autoral.

A fotografia de Vladan Radovich amplia a beleza de paisagens cariocas e aumenta a voltagem das cenas de ação. A explosão de um carro, filmada sob a ótica do motorista, é um dos planos mais debatidos do festival. O clima de tensão se estende ainda para as cenas da vida a dois de Buscetta e Cristina, pelas inesperadas intervenções da polícia e adversários.

“Há uma lealdade amorosa entre Cristina e Tommaso que a fez desafiar família, sociedade em nome do afeto. Às vezes, nesse filme, penso se Maria Cristina reavalia as escolhas feitas em nome desse amor”, disse Maria Fernanda ao Estado durante as filmagens do longa, no Rio.

Ontem, ela subiu as escadas vestida com um look Christian Dior que mobilizou as revistas de moda. “É impressionante o quanto Bellocchio é aberto ao instante da criação, com uma disposição generosa de ouvir a gente. Estou vivendo uma mulher culta, de família influente no Rio dos anos 1980, que teve a coragem de desafiar as convenções da alta sociedade carioca para ficar ao lado do homem que amava, um homem envolvido com o crime.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Rodrigo Fonseca, especial para o Estado
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