quarta-feira, 21 de agosto de 2019

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Maureen Bisilliat se reencontra com o seu sertão e o de Euclides da Cunha na Flip

Se tudo tivesse saído como Maureen Bisilliat planejou três décadas atrás, você não estaria lendo esse texto. No início dos anos 1980, a fotógrafa inglesa radicada no Brasil tinha o patrocínio de uma empresa para fazer um livro. As fotos estavam todas na mão: rostos e cenários diversos dos sertões que ela percorreu entre o final dos anos 1960 e início dos 1970. Mas faltava um texto que as explicasse, ou as complementasse. Maureen, que tinha lido Romance d’A Pedra do Reino, logo pediu que Ariano Suassuna fizesse essa introdução. E Ariano apareceu com um livro inteiro, algo em torno de 100 páginas, que ela adorou – mas não tinha o que fazer com ele.

“Quando vi que não dava para incluir um livro dentro do livro, pensei no mais óbvio, no mais inicial, no sertão mais histórico. Tentei separar algumas partes exuberantes de Os Sertões que mostram um lado dele que às vezes fica se não perdido um pouco menos óbvio dentro do esplendor documental do livro e desse momento do Brasil”, conta a fotógrafa, aos 88 anos, que se reencontra agora com seu Sertões: Luz & Sombras, e com Euclides da Cunha.

Maureen é uma das convidadas da Festa Literária Internacional de Paraty (10 a 14/7) que, neste ano, presta homenagem ao ‘coautor’ de seu livro. A programação foi anunciada nesta quarta-feira, 15, em São Paulo. Na Flip, ela fala sobre suas andanças pelo Brasil e, principalmente, sobre suas lembranças do sertão, e também sobre sua relação com a literatura. “Eu vivo a literatura”, disse à reportagem numa sala de trabalho repleta de livros – havia muito mais antes de ela conhecer a ‘mágica da arrumação’ de Marie Kondo – em sua casa nos Jardins.

“Quando estou perdida, leio Agatha Christie. Ela me dá dicas, como o Quiroga”, conta, referindo-se ao astrólogo do Caderno 2. Cervantes, Gay Talese, Daniel Silva, P.D. James, de quem ela não gosta pela morbidez, mas que está na prateleira. Quer ler a biografia de Rondon, de Larry Rohter, que acaba de sair. É eclética, mas guarda mesmo com carinho a obra de autores como Guimarães Rosa e Jorge Amado, com quem chegou a conviver e que inspiraram seu trabalho – bem como Adélia Prado, Jorge de Lima, João Cabral, entre outros.

Diferentemente de sua experiência com a obra desses autores, que ela conheceu antes de sair a campo, sua relação com o livro de Euclides veio depois de ela ter o primeiro contato com seus cenários – aliás, as fotos do livro não são do sertão baiano propriamente dito, mas de outros lugares do Nordeste e de Minas. “Essas fotos foram feitas ao léu. Tínhamos uma galeria de arte popular chamada O Bode e viajávamos muito. São fotos ocasionais. Eu estava nos lugares e tirava essas fotos sem nenhuma intenção”, conta.

Depois precisou encontrar o trechos que conversassem com as imagens e ouviu do marido que era para ela nunca mais fazer um negócio daquele jeito. “Foi uma loucura. Eu pegava os pedaços, fazia xerox, cortava as cópias, aí vinha um vento e ficava tudo desorganizado de novo”, diverte-se. Foi trabalhoso, mas ela gostou do resultado.

Sertões: Luz & Trevas, aliás, é seu livro preferido, ela conta, e reeditá-lo agora faz sentido. “Eu não voltaria a alguns livros, que foram feitos no momento certo. Eu nunca faria um livro sobre populações indígenas como fiz nos anos 1970. O que ele pode ter trazido de benéfico foi para aquela época. Sertões: Luz & Trevas, para mim, se agora ou se daqui a 10 anos, ele tem alguma coisa. Ele viaja bem.”

Por falar em viajar, Maureen teve uma vida nômade desde os cinco anos, quando deixou a Inglaterra. Seu pai, argentino, era “um diplomata incomum, filho de calabreses”, e a cada hora a família estava num lugar diferente. Dinamarca, Estados Unidos, Colômbia, Argentina, Suíça. Chegou ao Brasil já adulta em 1952 e ficou até 1957. Desfez as malas definitivamente em 1960. Trabalhou com os irmãos Villas Boas e também na icônica revista Realidade e na Quatro Rodas. Conheceu o Brasil melhor do que a maior parte dos brasileiros. Fotografou muito até a década de 1980, depois mudou para o vídeo – e não para.

Há seis anos vem organizando pedaços de vídeo para o documentário Equivalências: Aprender Vivendo. “É um filme sobre o que eu faço. E o que eu faço é o que eu sou”, explica. Com direção dela e edição de Felipe Lafé, o filme deve ser lançado em setembro pelo IMS, e ela conta que um teaser será apresentado durante a Flip. Lá também será montada uma exposição com o trabalho de Maureen.

Ela organiza os vídeos, a casa, o caos. Diz que é a primeira vez que alguém “se atreve” a entrar na sala em que ela conversa com a reportagem. “O negócio é organizar o caos sem tirar dele a memória”, diz. E vai além: “Se eu tivesse sido uma pessoa organizada no início não teria a memória prática, material. Preservar cacos de vidros, pedaços de papel… tudo isso de repente vem e te inunda como um tsunami.”

Se gosta de lembrar? “Sim, mas de lembrar fazendo alguma coisa. Gosto de fazer coisas com o que eu lembro. Só lembrar é um saco. Sou a fanática do fazer.” Essa fase de arrumação foi prazerosa para ela. “Penso que na vida sempre estou tricotando e desfiando, desfazendo o caos. Cada pessoa tem a sua maneira de existir.”

Tem sido uma boa caminhada, ela diz – com seus vaivéns. “Se a vida fosse mais calma, a gente não faria nada. No momento em que eu não tiver mais o que fazer, que ninguém me der uma oportunidade como essa, eu já era.”

Maureen fala da família e diz que o ser humano é muito complicado porque carrega consigo tudo o que veio antes dele. “Eu tenho uma família pequena e, apesar de todos os altos e baixos de uma vida familiar, a gente se gosta. Sem família a vida seria muito frágil. Com todos esses altos e baixos, todas as marés da vida (fala isso em referência ao livro As Ondas, de Virginia Woolf, que acha “lindíssimo”), ela nos dá força para continuar.”

Maureen se considera uma pessoa que “chora o leite derramado”, que não esquece com facilidade seus erros, e diz que ser assim é exaustivo.

Não tem nenhum lugar neste País que ela queria ter ido, mas não foi. Guarda apenas o arrependimento de não ter feito o livro que Suassuna lhe deu: Maurina e Lanterna Mágica. Tenta resolver isso em conversas com os herdeiros do escritor morto em 2014 e com a Nova Fronteira, e espera novidades para o ano que vem.

Por ora, acompanha a reedição do livro – sem Ariano, mas com Euclides. A capa será ligeiramente diferente da original e a edição contará com dois novos posfácios: um de Walnice Nogueira Galvão, uma das principais pesquisadoras da obra de Euclides e responsável pela conferência de abertura da Flip, e de Miguel Del Castillo, curador da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista, escritor e também convidado do festival literário.

Maureen ainda não voltou a ler Os Sertões depois do convite da Flip. Preferiu reler Navegação de Cabotagem, de Jorge Amado, e conta que isso está lhe dando uma leveza e que a cabeça se ocupa depois em fazer as conexões. Seu exemplar todo grifado de Os Sertões está sobre a mesa, com jornais dobrados, mais livros e pilhas de fotografias.

Sobre a importância, ainda hoje, deste clássico, diz: “Quanto mais pudermos descobrir ou redescobrir essências brasileiras, melhor”. Fala sobre a velocidade das mudanças e do estado geral das coisas. “Hoje temos que ter muito cuidado com essas coisas que estão entrando no mundo e são muito perigosas.”

Descobriu recentemente um documentário de 1967 da BBC chamado Civilisation, baseado em livro de Kenneth Clark, e está encantada por ele explicar o que está acontecendo no mundo. Acompanha a obra de Bauman, gosta do conceito de liquidez, e acredita que ele e alguns outros conseguiram ou estão conseguindo “captar e transmitir o mundo de hoje e um mundo que talvez será”.

A fotógrafa finaliza dizendo que este é um momento em que a documentação, escrita ou fílmica, é sobretudo um dever. “É o último canto dos cisnes, sem ser pessimista, de um mundo que não mais será.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Maria Fernanda Rodrigues
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