terça-feira, 16 de julho de 2019

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Com ‘Eles e Elas’, leitor descobre o olhar bem-humorado de Damon Runyon

Por Assessoria

Filho e neto de jornalistas, Damon Runyon (1880-1946) era especializado na cobertura de esportes, principalmente beisebol e boxe. Mas seus melhores escritos, aqueles que o imortalizaram, nasceram não em ginásios ou estádios, mas em botequins fuleiros e mal frequentados. Lá, durante horas, praticamente imóvel em sua cadeira, ele observava malandros seduzindo coristas com braceletes de falsos diamantes, contrabandistas tentando escoar a mercadoria de procedência duvidosa, escroques enganando otários em jogos de dados. Seria um retrato puro da escória não fosse o olhar carinhoso com que Runyon transcrevia em palavras impressas aquelas sensações, em que o vocabulário das ruas ganhava uma erudição parodiada.

Runyon era um exímio pesquisador do submundo – nem sempre comedido ao tratar de intimidades, enxuto nas frases, implacável nas observações, direto na forma escrita, seu texto flutua em algum lugar acima da sujeira e do ruído real das ruas da cidade. Ele, como Nelson Rodrigues, conseguia ver nos canalhas uma bondade insuperável. É o que se percebe em Eles e Elas – Contos da Broadway, coletânea com dez histórias publicadas agora pela Carambaia, que finalmente apresenta de forma mais sólida um dos principais cronistas de Nova York dos anos 1920 aos 30.

“A Broadway e adjacências, mais do que cenários, surgem como personagens importantes do enredo. Graças ao alcance de sua prosa no início do século 20, Runyon criou a imagem de Nova York que o mundo abraçaria”, observa, na apresentação, Jayme da Costa Pinto responsável pela tradução, tarefa que lhe trouxe um trabalho e tanto.

Afinal, mais que uma simples descrição dos fatos e locais da trama, a escrita de Runyon oferece a recriação da linguagem daqueles personagens, que valorizava como nunca a sonoridade das palavras e do fraseado da malandragem, que se comunicava por meio de um linguajar próprio. E a reprodução causou tanto impacto que, na literatura anglo-americana, surgiram os termos ‘runyonês’ e ‘runyonesco’ para evocar trechos como esse, do conto Terremoto: “Pessoalmente, não gosto de tiras, mas procuro ser cordial com eles, e então quando Johnny Brannigan entrou no Mindys numa noite de sexta-feira e se sentou na minha mesa, porque não tinha mais lugar vazio no restaurante, fui logo cumprimentando, animado”.

Linguagem das ruas

“Sou o maior sedentário da cidade”, disse, certa vez, o escritor Damon Runyon em uma entrevista, como lembra Jayme da Costa Pinto no prólogo de Eles e Elas. “Para capturar algo minimamente interessante, preciso estar sentado. Sou capaz de passar o dia aqui sem que a cadeira emita sequer um rangido.” Desse posto de observação, aliado a seu ouvido apurado e domínio estético da escrita, o americano retratou em seus contos todo o colorido da Broadway de Nova York dos anos 1920 e 30, época marcada, no início, pela prosperidade e liberdade ao som do jazz e do charme das melindrosas até a chegada da depressão econômica, com a quebra da bolsa nova-iorquina, em 1929.

Runyon (cujo sobrenome verdadeiro era Runyan, trocado por um erro tipográfico de um editor, logo encampado pelo escritor) praticava um “regionalismo urbano”, quer dizer, uma inspirada carpintaria verbal nascida de uma intensa vivência da cidade e de seus tipos. “Aparentemente, os frequentadores cascas-grossas do Lindys não se importavam com a presença de um repórter ali e soltavam o verbo, fornecendo a Runyon combustível para os contos e, principalmente, para a construção de um estilo que viria a se tornar inconfundível na literatura americana do século 20”, observa Costa Pinto.

De fato, a liberdade com que Runyon escrevia seus contos se aproxima, talvez em estilo menos raivoso, à forma com que João Antônio brilhantemente reproduziu as conversas de malandros em espeluncas paulistanas. Uma decisiva opção pela quebra da regra, como bem observou o crítico Antonio Candido, no prefácio de Malagueta, Perus e Bacanaço (Cosac Naify): “Há uma coragem tranquila de elaborar a irregularidade, aceitando os caprichos da conversa, as hesitações, as repetições, as violações do bom gosto convencional, que contradizem os manuais de escrever bem, mas aumentam o alcance da expressão porque a aproximam da naturalidade.”

A singularidade do estilo de Runyon está, entre outras características formais, no uso quase obsessivo do presente do indicativo. “A linguagem urbana da prosa de Runyon transita por esse presente na forma de fragmentos, frases juntadas como peças de um jogo infantil ou como o discurso truncado de imigrantes, uma sequência não hierarquizada de sujeitos e verbos dando uma aparência de que reside ali algo de primitivo”, comenta o tradutor Costa Pinto. “Nada mais enganoso. Runyon oferece ao leitor um relato parcelado, mas não primitivo, dos acontecimentos à medida que eles se desenrolam. É uma forma literária que busca dar expressão a certo esgarçamento social específico da vida nas grandes cidades do século 20.”

Dessa forma, se é possível identificar um formato comum nos contos do americano, seria um início marcado por uma consideração instigante sobre o ambiente e um término invariavelmente surpreendente. O segundo conto da coletânea brasileira é exemplar – Um Sujeito Honrado apresenta Feet Samuels, sujeito que vive na pindaíba mas, entre os malandros, ostenta uma rara qualidade: jamais deixou de honrar suas dívidas, nem que tenha de vender o almoço para pagar o jantar.

Tudo vai bem até Samuels se apaixonar pela dançarina Hortense – é bom lembrar que a intensidade do amor é proporcional à quantidade de brilhantes presenteados. Assim, sem tostão, o rapaz opta por uma solução insólita: encontra um médico maluco que aceita comprar seu corpo para experiências científicas (segundo o doutor, a cabeça de Samuels tem um formato incomum e totalmente desejável). Em 30 dias, ele precisa entregar a própria carcaça para cumprir com o prometido. Não vale a pena continuar contando, sob risco de spoiler.

A coletânea inclui dez histórias que têm a Broadway e adjacências como cenário, um farto material que Hollywood e a própria Broadway se fartaram – ao menos 11 filmes nasceram de suas histórias, como Dama por um Dia (1933), de Frank Capra, e A Barbada do Biruta (1953), com Jerry Lewis e Dean Martin. O conto A Pequena Srta. Marky, presente no volume brasileiro, inspirou o longa Dada em Penhor (1934), que ajudou a sedimentar a carreira de Shirley Temple. E o título do livro nacional, Eles e Elas, é o mesmo de um musical de grande sucesso no palco, que estreou na Broadway em 1950 e inspirou uma versão cinematográfica cinco anos depois, com Frank Sinatra e Marlon Brando como líderes do jogo ilegal. Runyon morreu em 1946. Cremado, teve as cinzas espalhadas sobre Manhattan. Lugar mais apropriado, impossível.

ELES E ELAS
Autor: Damon Runyon
Tradução: Jayme da Costa Pinto
Editora: Carambaia (272 pág., R$ 82,90)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Ubiratan Brasil
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