quarta-feira, 21 de agosto de 2019

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Mito e Utopia

Por Joao Baptista Herkenhoff

Para iniciar esta reflexão cabe distinguir dois vocábulos que só na aparência são sinônimos: mito e utopia.

O mito é um sucedâneo da realidade, que consola o homem daquilo que ele não tem. Esconde a verdade dos fatos. Nasce da fantasia descomprometida. Compensa uma insatisfação vaga, inconsciente.

A utopia, pelo contrário, é a antevisão de um projeto. É a representação daquilo que não existe ainda, mas que poderá existir se o homem lutar para sua concretização. Fundamenta-se na imaginação orientada e organizada. É a consciência antecipadora do amanhã.

O mito ilude o homem e retarda a História. A utopia alimenta o projeto de luta e faz a História.

Foi  com base no pensamento utópico que Niemeyer pôs em arquitetura o seu projeto de uma cidade humana, projeto aniquilado pelas estruturas envolventes, pois é impossível uma cidade humana dentro de uma sociedade fundada no lucro, no consumo, na discriminação, na desigualdade.

A primeira função do pensamento utópico, segundo Pierre Furter, é favorecer a crítica da realidade. Mas não se esgota aí seu fim: a utopia  é também uma forma de ação .

Porque dão seu dinamismo à filosofia política, as utopias – como observou Ernst Bloch – propõem aos homens os meios para proverem seu destino à luz de uma visão global do desenvolvimento histórico.

Frei Fernando de Brito que hoje tem sessenta e sete anos, vive na cidade de Conde, litoral da Bahia, onde realiza trabalhos sociais. Durante o tempo em que sofreu prisão política, ele foi alimentado pelo pensamento utópico, conforme se depreende deste seu depoimento: “O que nos mantém em plena e ininterrupta ação construtiva, o que dá sentido à vida atual, é que hoje e agora construímos  o mundo de amanhã. E, dialeticamente, é esta atividade que faz com que a Esperança  seja um objetivo realizável“.

Para que a utopia seja força progressista, é preciso transformar as aspirações em militância, a esperança em decisão política.

O presente pertence aos pragmáticos. São eles os vitoriosos de hoje. Frequentam as manchetes dos jornais, as chamadas da televisão e as revistas de celebridades. Por este motivo supõem que seu êxito é eterno. Enganam-se. Talvez na próxima geração ninguém nem saiba lhes declinar o nome.

O futuro é dos utopistas. Frei Tito de Alencar Lima, companheiro de Frei Fernando de Brito e Frei Betto, na prisão, está fisicamente morto. Faleceu na França (10 de agosto de 1974). Suas cinzas vieram depois para o Brasil (25 de março de 1983). Seu túmulo, em Fortaleza, é visitado por milhares de pessoas todos os anos. Sua memória jamais perecerá.

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