sábado, 25 de Maio de 2019

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Capital faz descobertas arqueológicas, mas preservação falha ainda é desafio

Um muralha dentro de uma mata de difícil acesso, ossos de um antigo cemitério em pleno centro e trilhos de trem em meio à obras de um shopping. Das áreas periféricas até regiões de intensa urbanização, novas peças arqueológicas têm sido encontradas na cidade de São Paulo. Mas ao mesmo tempo em que descobertas são reveladas, a gestão de peças e sítios arqueológicos enfrenta dificuldades. Dentre os casos mais conhecidos está uma área hoje em ruínas na zona leste.

A maioria dos achados na capital provém de levantamentos arqueológicos realizados por causa de obras de médio e grande porte, exigidos em portaria federal desde 2002. Um levantamento do Estado no Diário Oficial da União identificou, somente no ano passado, ao menos 17 procedimentos do tipo.

Na capital, a determinação também abrange obras de menor porte que estejam em regiões de potencial arqueológico, como a área em torno da Capela dos Aflitos, na Liberdade, região central. Foi lá que, em 2018, foram encontradas ossadas do antigo Cemitério dos Aflitos.

Primeiro cemitério da cidade, o local funcionou de 1775 e 1858 e era voltado especialmente à população mais marginalizada. Junto aos ossos, arqueólogos encontraram adornos de vidro, geralmente utilizados por pessoas escravizadas.

A origem dessas pessoas será investigada em laboratório, explica Lúcia Juliani, fundadora da A Lasca Arqueologia, responsável pelas escavações. Como todo o material foi retirado, o terreno está livre para a obra. Considerando as dimensões do que foi o cemitério, porém, a especialista acredita que haja mais vestígios sob outros imóveis no entorno. A Lasca aguarda ainda autorização federal para iniciar pesquisa em um terreno próximo ao Pátio do Colégio, também no centro, onde foram encontrados pedaços de cerâmica portuguesa.

Outra pesquisa no centro é feita no Brás, junto à obra do Shopping Circuito das Compras SP, no antigo terreno da Feirinha da Madrugada. No local, foram encontrados trilhos, paralelepípedos e outros itens ferroviários.

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), cerca de 12,5 mil pesquisas arqueológicas são feitas no País, das quais mais de 2 mil no Estado de São Paulo, sendo 250 na capital. Por lei, tudo o que é descoberto pertence à União. Na prática, embora parte dos artefatos seja exposta e estudada, a maioria fica guardada.

Paredão na mata

Outro caso é o das estruturas remanescentes da Pedreira do Jaraguá, na zona norte. O acesso não é simples: é preciso tomar uma trilha fechada dentro da aldeia indígena guarani Tekoa Itakupe. No fim do percurso, após passar por nascentes e árvores, é avistado um paredão de pedra, produzido com blocos de quartzo extraídos do próprio local.

Com ao menos seis metros de altura e em formato de U, o muro à primeira vista remete a uma obra de civilização antiga. A origem, no entanto, é outra: foi erguido nos anos 1930 por uma mineradora de quartzo.

“Trata-se da ponta de um iceberg dentro da história da mineração paulista”, explica o arqueólogo Paulo Zanettini, lembrando que os primeiros registros de ouro no Brasil foram feitos nas encostas do Jaraguá.

Em 2016 foi aberto estudo de tombamento do muro, cuja preservação será decidida este mês. “Esse paredão representa uma jornada inteira da região. De 1580 até hoje existe algum tipo de mineração”, explica Paula Nishida Barbosa, diretora do Centro de Arqueologia de São Paulo, ligado à Prefeitura.

Abandono

Por causa do mato alto, o Estado não conseguiu se aproximar há três semanas das ruínas do Sítio Mirim, em Ermelino Matarazzo, na zona leste. A situação mudou após a reportagem procurar a Prefeitura de São Paulo, que atribuiu o problema à chuva. A vegetação aparada, contudo, não é suficiente para resolver a falta de manutenção do espaço, que traz as ruínas de uma casa de cerca de 400 anos – e que estava de pé até décadas atrás.

A última obra de recuperação ocorreu nos anos 1960 e foi feita pelo Iphan. Há uma década, a Prefeitura apresentou um projeto arquitetônico para a área, enquanto um relatório de 2015 delimitou uma zona de atenção para uma ação de resgate de artefatos arqueológicos. Nos dois casos, nada foi feito. “Está completamente abandonado. A noite é perigoso”, diz o agente cultural Edson Lima, de 33 anos, fundador do Sarau Urutu, realizado no entorno das ruínas.

Sobre o apoio do patrimônio arqueológico da cidade, a Prefeitura informou que o Departamento do Patrimônio Histórico realizou estudos de tombamento que “permitem planejar ações e pensar em uma política no campo da arqueologia”.

Artefatos do Rodoanel

Alguns milhares de artefatos arqueológicos foram encontrados durante as obras do Rodoanel na capital e na região metropolitana de São Paulo. Em princípio, parte do acervo deveria ser exposto em um novo museu em Carapicuíba. O imóvel foi erguido há cinco anos, mas nunca abriu e nenhuma instituição se responsabiliza pela situação.

Além da indefinição sobre a responsabilidade, também não foi divulgado quais objetos seriam expostos no local, embora parte esteja na Universidade de São Paulo (USP).

Responsável pela obra, a Dersa diz que já concluiu a participação no projeto, enquanto o Iphan afirma que a companhia também se responsabilizou por fazer o projeto museológico e instalá-lo, o que não ocorreu. A prefeitura de Carapicuíba declara, por sua vez, que reabriria o local por meio de um convênio com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para a implantação de um centro de estudos arqueológicos. A Unifesp diz, no entanto, ter encerrado as negociações.

Potencial arqueológico de SP é enorme

O ambiente urbanizado foi por muito tempo considerado um caso perdido em arqueologia. Argumentava-se que o subsolo estava muito “remexido” e não havia mais nada a fazer. Com o passar do tempo, isso se verificou falso: encontra-se de tudo, desde sítios pré-históricos até vestígios de ocupações humanas mais recentes, cuja importância para se entender o passado é indispensável.

No Brasil, a arqueologia em área urbana é pouco explorada se comparada a países como Inglaterra, França e Japão. Há, contudo, uma tendência de haver mais pesquisas, em especial em São Paulo, por uma questão de amadurecimento acadêmico, administrativo e de gestão. Além disso, órgãos de preservação estão cada vez mais cientes da importância de trabalhos de cunho arqueológico.

A maior parte dos estudos hoje é relacionada a algum tipo de exigência legal. Não é 100% suficiente, mas é um ganho enorme. Basta lembrar que foram escavados, sem acompanhamento arqueológico, alguns dos pontos historicamente mais importantes da cidade para obras do Metrô nos anos 1970. Isso na Praça da Sé, na Liberdade, na frente do Mosteiro São Bento. O caso mais emblemático é do Pátio do Colégio, que só não teve o subsolo totalmente arrasado porque um arqueólogo amador, Anthero Pereira Junior, fez escavações da melhor maneira que pôde.

O potencial arqueológico de São Paulo é enorme. É uma cidade entre dois rios caudalosos – navegáveis, cheios de peixe e que permitiam o contato com o interior -, perto do litoral e com biomas coexistindo. Imagine a quantidade de gente que morava nesse lugar na pré-história. Depois teve a ocupação europeia, com casas rurais e sedes de fazenda por todo lado, e, nos séculos 18 e 19, o aumento da urbanização.

Hoje, a maior parte dos bairros ainda é composta por casas e sobrados, cujas fundações são relativamente rasas, sem exigir grandes escavações. Um caso é a Penha, onde existia uma aldeia tupi e fragmentos de vasos indígenas aparecem nas valetas da rede elétrica. Outro exemplo são os terrenos embaixo das linhas de transmissão, cuja topografia está praticamente intacta: são enormes corredores sem construção e que poderiam ser explorados arqueologicamente.

*É PROFESSOR DO MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (MAE/USP)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Priscila Mengue, Tiago Queiroz e Astolfo Gomes de Mello Araujo*
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