domingo, 21 de julho de 2019

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Cacá Diegues toma posse na ABL e afirma, em seu discurso, sobre o Brasil de hoje: “Há um desejo latente de valorizar a vulgaridade”

Por Assessoria ABL
Foto: Carlito Lima/Facebook

Cacá Diegues discursa ao tomar posse na ABL

O cineasta Carlos (Cacá) Diegues tomou posse hoje, sexta-feira, dia 12 de abril, na Cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL), em solenidade no Salão Nobre do Petit Trianon, na sucessão do Acadêmico e cineasta Nelson Pereira dos Santos (falecido no dia 21 de abril do ano passado). O novo Acadêmico foi eleito no dia 30 de agosto do ano passado.

Cacá Diegues foi recebido, em nome da ABL, pelo Acadêmico, poeta e tradutor Geraldo Carneiro, que destacou: “Carlos José Fontes Diegues – o nosso Cacá – já nasceu assinalado pela brasilidade. Tudo o que faz, como artista e intelectual, traz a marca do Brasil. Em resposta aos tempos negros da ditadura militar, Cacá Diegues fez de seu cinema um lugar de celebração da vida e da cultura brasileira. Desde os anos 60, Carlos Diegues se distingue também como jornalista, intelectual e pensador. Mas parece que seu destino é mesmo o de fundir o cinema e a poesia. Por mais que a realidade seja sua parceira, seu tempo é sempre o tempo da utopia”.

Em seu discurso de posse, o novo Acadêmico afirmou: “O Cinema Novo brasileiro não foi, senão, a chegada tardia do modernismo ao nosso cinema. Era preciso produzir um cinema para a nação, mas também inventar uma nação no cinema. Nossas melhores cabeças do século XX sonharam com esse projeto de Brasil. Agora, os tempos são outros. Temos sofrido um vendaval de paixões polarizadas e histéricas. Há um desejo latente de valorizar a vulgaridade e o homem dito “normal”, aquele que só reproduz os piores valores de nossa ignorância, sem sonhos nem fantasias, num horizonte sombrio e sem surpresas. A criação, hoje, corre o risco de se tornar prisioneira dessa consagração da platitude, onde o único valor reconhecido e respeitado é o da morte elevada a uma desimportância consagradora”.

 

“O Acadêmico Carlos Diegues é um homem de cultura e sensibilidade. Capturou parte essencial do imaginário brasileiro com seu espírito irônico e plural. Seu último filme, O grande circo místico, constitui um percurso de rara beleza: trata-se de uma espécie de resumo de toda a sua obra. E, também, a sua intimidade com a poesia. A Academia Brasileira de Letras rejubila-se com a entrada de Carlos Diegues e reafirma sua aliança com a alta qualidade do cinema brasileiro”, disse o Presidente da ABL, Marco Lucchesi.

 

Após o discurso, o Presidente da ABL convidou o Acadêmico Merval Pereira para fazer a aposição do colar; o Acadêmico Arnaldo Niskier (decano presente) para entregar a espada; e o Acadêmico Zuenir Ventura para entregar o diploma. O Presidente, então, declarou empossado o novo Acadêmico. Os ocupantes anteriores da cadeira 7, além de Nelson Pereira dos Santos, foram: Valentim Magalhães (fundador) – que escolheu como patrono Castro Alves –, Euclides da Cunha, Afrânio Peixoto, Afonso Pena Júnior, Hermes Lima, Pontes de Miranda, Dinah Silveira de Queiroz e Sergio Corrêa da Costa.

O novo acadêmico

Cacá nasceu em Maceió, Alagoas, no dia 19 de maio de 1940, filho do antropólogo Manuel Diegues Jr. e de Zaira Fontes Diegues. Cinéfilo desde a adolescência, também era poeta e trabalhava como jornalista. Foi eleito para a Cadeira 7 da ABL, no dia 30 de agosto deste ano, na sucessão do Acadêmico e cineasta Nelson Pereira dos Santos.

Em 1958, aos 18 nos de idade, teve seus poemas publicados no Jornal do Brasil pelo ensaísta e crítico Mario Faustino, que o apresentou como uma revelação na poesia brasileira. Por essa mesma época, participou ativamente do movimento cineclubista no Rio de Janeiro, quando se integrou à nova geração de cineastas que buscava registrar a verdadeira imagem do Brasil, num movimento que seria conhecido como Cinema Novo, sob a liderança de Nelson Pereira dos Santos.

Depois de realizar alguns curta metragens, Cacá estreou profissionalmente em 1962, dirigindo um dos episódios do filme “Cinco vezes Favela, produzido pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE – um filme que se tornaria uma das obras inaugurais do Cinema Novo.

Ao longo de sua carreira de cineasta, realizou mais de 20 filmes de longa-metragem, entre os quais “Ganga Zumba” (1964), “Os herdeiros” (1969), “Joanna Francesa” (1973), “Xica da Silva” (1976), “Chuvas de verão” (1978), “Bye Bye Brasil” (1980), “Quilombo” (1984), “Um trem para as estrelas” (1987), “Tieta do Agreste” (1995), “Orfeu” (1999), “Deus é brasileiro” (2003), “O maior amor do mundo” (2005) e agora “O grande circo místico” (2018), inspirado na obra do poeta Jorge de Lima. Todos esses filmes foram lançados comercialmente em diferentes países do mundo, nas salas de cinema e na televisão, além de sua presença e de prêmios nos festivais internacionais mais importantes, como Cannes, Veneza, Berlim, San Sebastian, Toronto, Nova York, Mar del Plata e outros.

O novo Acadêmico publicou alguns livros, nem sempre sobre cinema, tendo começado com “Ideias e Imagens”, de 1988. Seus livros mais recentes são “Vida de Cinema”, mais de 600 páginas sobre o Cinema Novo, e “Todo Domingo”, uma coletânea de seus textos publicados semanalmente no jornal Globo. Recebeu homenagens de diversas naturezas, no Brasil e no mundo, entre as quais o titulo de Officier de l’Ordre des Arts et des Lettres, do governo francês; o Prix de la Célebration du Centenaire du Cinématographe, do Instituto Lumière de Lyon; o Golden Reel Award, do Grupo HBO; o Lifetime Achievement Award, concedido pela cidade de Chicago; o Prêmio Roberto Rosselini, pelo conjunto de sua obra, dado pela Associação Nacional dos Críticos de Cinema da Itália; eleito Personalidade do Cinema Latino-Americano,  pela Associação Internacional de Críticos (Fipresci); Ordem do Mérito Cultural de Portugal; Comendador da Ordem de Rio Branco, do governo brasileiro; Comendador da Ordem do Mérito Cultural do Brasil; e outros. Casado com a produtora de cinema Renata Magalhães, Cacá tem um filho e três filhas.

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