sábado, 25 de Maio de 2019

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1º de Abril de 1964

Por Carlito Lima

Acordei-me com o som cadenciado e harmonioso da alvorada tocada pelo corneteiro do quartel. Eu era tenente do Exército Brasileiro servia na 2ª Companhia de Guardas, tropa de elite do IV Exército altamente treinada contra distúrbios e guerrilha urbana, sediada no Centro do Recife. Uma luminosa manhã acordava a bela histórica mauriciana. A Companhia estava de prontidão há mais de uma semana, sem algum militar sair do quartel devido aos acontecimentos políticos da época. O presidente João Goulart acendia uma vela a Deus outra ao Diabo (disse Julião). Um processo de desgaste político do presidente espalhou-se sobre a Nação. O que sustentava Jango era um suposto esquema militar, inclusive o General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, jurou de pés juntos a Arraes que defenderia a legalidade. Quando a conjuntura mudou, ele também mudou. A situação ficou mais nebulosa depois do grande comício das reformas em frente ao Ministério do Exército, dia 13 de março, com muitos discursos provocativos às Forças Armadas. Jango estava cutucando a onça com vara curta. Espalhava-se que a intensão de Jango era transformar o Brasil numa República Socialista Sindicalista..

Naquela bela manhã logo depois da formatura matinal, o capitão Luís Henrique Maia reuniu os cinco tenentes comandantes de pelotão, fez uma preleção. Chegaram informações que a tropa do general Mourão Filho de Minas Gerais estava a caminho do Rio de Janeiro para levantar o I Exército, e depor o presidente João Goulart. O objetivo da intervenção militar era restabelecer a ordem no país, garantir a eleição para presidente em 1965. Uma intervenção militar semelhante ao que o General Lott fez para garantir a posse de Juscelino em 1955. O capitão Maia mandou preparar o pelotão para o enfrentamento, entrar em combate urbano a qualquer momento. Pois as informações era que tropas do Estado do Governador Miguel Arraes estavam altamente bem armadas e bem preparadas por guerrilheiros cubanos.

Dirigi-me ao alojamento de meu pelotão, com a cabeça a mil, sabia que haveria uma confrontação naquelas próximas horas. Ainda estava em divagações quando o comandante me chamou e deu as primeiras ordens: Dissolver uma manifestação no Sindicado dos Bancários, perto do quartel. Coloquei o pelotão em forma, passei em revista o armamento e equipamento, falei para os soldados sobre a missão, deixei bem esclarecido: atirar só com minha ordem. Formação em cunha o pelotão tomou a Rua do Príncipe em marcha. Enquanto aqueles 44 soldados bem armados e equipados avançavam pela rua arborizada, ouvi vaias e palmas, era o povo dividido. Enquanto o pelotão se aproximava do objetivo, eu continha a emoção, pensando nas informações que os sindicalistas, os camponeses, os homens de Arraes, tinham sido treinados em guerrilha e possuíam armamento de primeira linha. Assim que avistamos ao longe a multidão em torno de 400 pessoas, tive que controlar um sargento, meu auxiliar, que me pedia para dar um tiro a fim de dispersar a multidão. Mandei o sargento calar a boca, o comando era exclusivo meu. Não queria que houvesse uma reação por parte dos manifestantes e terminar numa carnificina de balas dos dois lados. Tentaria um diálogo, se possível. O pelotão se aproximou, dava para ver as fisionomias dos manifestantes, o sargento insistindo, me pedindo para atirar; eu gritei, NÃO!. Dei voz de comando ao pelotão “Acelerado marche!”. De repente tive a maior alegria, o maior alívio de minha vida ao perceber a multidão dispersando-se em todas as direções. Invadimos o sindicato, ficaram apenas três manifestantes. Pedi para eles saírem ou teria que levá-los presos, era a ordem. Apenas um barbudo, corajoso, magro, me encarou: “Só saio morto ou preso”. Disse-lhe “Então esteja preso, não vou lhe matar”. Mandei lacrar os móveis, deixei cinco soldados guarnecendo o sindicato, retornei com o resto do pelotão para o quartel da 2ª Cia de Guardas.

O pelotão continuava marchando em duas colunas, e o barbudo, sindicalista, andando no meio. Encostei-me e inventei na hora em seu ouvido: “Estão matando tudo que é comunista, como Fidel Castro fez em Cuba no Paredón, ao chegar ao quartel você vai ser fuzilado. Vou lhe dar uma chance, na próxima esquina lhe empurro e você sai correndo!” Perto da esquina, o barbudo, olhava para trás encarando-me com olhar suplicante. Na esquina, puxei-o pelo braço e o empurrei, ele deu um pique, se escafedeu na primeira rua (ainda hoje deve estar correndo).

Durante o percurso de retorno passamos pela faculdade de Engenharia onde alguns estudantes gritavam provocando Viva Arraes! O sargento me incitava a dissolver os estudantes. Eu neguei, confesso, pensando em meu irmão Lelé poderia estar entre os estudantes (e estava, soube depois).  

No quartel fiz um relatório verbal, omiti os estudantes. Nesse dia ainda cumpri outras missões patrulhando o Recife Velho. À noite, a televisão chamava de Intervenção Militar. Não havia aparecido o termo Revolução, nem Ditadura. Nenhum cientista político, nenhum futurista, seria capaz de imaginar que aquele 1º de abril seria o primeiro dia de Governo Militar ou Ditadura durante os próximos 21 anos. Só sei que foi assim.

– Quem estiver interessado em ler um relato sério, sem rancor ou demagogia, como disse Cacá Diegues, leiam meu livro CONFISSÕES DE UM CAPITÃO, Nos melhores sebos do Brasil.

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