sábado, 20 de Abril de 2019

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Truffaut, Woody Allen, Bergman? não, Domingos

Nos últimos anos, Domingos Oliveira dava a impressão de estar cada vez mais fragilizado. Por causa da doença, falava com dificuldade. Nunca desistiu de atuar e dirigir. Morreu provavelmente como gostaria – trabalhando. Estava no computador, no sábado, 23. Sentiu-se mal, uma ambulância foi chamada. Não adiantou. Tinha 82 anos.

Domingos foi sempre um corpo estranho, um caso à parte no cinema brasileiro. Foi assistente de Joaquim Pedro em dois curtas, O Poeta do Castelo e Couro de Gato. Quando estreou, em 1966, o Cinema Novo, em plena ditadura, dava as cartas. Cinema engajado, político. E veio Domingos com Todas as Mulheres do Mundo, sua carta de amor para Leila Diniz. Paulo e Maria Alice, a música de Gabriel Fauré, a câmera de Mário Carneiro. Paulo ama Maria Alice, mas não consegue desistir de todas as mulheres. Comete uma falseta. Coloca o amor em risco.

Ele irrompeu no cinema brasileiro com fama de alienado. Ora, falar de amor em pleno País da estética da fome. Domingos persistiu – Edu, Coração de Ouro, As Duas Faces da Moeda. Outra falseta – na arte, É Simonal. E voltou ao seu intimismo. A Culpa, As Deliciosas Traições de Amor, Teu Tua, Vida, Vida. Após um hiato de 20 anos, surgiu Amores. Domingos, nosso romântico que desconfiava do romantismo, era chamado de François Truffaut brasileiro. Não era, mas o marketing funcionava. Justamente a partir de Amores, de 1997, passou a ser comparado a Woody Allen. Também não era, mas, como a de Woody, sua produção regularizou-se. Um filme por ano, a cada dois anos. Filmes baratos, muitas ou algumas vezes alimentados por sua produção dramatúrgica, pois Domingos fazia teatro, cinema e, numa fase, também TV.

Ele escrevia, filmava. Filmes baratos que funcionavam muito bem para seu estilo. Separações, Feminices, Carreiras, Juventude, Todo Mundo Tem Problemas Sexuais. Domingos repetia-se? Talvez. Mas aí veio uma outra fase – Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, Infância, Barata Ribeiro, 716. Ingmar Bergman? Não. Foi sempre Domingos. Leve mesmo quando era profundo, e sempre apaixonado. Pelas mulheres, pelos amigos, pela vida, pelo cinema. Um (grande) artista brasileiro.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Luiz Carlos Merten
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