sábado, 20 de Abril de 2019

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A festa de Pafinha

Por Carlito Lima

Ninguém sabia seu nome verdadeiro, que dirá sobrenome. Os amigos, as colegas de trabalho, a conheciam como Pafinha. Moça bonita, pele clara, cabelos escuros, olhos vivos, meio estrábicos. A boca rosada escancarava um permanente sorriso. Esbanjava beleza e graça de quem é jovem e feliz. Era uma líder entre as companheiras de trabalho. Todos amavam aquela moleca sapeca. Pafinha trabalhava muito, fazia vida na Boate Tabariz. Tornou-se a rapariga predileta do dono do cabaré e da noite da cidade, o popular Mossoró.

Pafinha nasceu em Pariconha, sertão das Alagoas, sua família passava fome. Até 15 anos só havia conhecido miséria e pobreza. Um cabo de polícia, casado, encantou-se com a beleza da menina. Estuprou-a. Para amenizar a situação com os pais da moça, prometeu casa e amigação e levou a menina para a capital. Largou Pafinha na zona do bairro boêmio de Jaraguá.

Tornar-se prostituta foi uma grande transformação. Cursou a universidade da vida. Era a mais querida do cabaré. Tratava os frequentadores da boate pelo nome, podia ser delegado, senador, coronel ou capitão. Tinha intimidade com qualquer autoridade, sem cerimônia. Pafinha possuía fortaleza e valentia atávicas, gabava ser sobrinha-neta de Maria Bonita. Intransigente em seus princípios sexuais, não admitia virar o disco, ou seja, fazer sexo anal.

Certa noite, um jovem boêmio, acadêmico, bonito, família abastada, levou Pafinha para o quarto. Depois de alguns carinhos, exigiu que ela virasse. Ela recusou. O jovem empurrou-a, ela caiu de bruços, na cama. Pafinha, estatelada, enfiou a mão no criado-mudo, tirou uma faca da gaveta, levantou-se, avançou, deu uma estocada em direção ao jovem. Ele protegeu-se com o braço.  Levaram o rapaz para o Pronto Socorro onde levou 20 pontos.  Mossoró teve que esconder Pafinha, por uns tempos, num sítio de coqueiros que ele tinha pras bandas da praia de Jacarecica

Na época, nas tardes de domingo, havia um grande bingo na cidade, a renda era fonte de recurso para construção do estádio de futebol Trapichão. Todo domingo pela tarde Mossoró levava algumas raparigas ao bingo, tomava uma mesa reservada, pedia cerveja e dava uma cartela para cada uma marcar com feijão o número cantado. Certo domingo, Pafinha deu maior sorte, bateu o bingo, ganhou um carro importado, IMPALA. Um agiota comprou o carro na hora. Dinheiro que a menina jamais pensou possuir.

Na mesma noite ela iniciou uma festa em Jaraguá. Todos queriam abraçá-la, pedir dinheiro emprestado. A festa durou oito dias e oito noites. Pafinha não tinha noção de economia, seu coração solidário e generoso emprestou e deu muito dinheiro. Fez festa na ZBN, Zona do Baixo Meretrício, para os estivadores, pescadores, catraieiros, os amigos das horas vagas de mergulho no mar que não frequentavam os cabarés luxuosos dos casarões de Jaraguá.

Uma semana de alegria e diversão durou a festa da Pafinha. Só acabou quando ela percebeu não ter mais um centavo do dinheiro do bingo. Terminou o dinheiro de Pafinha, ela continuou com sua vida normal de prostituta.
Durante a tarde, quando se acordava, Pafinha vestia um maiô, descia à praia e mergulhava no mar da Avenida da Paz. Frequentava uma birosca, gostava de ouvir histórias de Seu Rodolfo, velho pescador, sobre peixes enormes, Yemanjá, sereias, botos salvando vidas, empurrando afogados à beira-mar. 

Pafinha nadava mal, boiava, mergulhava, até o pôr-do-sol avermelhar a enseada. A sertaneja sentia-se feliz no imenso oceano; dizia estar ali seu destino.  Quando escurecia retornava a ser estrela, a reinar no salão de dança da Boate Tabariz.
Contam os amigos e a lenda que ela desapareceu num banho de mar, seu corpo nunca foi encontrado. Alguns dizem convictos que Yemanjá veio buscá-la e transformou-a em um boto bonito que vagueia no mar salvando afogados. 

Há tempos não acontece afogamento no mar da Avenida da Paz. Quando algum banhista mais afoito levanta os braços se afogando, aparece de repente um boto mergulhando, empurrando, salvando o afogado, deixando-o na marola, em seguida mergulha de volta, retorna ao fundo do mar, se juntando ao cardume de botos que vivem na enseada.

Durante as conversas noturnas nos bares, no mercado, nos cabarés, na zona da boemia, os marinheiros, pescadores, prostitutas contam histórias de salvamentos inexplicáveis. Atribuem esses milagres à Pafinha. Depois que desapareceu no mar tornou-se santa protetora dos boêmios, dos bêbados, das prostitutas e dos afogados de Jaraguá.

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