domingo, 26 de Maio de 2019

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Única mulher nordestina nos palcos da MPB, Elba lembra de suas origens no Rio

Elba não deixou por menos. Antes de terminar o show que lançou um dos seus discos mais elogiados em muitos anos, O Ouro do Pó da Estrada, ela usou alguns segundos para desabafar algo que parecia ter os críticos como alvo. “Agora, dizem que eu faço um disco estupendo, catártico, ganho cinco estrelas. Puxa, que bom que perceberam isso depois de 40 anos.”

Elba tem razão. A injustiça com essa cantora é grande há alguns bons anos, mesmo em seu território nordestino. E por algumas razões. Elba tem uma forma de escolher repertórios ousada, investigando lados B, sem se amedrontar. Mulher aguerrida de Conceição, na Paraíba, nascida há 67 anos em uma família classe média, já foi chamada de Madonna do Agreste, Tina Turner do Sertão e Rita Lee da Caatinga. Chegar até o Sesc Pinheiros com o ouro que colheu em sua estrada, em um show vigoroso e uma presença de palco impecável, fez pensar. Elba tem razão pelo que disse – ela é sim injustiçada por uma classe que demora a perceber sua importância descolando-a de Banho de Cheiro – e pelo que não disse: ela é hoje a única mulher nordestina de abrangência territorial a subir em um palco. Não sobrou outra, nem da sua geração (a chamada MPB clássica) nem da nova cena. Só Elba faz o maracatu se misturar com baiões, xotes, xaxados, rock and roll e guitarras distorcidas com a verdade que Dominguinhos lhe ensinou e a legitimidade que ganhou nas ruas. Só ela tem o olhar que enxerga a plateia toda e os movimentos que passeiam pelo palco treinados por anos de teatro. E por que demoramos tanto para perceber isso?

Elba canta neste sábado, 23, pela primeira vez em um carnaval de São Paulo. Seu bloco Frevo Mulher sai às 13h da frente do Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera. Shows do Ouro do Pó da Estrada não têm previsão de retorno. Com sorte, ela deve fazer mais alguma data até o fim do semestre.

Os primeiros anos de sua história parecem estar ali ainda. Logo cedo, a menina de Conceição queria ser instrumentista e se mandou para Campina Grande. Ao lado de outras garotas, extrovertida de chamar atenção, se meteu a tocar bateria. Acabou formando a banda de rock As Brasas. “Me lembro que o repertório era formado por músicas da Jovem Guarda, Beatles, rock and roll, A Hard Days Night.”

Mas o teatro também chegou com força enquanto cursava o ensino superior a pedido e pressões do pai, já que todos os outros irmãos estavam na faculdade. Elba ingressou no curso de Economia e Sociologia na Universidade Federal da Paraíba. Uma professora criava jograis na sala de aula e, dali para as peças, foi um rápido caminho. Elba foi se enturmando e logo passou a organizar eventos culturais entre os estudantes. “Levei Bibi Ferreira, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado para os estudantes de Campina.”
O Quinteto Violado apareceu em sua vida como uma figura alada. Depois de verem a moça em ação, a chamaram para seguir com eles para o Sudeste, Rio de Janeiro, 1974. E aí, o destino começou a agir.

Elba tinha 19 anos e nenhuma ideia do que seria de sua vida daquele instante em diante. Depois de fazer o último show com o Quinteto Violado no Rio, ela já estava decidida a não voltar a sua terra. Já era tarde para conviver com o machismo doméstico da época, com as cobranças para ser algo que não desejava. Sabia que iria ficar no Rio, mas não sabia onde.

“Eu me lembro que, quando estava me despedindo do Quinteto, um casal de amigos esperava ali para se despedir deles também. Fiquei por perto e o casal veio falar comigo sobre minha participação no show.” Eles perguntaram onde Elba morava, e ela disse que não sabia o que iria fazer, só que iria ficar. “Eles me perguntaram se eu conhecia alguém no Rio, e eu disse que não. Então me perguntaram onde eu iria morar, e eu disse que não sabia. Foi aí que me chamaram para ir para a casa deles. Haviam acabado de se casar e viviam em uma casa modesta no topo de Santa Teresa.”

Ainda assim, Elba seguia sem emprego, querendo ser artista. Voltou a se envolver com o teatro, mesmo sem ganhar muito, e passou noites com fome. “Eu cheguei a pedir dinheiro para amigos, pessoas que me ajudavam. Lembro de pedir uma moeda para pegar um ônibus e voltar para casa. Em um desses dias, uma pessoa me entregou um bolo de dinheiro.”

Seus dias no Baixo Leblon foram de muitas descobertas, com uma turma nova que conhecia ali, mas de poucos recursos. “Muitas vezes eu dormia na praia por não poder voltar para a casa de Santa Teresa.”

Quando conseguiu ser escalada para o musical Ópera do Malandro, no Teatro Ginástico, vivendo Lúcia, uma prostituta da Lapa da década de 1940, Elba sentiu que as coisas poderiam ser melhores. “Fui dividir um apartamento com uma amiga na Rua Barão da Torre e aprendi que ter amigos na praça é melhor do que dinheiro na Caixa.” A turma que chegava com ela ao Sul Maravilha não a deixava se sentir só. Alceu Valença, Belchior, Fagner, Geraldo Azevedo (lembrado com carinho) e o primo distante, Zé Ramalho. A música começou a chegar e a Elba que se vê nos palcos de hoje consegue levar tudo isso consigo.

ELBA RAMALHO
Bloco Frevo Mulher.
Sábado (23), às 13h. Concentração em frente ao Monumento às Bandeiras. Grátis
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Julio Maria
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