quarta-feira, 18 de setembro de 2019

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‘Echo’, trabalho de Richard Serra, será inaugurado sábado no IMS

Produzida em 2016 numa aciaria de Châteauneuf, França, a gigantesca escultura Echo, do norte-americano Richard Serra, que será inaugurada neste sábado, no Instituto Moreira Salles (IMS), demorou três anos para chegar a São Paulo. Pudera: com 18,6 metros de altura e composta por duas placas de aço, cada uma pesando mais de 70 toneladas, Echo viajou de caminhão da França para a Alemanha, em 2017, onde recebeu ajustes técnicos, depois saiu de Mannheim em direção ao porto de Antuérpia, na Bélgica, chegando ao porto de Santos em junho do mesmo ano. Echo, devido ao peso, subiu a serra em direção a São Paulo em ritmo de tartaruga. Será a primeira obra de Richard Serra aberta permanentemente à visitação pública na América Latina.

Presente da família Moreira Salles ao IMS paulista, Echo celebra a relação de amizade de Serra com seus integrantes, em particular com o banqueiro Pedro Moreira Salles, graças ao qual foi realizada em 2014 uma antológica mostra de desenhos do artista na sede do IMS, na Gávea, Rio. “A intervenção de Serra na casa da Gávea foi importante para a recuperação do espaço original”, diz o superintendente do IMS, Flávio Pinheiro, lembrando que o escultor, ao avaliar as alterações feitas na arquitetura da casa, sugeriu a derrubada de paredes internas para facilitar a circulação.

Consciente da relação que suas obras estabelecem com o espaço público, Serra passou a se preocupar ainda mais com as esculturas depois dos incidentes que envolveram a presença de algumas delas em lugares de grande circulação. O mais lembrado é o da escultura Tilted Arc, um muro circular de aço com mais de três metros de altura, concebida em 1981 e destruída em 1989 por ordem de um juiz. Ela cortava a Federal Plaza em Nova York antes que um abaixo-assinado circulasse com 1.300 nomes exigindo sua remoção, inclusive de críticos – uma crítica do New York Times, Grace Glueck, chegou a classificar a obra de “uma das mais feias esculturas de Nova York”. Outro crítico, do mesmo jornal, Michael Berenson, discordou. Mais polêmicas viriam.

O fato é que muitas obras-primas na história da arte, antes de Tilted Arc, despertaram a ira de conservadores e provocaram controvérsia. Para o público não familiarizado com arte contemporânea, Echo provavelmente não passa de duas chapas de aço que sobem em direção ao céu e encontram os visitantes do IMS no quinto andar do prédio. Mas, para Richard Serra, que faz esculturas site-specific, ou seja, pensando no lugar específico onde serão instaladas, suas obras podem ser tudo, menos monumentos de violenta carga ideológica – estátuas de discutíveis heróis e mártires – para impressionar espectadores incautos.

Quando a escultura Sight Point (1971) foi instalada em frente ao Museu Stedelijk, em Amsterdã, após ser rejeitada em seu local de origem, o câmpus da Wesleyan University em Connecticut, Serra concordou ainda que contrariado: “De modo geral oferecem a você lugares que estão carregados de conotações ideológicas, de parques a edifícios corporativos, e é muito difícil subverter esses contexto”. Isso explica, segundo Serra, a profusão de péssimas obras e edificações na Sexta Avenida de Nova York. No IMS, ao contrário, Serra encontrou um contexto ideal: um centro cultural com grande circulação e ao mesmo tempo uma pequena e aconchegante praça interna. Seu Echo não é uma obra invasiva ou inapropriada, mas a escultura de um artista urbano que trabalha com materiais industriais dentro de uma tradição minimalista.

Serra pode, eventualmente, intimidar pelas grandes dimensões de suas obras, mas jamais será visto com indiferença. Já disse e repete que a função da arte “não é a de agradar”, concordando quando alguém evoca o caráter pouco democrático da manifestação artística. Um acadêmico chegou a escrever, na época em que uma escultura sua foi encomendada pela Universidade Yale, que “as peças de Serra são tão comunitárias como as paredes de um Gulag”. O sangue de Serra, filho de espanhol com uma descendente de judeus russos, ferveu. Já chegaram até a escrever numa de suas gigantescas esculturas “Mate Serra!”, como se ele fosse um ditador, não escultor. Há feministas que julgam, inclusive, suas obras (One Ton Prop, em especial) pobres metáforas priápicas, peças de um machista fálico com pouca sensibilidade – como se Serra não tivesse intitulado obras com nomes de poetas (Fernando Pessoa), cineastas (Fassbinder) e críticos (David Sylvester).

A ligação com esses nomes, ele garante, é tangencial. Não se deve ver a obra pensando nos homenageados. A escultura de Pessoa só foi assim nomeada porque na época Serra estava lendo O Livro do Desassossego. O alemão Fassbinder é evocado por sua militância política em favor dos despossuídos. A atmosfera na casa da família Serra era a de uma reunião sindical em que seus membros mantinham posições antagônicas – o irmão Tony, um radical, apoiava os Panteras Negras; Richard, um homem da velha esquerda, era mais ponderado. Brigavam como cão e gato.

Serra não faz muitas concessões para agradar. Falou mal da arquitetura de Frank Gehry, autor do Museu Guggenheim de Bilbao, no qual foi instalado um conjunto de oito esculturas suas de grande porte, The Matter of Time (2005), que concorre em escala épica com o extravagante prédio do canadense. Expoente de uma geração de minimalistas, que já recebeu o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, Serra foi chamado na época pelo crítico Robert Hughes “o maior escultor vivo”. E também o mais caro: nenhuma escultura do artista americano custa menos de US$ 1 milhão.

RICHARD SERRA
IMS. Av. Paulista, 2.424, tel. 2842-9120. 3ª a dom., 10h/20h (5ª, 10h/22h). Sáb. (23), 11h, inauguração e debate sobre Echo
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Antonio Gonçalves Filho
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