sábado, 20 de Abril de 2019

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Diretor mostra em Berlim ‘Adeus à Noite’ sobre avó em busca do neto

Um dos melhores, senão o melhor filme estreado em São Paulo neste começo de ano é Meu Querido Filho, do tunisiano Mohamed Ben Attia. A história do pai que segue a trilha do filho que desapareceu no mundo islâmico, para fazer a Jihad. O francês André Techiné participa da competição com Adeus à Noite, o que não deixa de ser um Meu Querido Neto. Catherine Deneuve, a atriz fetiche do diretor, faz a avó que descobre que o neto lhe mentiu. Disse que ia emigrar para o Canadá, mas, na verdade, está indo para a Síria. E, para pagar as despesas, o garoto roubou seu dinheiro, falsificando a assinatura da avó em cheques desviados de sua escrivaninha.

Durante toda a sua carreira, Techiné foi sempre o cineasta da juventude. O tempo passou e ele continua interessado nos erros, nas indecisões e nas paixões dos jovens, mas mudou o foco. O garoto está ali, com a namorada que o recrutou para a Jihad e o elo de ambos com a organização terrorista. Mas o foco é a avó, o olhar ferido, a boca amarga de Catherine Deneuve. O filme segue seus esforços para tentar convencer, demover o neto. Deneuve não é mais a bela da tarde, mas aquela massa de cabelos, não dourados, mas de um castanho muito claro, quase loiro, certamente não perdeu sua força como fetiche. Tanto a estrela como seu diretor foram veementes. Fizeram o filme paras discutir um relevante problema contemporâneo. Para tentar entender, mais que colocar respostas claras. E, sobretudo, ambos, Deneuve e Techiné, filmam contra o preconceito. “Não podemos demonizar o Islã. Isso gera represálias, mais violência.”

Cronologicamente, o festival já passou da metade e se encaminha para o final. Esta quarta, 13, é a sétima da competição de dez dias. Uma competição irregular, alguns bons filmes e outros, talvez a maioria, ruins, mas ruins de fato. O festival vem de sofrer uma defecção. Zhang Yimou retirou seu longa One Second da competição. A Berlinale alegou “problemas técnicos”, mas se trata, obviamente, de um eufemismo. One Second trata de um tema ainda tabu na China – a Revolução Cultural do (ex)camarada Mao. Zhang Yimou teria saltado uma etapa e pulado o documento final que lhe permitiria viajar com o filme. Censura!

Tem havido uma expressiva participação de filmes brasileiros e latinos nas seções paralelas. No atual estado das coisas no Brasil, filmes como Chão, de Camila Freitas, e A Rosa Azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, os dois no Forum, não poderiam ser mais contra a corrente. Chão expõe o ponto de vista do MST e a indagação metafísica de A Rosa Azul, com seu personagem (gay) que busca a transcendência e a encontra no ânus – sim, você leu direito -, é mais que uma provocação. As cenas de sexo homo são explícitas, mas não vulgares. Evocam um tema caro a Walter Hugo Khouri, um dos grandes do cinema brasileiro – a busca da ascese por meio da degradação do sexo. São filmes que vão provocar barulho, e ainda nem chegou o Marighella de Wagner Moura, sobre o guerrilheiro que combateu a ditadura.

Entre os latinos, um destaque é Monos, do colombiano Alejandro Landes, que cria uma metáfora para expressar a verdadeira guerra civil que divide o país há 60 anos. Um grupo de jovens passa por um duro processo de treinamento militar. Se fossem só homens, seria um Clube da Luta na Selva, mas a afirmação da força e da virilidade ultrapassa gêneros e envolve também as mulheres. É um filme brutalmente físico. Na Berlinale já adquiriu status de cult, sendo possível ligar o longa de Landes ao concorrente italiano ao Urso de Ouro, que, por sinal, é bom.

La Paranza dei Bambini/Piranhas, de Claudio Giovannesi, baseado no romance de Roberto Saviani é sobre grupo de jovens – média de 15 anos – que pega em armas para se firmar no meio do crime. E ainda nem falamos de Charlotte Rampling. Ela recebe amanhã, quinta, 14, um Urso de Ouro especial, por sua carreira. Hoje, terá um encontro com o público, após a exibição do documentário The Look, que disseca o olhar da atriz como ferramenta para a verdade emocional com que Charlotte gosta de impregnar suas personagens complexas.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Luiz Carlos Merten, enviado especial
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