quinta-feira, 25 de Abril de 2019

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Marcio Abreu e Galpão celebram nova parceria em ‘Outros’

Para uma companhia habituada a reunir em ruas e praças um público de duas mil pessoas em seus espetáculos, o novo trabalho do Grupo Galpão começou de forma mais intimista: um ator convidava um passante para um café e uma conversa; uma atriz, também na rua, se oferecia para passar a roupa das pessoas.

Dessas experiências nasceu Outros, espetáculo que estreia nesta sexta-feira, 25, no Sesc Bom Retiro, em São Paulo, e celebra a segunda parceria do grupo mineiro com o carioca Marcio Abreu, diretor da companhia brasileira. A primeira, Nós, que passou por aqui em 2016, é marca inconteste de um trabalho de inquieta renovação na forma e na linguagem do Galpão.

Fundado em 1982, em Belo Horizonte, o grupo precisa ser considerado na perspectiva brasileira de outras companhias com mais de 25, 30 anos de atividades. Apaixonados por clássicos e pelo trabalho de mestres como Grotowski e Peter Brook, os atores do Galpão construíram trajetória junto ao teatro popular, do palhaço ao picadeiro. Impossível esquecer de Romeu e Julieta, que ganhou o palco do Globe Theatre, em Londres, ou Os Gigantes da Montanha, de Luigi Pirandello, ambas encenadas por Gabriel Villela.

Apesar de estar no Sudeste, o grupo é desviante do modelo de criação dos grupos paulistanos – que nascem, crescem e morrem na academia. “A gente sempre foi inquieto na hora de criar. A vontade de descobrir formas diferentes de fazer faz parte do grupo”, conta Teuda Bara que, aos 77 anos, se recupera de uma recente cirurgia no joelho.

Prova desta renovação se deu em Nós. Teuda relembra que o convite a Abreu surgiu da atração que o Galpão tem pelos espetáculos do diretor. “Assistimos às últimas peças e queríamos viver algo semelhante.” Na entrevista, por telefone, Teuda gargalha ao concluir que o convite seria o começo de uma maratona inesperada e muita intensa. “Ainda bem que o Marcinho tem paciência com a gente”, brinca.

A doçura com que Teuda descreve o trabalho do Galpão é substituída por uma ferocidade singular da atriz no palco. Em Nós, os atores preparavam uma sopa para público e Teuda ficava no centro da mesa, responsável por fatiar os legumes.

Antes que ela terminasse sua parte, surgia um conflito entre o grupo e a atriz.
No Brasil de 2016, a peça se inseria no debate político ao considerar que a atriz não servia mais para o posto e deveria, portanto, abandonar a companhia. Fora do palco, os homens da casa passaram a servir a refeição para uma plateia perplexa.

“Eu era jogada no chão e eles me batiam”, conta Teuda. “Depois da operação, tivemos que arrumar outro jeito de fazer a cena, mas diminuir não era uma opção.”

A ideia da nova peça surgiu com ações nas ruas de Belo Horizonte. Durante a concepção de Outros, o diretor conduziu experiências em que cada ator compartilhava uma atividade de foro íntimo com algum passante. “Um dos atores preparou um café da manhã e sentava com uma pessoa para conversar. Uma atriz oferecia-se para passar a roupa de quem caminhava por ali”, explica Abreu.

Enquanto Nós falava de coletividade, Outros investe esforços em pensar a empatia. “Essa experiência nas ruas nos deu material de escuta. A poesia também importa aqui, não enquanto gênero literário, mas como exercício de alteridade”, afirma o diretor.

Desses encontros urbanos surgiram diversas histórias, comenta Abreu, sobre um Brasil, que não se surpreende mais por ser tão corriqueiro. “Em um deles, uma travesti narrou que acabara de deixar sua casa, expulsa pela família que queimou todas as suas roupas.”

Para Abreu, a trajetória do Galpão está presente de diferentes formas no palco de Outros. “A vivência do grupo nas ruas sempre veio de uma forma teatral mais dramática. O que fizemos nesse espetáculo foi ampliar essa relação, também com o espaço urbano e a arquitetura.”

Assim como a companhia brasileira, o grupo mineiro é hábil em reunir a diversidade da música, do teatro e da dança na cena. “Na primeira parte, o protagonismo é da palavra e sua distensão até o limite, com uma polifonia e esgotamento”, explica Abreu.

Teuda conta que para este momento o Galpão compôs músicas. “Você vai ver um show com todos nós cantando e tocando.” Na segunda parte, Abreu explica que é a hora de o elenco mergulhar em cenas mais físicas. “Até existe a palavra, mas ela não serve mais como guia ou direcionamento das cenas. É quando o corpo surge.”

Para a atriz, o novo espetáculo colocou o elenco de dez atores e atrizes no “fio da navalha”. “No começo foi um desespero. Não tem texto para se segurar, muito menos personagem. Também não existem marcação e nem deixa. Nada. É claro que o Marcinho nos orienta, mas é um jeito bem diferente de trabalhar”, avalia.

Como se a vida não bastasse, com todas as preocupações diárias, Teuda parece intuir que o teatro da atualidade exige mais que o empenho do artista em aprimorar uma determinada linguagem ou técnica. “Estamos comprometidos com a cena o tempo todo. Não existe um jeito de se apoiar ou disfarçar. A presença do artista no palco tem que ser inteira.”

OUTROS
Sesc Bom Retiro. Al. Nothmann, 185; 3332-3600.
6ª, sáb., 21h; dom., 18h.
R$ 30 / R$ 15. Estreia 25/1. Até 3/3

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Leandro Nunes
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