quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2019

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Filme ‘Nunca Deixe de Lembrar’ faz reflexão sobre o período nazista

O ator alemão Sebastian Koch abaixa a cabeça e balança para os lados em sinal de incredulidade quando fica sabendo que a Embaixada Alemã no Brasil divulgou um vídeo sobre o nazismo durante a campanha presidencial brasileira porque havia quem dissesse que se tratava de um movimento de esquerda. Isso jamais aconteceria na Alemanha, disse Koch, que estrela o filme Nunca Deixe de Lembrar, dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck, passado no período nazista.

O longa, ainda sem data de estreia no Brasil, foi indicado para o Globo de Ouro de produção estrangeira e está na lista de 9 pré-selecionados na categoria produção em língua estrangeira no Oscar. “Somos muito conscientes da nossa história, porque devemos ser e porque somos”, afirmou Koch ao jornal O Estado de S. Paulo em entrevista durante o Festival de Zurique. “Mas existe hoje essa volta a uma ideologia de dividir tudo apenas entre bom e ruim, que é muito ingênua e não muito inteligente, que elimina as zonas cinzentas. Mas parece que é da natureza humana ir pelo caminho mais fácil, de seguir alguém em vez de construir sua própria opinião.”

Nunca Deixe de Lembrar inspira-se na história do pintor Gerhard Richter, que ganha no filme o nome de Kurt Barnert (Tom Schilling). Nascido sob o nazismo, viu sua tia, com problemas mentais, desaparecer num dos programas de eugenia do regime. Anos mais tarde, apaixona-se por Ellie Seeband (Paula Beer), mas o pai dela, o professor e pesquisador Carl Seeband (Sebastian Koch), opõe-se ao relacionamento.

Seeband tinha tido um alto cargo entre os nazistas e agora, com a Alemanha dividida e com a parte leste sob domínio comunista, ele tem uma posição de poder no novo regime também. Como artista, Barnert sofre o peso do totalitarismo, que quer ditar os parâmetros para a arte. Só mais tarde ele consegue se libertar disso.

“Acredito que assim que o governo tem uma ideia do que a arte deve ser, a arte está perdida”, disse Von Donnersmarck. “O governo não pode se envolver. Muita gente diz que, se o governo não se envolve, muita coisa nonsense e ofensiva é produzida, e é verdade. Mas estou disposto a aceitar isso, porque só assim podemos ter também as obras-primas.”

Nunca Deixe de Lembrar é a volta de Von Donnersmarck a seu país. Ele examinou sua história em A Vida dos Outros, vencedor do Oscar de filme em língua estrangeira, que falava sobre um espião da Stasi na Alemanha Oriental, mas depois foi para Hollywood fazer O Turista, com Angelina Jolie e Johnny Depp, um fracasso.

“Eu fiquei muito feliz com o resultado de O Turista”, ele disse. “Sei que muitos críticos não ficaram. Para mim venderam o filme como um thriller de ação e não era isso. Era como se você fosse a um restaurante e, no lugar do prato principal, servissem a sobremesa. Podia ser a melhor sobremesa do mundo, mas não era o que se esperava.”

O cineasta admitiu, porém, que estava muito mais feliz de divulgar Nunca Deixe de Lembrar. “Porque recebo perguntas mais inteligentes, sobre coisas nas quais estou pensando, em vez de falar sobre como foi ter um astro filmando em Veneza. Acaba sendo uma jornada de autodescoberta, como se fosse psicanálise. E esse filme é muito mais pessoal para mim.”

Von Donnersmarck acredita que “olhar diretamente” e “lembrar” o passado é importante para discutir o presente. “Examinar a história é a melhor maneira de falar sobre o presente”, disse o diretor. “Há muita paixão envolvida no presente.”

A história alemã, segundo ele, mostra que nem sempre os vilões são punidos aqui na Terra. “Mas eu acho que a gente precisa ver as coisas de maneira diferente. Porque nós que achamos que estamos no caminho certo, procurando a verdade, a arte, a justiça, o amor, enquanto eles só querem dinheiro, poder, dominação, temos todas essas coisas maravilhosas para buscar na nossa vida. E eles não têm muito, para falar a verdade. Se pudermos, cada um em sua área, fazer com que mais pessoas enxerguem as coisas assim, teremos feito uma ótima contribuição para o mundo.”

Autor: Mariane Morisawa – Especial para a AE
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