sábado, 21 de setembro de 2019

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CD homenageia temas inesquecíveis do cinema

Nove em dez músicos clássicos cedem aos encantos da música de cinema em algum momento da carreira – por mais gloriosa que seja. Parece populismo oportunista, mas na maior parte das vezes o gesto é sincero, nasce de lembranças de melodias curtidas na infância e adolescência (e muitas vezes por “inspirações” financeiras, porque costumam vender bem, claro). Mesmo assim, não soa postiço o CD Cinema, em que o francês Renaud Capuçon, virtuose do violino que já esteve várias vezes no Brasil, sola 19 temas inesquecíveis de trilhas sonoras.

Ele encarou com seriedade esse projeto. A mesma de suas dezenas de gravações “importantes” do ponto de vista do repertório clássico. Os refinados arranjos de Cyrille Lehn e Daniel Capelleti só encorpam o projeto, tecido com o regente Stéphane Denève e a Filarmônica de Bruxelas. Capuçon, 42 anos, foi colega de Denève, de 47. Ambos estudaram no Conservatório de Paris.

Em entrevista antes de estrear o repertório de Cinema no templo da música popular francesa L’Olympia, em outubro passado, Capuçon confessou que quatro anos atrás não teria topado empreitada semelhante: “Eu teria medo das reações do meio clássico que sempre desprezou a música de cinema. Jovem, eu também a olhava do alto. Hoje, nem ligo para isso”.

De fato, sua formidável carreira foi construída vencendo obstáculos cada vez mais complexos no reino da chamada grande música: nos concertos de Bartók aos de Philip Glass e à Serenata de Bernstein; na música contemporânea de Rihm, Dusapin e Bruno Mantovani (compositor que vai reger em abril a Orquestra Jovem do Estado); da prática da música de câmara, razão-chave de sua musicalidade diferenciada.

Nesse repertório, que exige interpretações derramadas e “pede” muito vibrato, ele tenta conter-se, mas acaba cedendo ao lirismo encharcado de algumas das mais belas melodias do mundo. É curioso que, apesar de os compositores franceses dominarem de certa maneira o repertório, Capuçon abra com duas obras-primas do gênio italiano Ennio Morricone (Cinema Paradiso e O Oboé de Gabriel, de A Missão) que já nos envolvem no clima de sonhos que seguirá em vários outros grandes momentos, como em Papa, can you hear me? de Yentl e Verão de 42, assinados por outro gênio, Michel Legrand; ou na Lista de Schindler do grande John Williams.

Entre as surpresas muito bem-vindas estão o tema de Camille do filme O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard, e a linda suíte da trilha de O fabuloso destino de Amélie Poulain, composta por Yann Tiersen, com direito a uma curta, porém virtuosística, cadência.

Autor: João Marcos Coelho
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