domingo, 22 de setembro de 2019

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A nobreza subvertida

Ao longo de dez anos, a partir de 2009, o grego Yorgos Lanthimos usou o Festival de Cannes como trampolim para o Oscar – e uma carreira internacional. Ganhou indicações por Dente Canino (melhor filme estrangeiro) e O Lagosta (roteiro).

Ainda em Cannes, e com o aporte luxuoso de Colin Farrell e Nicole Kidman no elenco, venceu o prêmio de roteiro, em 2017, por O Sacrifício do Cervo Sagrado. Trocou de festival e a sorte lhe sorriu com ainda mais intensidade. Desde que concorreu e foi premiado no ano passado, no Lido, com A Favorita – melhor atriz para Olivia Colman -, Lanthimos converteu-se em favorito para o Oscar.

Na terça, a Academia anunciou seus indicados para a 91ª edição do prêmio, e ele não apenas confirmou os prognósticos. Cravou dez, convertendo-se no recordista do ano, mas empatado com o Alfonso Cuarón de Roma, que também teve uma dezena de indicações.

Maldito Cuarón, deve estar pensando Lanthimos, porque o mexicano, que já lhe tirou o Leão de Ouro em Veneza, parece imbatível na categoria de direção, o que só a próxima atribuição do prêmio pelo sindicato dos atores vai confirmar (ou não). Até o prêmio de atriz, que parecia talhado para Olivia Colman, agora tem outra favorita – Glenn Close, que detém o maior número de indicações para uma atriz que nunca ganhou, também está excepcional em A Esposa, e todo o mundo acha que está na hora de a Academia lhe fazer justiça. No domingo, 27, a premiação do SAG, o sindicato dos atores, em que as duas concorrem, vai apontar a decisão sobre quem leva.

Seja como for, dez indicações representam um triunfo e tanto para Lanthimos, de 45 anos, que vem de um país depauperado por sucessivas crises e cujo cinema, compreensivelmente, não anda nada bem. O que o salva foi se haver convertido num diretor internacional de prestígio. Isso não significa que seja uma unanimidade, na Grécia e fora dela. Como o austríaco Michael Haneke, e apesar das diferenças entre eles, é um misantropo que, de filme para filme, destila sua profunda descrença na humanidade. Um cínico? Talvez. O que não cabe dúvida é que, ao abraçar o drama de época, Lanthimos ganha ainda mais força, e sem abrir mão de suas (des)crenças.

A Favorita passa-se na Inglaterra do século 18, durante o reinado de Anne/Olivia Colman. Há uma guerra com a França e a rainha reina, mas não governa. Quem manda de fato, e influencia todas as suas decisões, é a favorita, sua amiga, confidente e amante, Lady Sarah/Rachel Weisz. Surge uma parente pobre e distante de Rachel, pedindo emprego na corte. Hostilizada pela ‘prima’, Abigail/Emma Stone, à custa de intrigas palacianas, vai galgar postos até se estabelecer na cama da rainha. Rachel e Emma, que já venceram o Oscar – a primeira, melhor coadjuvante, por O Jardineiro Fiel, a segunda, melhor atriz, por La La Land – Cantando Estações -, estão na disputa. Concorrem ao prêmio de coadjuvante, mas, por melhores que sejam, anulam-se mutuamente. Quem vai levar é Regina King, por Se a Rua Beale Falasse, de Barry Jenkins. Mas se houvesse a categoria melhor elenco no Oscar, como há no SAG, A Favorita levava.

Ocorre algo curioso com o filme. É opulento, visualmente, enche os olhos com sua reconstituição de época em cenários e figurinos, mas não é necessariamente belo. Lanthimos e seu operador causam estranhamento ao filmar, em interiores, com a lente grande angular. Produzem distorções da imagem para mostrar o mundo torto em que vivem essas mulheres. Elas mandam, mas os homens estão sempre ao redor, pressionando, arreganhando os dentes.

Hollywood deve ter selecionado o filme por estar em choque. É longa a lista de vencedores do Oscar que cortejam a nobreza da Inglaterra. O cinemão adora o cerimonial – que Lanthimos tem um prazer perverso em subverter. A rainha cria coelhos que se reproduzem aos montes e invadem ambientes, e todo mundo fala vulgaridades. De cara, Emma é beliscada, apalpada e assediada na diligência em que chega a Londres. Ao reagir, é jogada no barro e chega ao castelo em frangalhos. À custa de sexo, e muitas maldades, ela chega lá. Lanthimos já disse que não quis fazer um filme para satisfazer a curiosidade do público pela homossexualidade feminina. Numa entrevistas no YouTube, ele diz que há anos perseguia esse projeto. Só agora, um pouco por se sentir mais maduro como diretor, mas também porque as mulheres vivem um momento de afirmação no cinema, encontrou as condições favoráveis para abordá-lo.

Cita suas influências no filme de época – a Maria Antonieta de Sofia Coppola, pela contemporaneidade; Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman; Barry Lyndon, de Stanley Kubrick; O Contrato do Amor, de Peter Greenaway; As Loucuras do Rei George, de Nicholas Hytner, porque a rainha também é ‘louca’; o Andrzej Zulawski de Possessão, pela voltagem erótica; e o Amadeus de Milos Forman, por ser pop, o que, no fundo, ele também quer ser, desde que trocou a Grécia pelo mundo. São influências díspares. Ao filmar a realeza, ele abre mão da deferência. Reis não são deuses, mas gente. Como ele diz – suas personagens são mulheres, são seres humanos. Não é preciso idealizar. Mulheres, como homens, fazem coisas horríveis. As de A Favorita têm momentos terríveis e outros maravilhosos. Assim são as pessoas e, assim, Lanthimos gosta de filmá-las.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Luiz Carlos Merten
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