terça-feira, 26 de Março de 2019

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O reverendo, o bispo e o rabino

Por João Baptista Herkenhoff

Na semana do Dia Internacional dos Direitos Humanos é oportuno realçar a ligação entre a Fé e os Direitos Humanos.

Vamos começar esta página lembrando o Apóstolo Paulo que, a meu ver, sintetizou o Cristianismo na epístola que escreveu sobre o Amor.

“Ainda que eu falasse todas as línguas dos homens, isso de nada valeria se eu não tivesse Amor. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos pobres, nenhum significado teria esse gesto se eu não tivesse Amor.”

Podemos colocar o Apóstolo Paulo no ano de 2018 e, dentro de sua linha de ensinamento, desdobrar sua palavra:

ainda que eu conheça e cumpra todos os artigos do Código de Direito Canônico, isso de nada valerá se eu não tiver Amor;

ainda que os juízes sentenciem na forma da lei, se as sentenças não traduzirem Justiça, o Direito estará sendo profanado.

O Amor, na lição de Paulo Apóstolo, é a grande diretriz da vida, é a balança através da qual, com a medida do Absoluto, pesamos tudo que é relativo.

A lei é relativa. O Direito é Absoluto.

Todos os códigos, de todos os países do mundo, devem estar submetidos aos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A lei que rasga os Direitos Humanos não é lei, mas profanação da lei. A sentença judicial que insulta os direitos humanos não é sentença que mereça respeito, mas prostituição da toga. (Peço desculpas às prostitutas por usar a palavra prostituição referindo-me à sentença que esmaga a dignidade do Direito.)

Depois de reverenciar o Apóstolo Paulo, vamos trazer à lembrança três Apóstolos brasileiros – Reverendo Jaime Wright (evangélico), Dom Paulo Evaristo Arns (católico) e Rabino Henry Sobel (judeu).

Embora seguissem rotas religiosas diferentes, esses três Apóstolos encontraram sintonia na defesa desassombrada da dignidade da pessoa humana. Quando o Brasil estava sacudido pela ditadura, esses três Apóstolos denunciaram a tortura, sofreram toda sorte de ameaças, colocaram a própria vida em perigo, na defesa dos Direitos Humanos. O livro “Brasil Nunca Mais”, o mais monumental documentário sobre a tortura no Brasil, mostra como foram tristes e perigosos aqueles dias e como o templo católico, o templo evangélico e o templo judeu, sob a liderança desses três Apóstolos, foram o refúgio dos perseguidos, foram antena capaz de ouvir os gemidos e as dores dos que eram massacrados.

O Brasil é um país de jovens. E os jovens frequentemente não têm conhecimento desses fatos.

Os mais velhos têm o dever de testemunhar sobre o passado, a fim de que se construa o futuro com segurança.

Aos oitenta e dois anos, estou cumprindo este dever.

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