segunda-feira, 16 de setembro de 2019

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Natal de antigamente

Por João Baptista Herkenhoff

Para o comércio, o Natal começa em primeiro de novembro e termina em 25 de dezembro, ou seja, o tempo de Natal é o tempo em que se vende. É possível que haja algum retardatário nas compras. Daí que também no Dia de Natal ouve-se o apelo frenético: compre, ainda é tempo de comprar, compre e seja feliz.

Antigamente o tempo de Natal começava pouco antes de 25 de dezembro e ia até 20 de janeiro (Dia de São Sebastião). Era tempo de reflexão, oração, fraternidade. O presépio só era desfeito em 6 de janeiro, Dia dos Reis Magos.

As crianças armavam o presépio, reproduzindo dentro dos lares a gruta de Belém.

Vejo com simpatia os gestos de solidariedade inspirados pela comemoração do Natal. Se resultam de um espírito puro, de uma volta para o próximo, de uma germinação de boa vontade, esses gestos merecem reverência.

São gestos que se situam num curto espaço de tempo, ou apenas num só dia do calendário, mas podem levar as pessoas e grupos que os praticam a uma interiorização profunda.

Perguntas podem ser feitas à consciência:

Que significa o presépio de Jesus?

Que pede a todos nós aquela manjedoura?

É compatível com o testamento cristão um mundo de exclusões, uma sociedade dilacerada entre os que têm tudo e os que nada têm?

Essa manjedoura exige a coragem de subverter para ordenar. Para instituir a ordem, que a estrela de Belém reclama, será preciso romper as estruturas da desordem que dividem os humanos entre “seres” e “não-seres”.

A estrela de Belém exige que nos escandalizemos em face das multidões sem casa, sem saneamento básico, grávidas sem proteção, crianças fora da escola, crianças de rua que a nossa hipocrisia chama de pivetes.

Acutilados pela convocação natalina não podemos nos desinteressar de ler, pensar, discutir nos nossos grupos, sindicatos, associações, igrejas as causas de tanta injustiça.

Provocados por aquela criança reclinada na gruta, ao lado de Maria e José, não podemos limitar nossas preocupações aos muros de nossa casa.

Sob o impulso do Natal não podemos dar as costas para a política, como se a política tivesse de ser, por destinação, uma coisa feia.

A criança do presépio, quando se tornou adulto, não pregou sozinho seu Evangelho. Chamou doze apóstolos para a Missão. E estes multiplicaram-se para semear a Boa Nova. Também nós temos de compreender que não podemos mudar a rota do mundo na solidão do esforço isolado. Unir, reunir, formar grupos, instâncias de atuação social, movimentos populares, caminhar em bloco, pressionar, exigir, sonhar o sonho impossível que a crença torna sonho real. Este é o trajeto capaz de edificar a morada dos homens que deve ser também morada de Deus.

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