terça-feira, 18 de dezembro de 2018

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O furacão Marcos Azambuja

Por Arnaldo Niskier

No período em que estive à frente da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, de 2004 a 2008, tive a satisfação de conviver com uma das figuras mais importantes da cultura brasileira: Marcos Azambuja, ex-Secretário-Geral do Itamaraty e ex-embaixador do Brasil na França. Ele era o presidente da Fundação Casa França Brasil, que estava sob a responsabilidade da minha Pasta, o que nos proporcionava reuniões periódicas, para a elaboração de eventos no espaço cultural localizado no Centro do Rio. Foram momentos produtivos e harmoniosos, como na ocasião em que foi inaugurado o novo sistema de iluminação artística do local, que teve como madrinha a saudosa D. Lily Marinho.

Graças ao seu conhecimento sobre a importância da missão francesa no Brasil, tivemos o privilégio de assistir a belíssimas exposições sobre as obras de artistas como Jean-Baptiste Debret, Joachin Lebreton, Charles Pradier, Nicolas Antoine Taunay, Auguste Marie Taunay, Marc e Zéphirin Ferrez e Grandjean de Montigny, que aqui foram muito bem recebidos por D. João VI. Marcos Azambuja fez questão de lembrar da época que os artistas traziam os ideais da Revolução Francesa, quando aqui chegavam, em 1816, mas ainda amargavam a derrota de Napoleão Bonaparte na Batalha de Waterloo, para os ingleses e seus aliados. Para ele, os artistas “trouxeram a clareza do pensamento francês para nossa luminosidade”.

Em recente entrevista a um jornal de grande circulação, o ex-embaixador comemora a paz que reina no mundo, há 70 anos “sem uma grande guerra”, e a eliminação da colonização e da escravidão, que ele considera as formas institucionais de desigualdade. Ele destaca como grandes momentos da nossa diplomacia o posicionamento durante a guerra das Malvinas e a viabilização da usina de Itaipu, em parceria com o Paraguai, mas sem criar problemas com a Argentina.

Após enaltecer a liberdade que todos têm hoje para falar que quiser, ele questiona o poder criado pelas redes sociais, que “deram voz e opinião a quem não tinha”, mas o resultado dessa novidade não é muito apreciável: proliferação do rancor, do ressentimento e da inveja. O jeito agora é superar as diferenças e melhorar os níveis de entendimentos entre todos. Recuar, jamais.

Marcos Azambuja é um otimista em potencial, em relação ao Brasil que, na sua opinião, “é muito melhor do que achamos”, e ao mesmo tempo, “é muito pior do que suspeitamos”. O ex-embaixador defende uma ordem mais democrática, com Estado de direito e respeito ao meio ambiente. Para quem acha que uma Operação Lava-Jato é o fim da picada para um país, ele lembra que a Inglaterra entrou em guerra com a China para vender ópio, e os Estados Unidos provocaram uma guerra civil para recolonizar uma região específica do seu território. No fim, salvaram-se todos e as duas nações estão aí vivas e desenvolvidas.

Aos 83 anos, ele tem a energia de um jovem e está escrevendo “Memórias Quase-póstumas de Marcos Azambuja”, título ainda provisório. Dedica-se ainda na colaboração com os trabalhos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), onde conseguiu barrar a demolição do Hotel da Glória, por Eike Batista, o que para ele é motivo de orgulho. Fazendo valer o conhecimento adquirido nas intervenções como embaixador, atua também como conselheiro em empresas multinacionais francesas, na Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) e no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Haja fôlego!

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