terça-feira, 18 de dezembro de 2018

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‘Nunca foi tão fácil ser ladrão neste país’, diz Lula em depoimento

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse à juíza Gabriela Hardt nesta quarta-feira, 14, que “nunca foi tão fácil ser ladrão nesse país”. Interrogado por três horas na ação penal em que é réu no caso do sítio de Atibaia, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o petista exaltou-se quando questionado sobre propinas pagas no âmbito de contratos da Petrobras e a criação de um suposto “caixa-geral” do PT, que teria sido administrado pelo ex-tesoureiro da legenda João Vaccari, preso na Operação Lava Jato desde abril de 2015.

“Eu não acredito”, disse Lula, durante a audiência marcada por um embate nervoso e ríspido com a magistrada.

“O senhor não acredita, mas foi lhe dito nos outros depoimentos sobre quantidades de valores devolvidos por diretores e gerentes da Petrobras relativos a propinas e os valores em contas bloqueadas de políticos no exterior”, seguiu Gabriela Hardt.

“Aí é caixa deles, na verdade eles ganhavam um prêmio. Nunca foi tão fácil ser ladrão nesse país. Você rouba, aí depois você faz a delação e fica com um terço do roubo ou dois terços do roubo”, retrucou o ex-presidente.

“Mas, então aconteceu?”, indagou a juíza.

“Eu quero saber se encontraram dinheiro do Vaccari no exterior, eu quero saber se encontraram conta do PT no exterior. Por isso, quando um cidadão vem aqui e grita ‘olha, era tudo do caixa do PT, era tudo do caixa do PT’, ele está mentindo!”, afirmou o petista.

Gabriela seguiu. “Quando se vincula pagamento no exterior ao publicitário contratado pelo PT, o senhor não vê vinculação numa coisa com a outra?”

“Eu não tenho vinculação uma coisa com a outra.”

“Eu não estou falando que o senhor tem, estou falando de propinas que são imputadas ao partido.”

“Veja, se o empresário resolveu corromper alguém e depositar o dinheiro a pedido do cidadão que tinha direito àquele dinheiro no exterior é problema dele. Paga pelo erro, tá? Até porque, agora, a MP aprovada no ano passado anistiou todos os ladrões que depositaram dinheiro lá fora, todos os sonegadores que depositaram foram anistiados.”

“Sonegador pode ser, lavagem de dinheiro não, senhor ex-presidente”, corrigiu Gabriela.

“O que eu quero dizer é que toda vez, é a segunda vez, o Léo (Pinheiro, da empreiteira OAS) vem aqui e diz ‘foi caixa do Vaccari’. O Vaccari fez uma carta desmentindo e o juiz Moro não aceitou. Agora, vem outra vez ‘vai pro caixa dois’. Ora, o caixa dois virou um pote de água benta. E o Vaccari tá aqui perto, é só trazer o Vaccari. Pergunta pro Vaccari se ele quer falar.”

Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, também é réu na ação penal do sítio de Atibaia. Em seu interrogatório, ele detonou Lula. Disse que o sítio era mesmo para Lula.

No interrogatório desta quarta, 14, a juíza cercou o ex-presidente com indagações sucessivas sobre a reforma do sítio e a instalação da cozinha – tudo ao custo de R$ 1,02 milhão, valor supostamente bancado pelas empreiteiras OAS e Odebrecht e pelo amigo do ex-presidente, o pecuarista José Carlos Bumlai.

A juíza perguntou ao petista sobre eventual pagamento aos executores das benfeitorias na propriedade rural. Lula reagiu com veemência. “Agora é muito cômodo jogar em cima de um caixa-geral para culpar o Vaccari. Duvido. O Léo Pinheiro está há dois anos tentando negociar uma delação e não aceitam. Ou acusa o Lula de verdade ou não vai ter delação.”

“Eu nego veementemente, eu nego a existência dessa conta-geral.”

“Quem fez a reforma da cozinha?”, insistiu a juíza.

“Eu não sei quem fez, o que eu sei é que foi discutido entre o Fernando (Bittar, em nome de quem está o sítio de Atibaia), a mulher do Fernando e a Marisa (ex-primeira dama, morta em fevereiro de 2017). Precisava aumentar que a cozinha estava pequena.”

A juíza insistiu uma vez mais. “O sr não achou estranho não buscar a OAS para ressarcir? Fernando Bittar disse que o sr e dona Marisa iam pagar. O sr. pagou?”

“Estamos falando de 2014, eu não era mais presidente da República. Eu nem disputava mais eleições. Eu sempre parti do pressuposto que o cara fez um serviço e alguém pagou, ou o Fernando ou a dona Marisa. Eu não estranhei porque não era uma grande empreiteira fazendo uma reforma. Era uma pessoa (Léo Pinheiro) que eu conheço há mais de 20 anos sem falar de caixa-geral que eu tô sabendo agora e acho que ele tinha cobrado.”

O ex-presidente foi irônico. “Não sei se a sra é casada, mas o seu marido entende pouco de cozinha, como eu. Não era comigo esse assunto.”

“Sou divorciada”, disse Gabriela.

Defesa

O advogado Cristiano Zanin Martins, defensor de Lula, divulgou a seguinte nota:

“Depoimento de Lula mostra arbitrariedade da acusação

O ex-presidente Lula rebateu ponto a ponto as infundadas acusações do Ministério Público em seu depoimento, reforçando que durante o seu governo foram tomadas inúmeras providências voltadas ao combate à corrupção e ao controle da gestão pública e que nenhum ato de corrupção ocorrido na Petrobras foi detectado e levado ao seu conhecimento.

Embora o Ministério Público Federal tenha distribuído a ação penal à Lava Jato de Curitiba sob a afirmação de que 9 contratos específicos da Petrobras e subsidiárias teriam gerado vantagens indevidas, nenhuma pergunta foi dirigida a Lula pelos Procuradores da República presentes à audiência. A situação confirma que a referência a tais contratos da Petrobras na denúncia foi um reprovável pretexto criado pela Lava Jato para submeter Lula a processos arbitrários perante a Justiça Federal de Curitiba. O Supremo Tribunal Federal já definiu que somente os casos em que haja clara e comprovada vinculação com desvios na Petrobras podem ser direcionados à 13ª. Vara Federal de Curitiba (Inq. 4.130/QO).

Lula também apresentou em seu depoimento a perplexidade de estar sendo acusado pelo recebimento de reformas em um sítio situado em Atibaia que, em verdade, não têm qualquer vínculo com a Petrobras e que pertence de fato e de direito à família Bittar, conforme farta documentação constante no processo.

O depoimento prestado pelo ex-Presidente Lula também reforçou sua indignação por estar preso sem ter cometido qualquer crime e por estar sofrendo uma perseguição judicial por motivação política materializada em diversas acusações ofensivas e despropositadas para alguém que governou atendendo exclusivamente aos interesses do País.

Cristiano Zanin Martins”

Autor: Ricardo Brandt, Julia Affonso, Paulo Roberto Netto e Fausto Macedo
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