Variedades

Matt Dillon fala de Lars Von Trier e de ‘A Casa que Jack Construiu’

01/11/2018

Para quem acompanha há muito tempo o trabalho de Lars von Trier – mas só encontra o diretor presencialmente em festivais como Cannes, às vezes com dois, três anos de distância -, foi chocante revê-lo, em maio, na Croisette. Von Trier foi readmitido no evento na França depois de ser banido por um tempo por declarações consideradas ‘nazistas’. Voltou devastado, fisicamente. A depressão violenta o obriga a tomar medicamentos cujos efeitos nocivos precisam ser combatidos com outros medicamentos. Os gestos estão lentos, a fala, claudicante. “Mas não se iluda, ele está com a cabeça a mil. Com todo esse handicap que poderia ser paralisante, no set ele se entusiasma, vira outra coisa, muito mais ativo.”

Matt Dillon já havia interpretado um assassino frio – no remake de Amor, Prelúdio de Morte, de Gerd Oswald, que James Dearden dirigiu em 1981 -, mas um serial killer como o de A Casa Que Jack Construiu é inédito, e não apenas de sua carreira. Dillon não banca o mascarado quando explica – “Eu mesmo fiquei em dúvida quando ele me propôs o papel. Perguntei por que me queria? Ele disse que precisava de um ator bonito e que fosse confiável para os espectadores. Embarquei na viagem. Quando lhe perguntei como iria interpretar Jack, ele repetia, como se fosse um mantra – confie em mim. Foi o que fiz.” Ao ator, o cineasta dinamarquês, um dos autores mais polêmicos do mundo, pediu confiança. Ao repórter, na entrevista que concedeu, também em Cannes, Lars von Trier também explicou o porquê do seu serial killer.

“Era um tema que vinha me assombrando há muito tempo. Tenho essa relação de amor e ódio com a ‘América’, e não é de agora. E é claro que ela se acentuou. Os EUA viraram o território perfeito para abrigar o mal que toma conta deste mundo cada vez mais ‘souless’, sem alma. O advento do Homus Trumpus fez deste mundo, e da América, uma coisa muito pior.” Desde a sua première em Cannes, fora de concurso, A Casa Que Jack Construiu – e é uma casa macabra, como você vai ver, olha o spoiler, no final – tem provocado polêmica e dividido a crítica. Outra coisa não se espera de Von Trier. Tem gente que acha A Casa de Jack seu pior filme, outros, o melhor em anos. Em maio, Dillon foi sincero – “Ainda não tenho distanciamento para avaliar o filme nem o personagem. Só posso dizer que Lars é o oposto do sujeito arrogante e autoritário que muitos de seus filmes talvez sugiram. É um dos diretores mais doces com quem trabalhei.”

E olhem que Dillon, de 54 anos, tem interpretado em filmes e séries desde muito jovem, em 1979. Só com Francis Ford Coppola foram dois filmes – Vidas sem Rumo e O Selvagem da Motocicleta. Outros dois com Gus Van Sant – Drugstore Cowboy e Um Sonho sem Limites. Fez rir com os irmãos Farrelly (Quem Vai Ficar com Mary?) e com Frank Oz (Será Que Ele É?). Na TV, participou de Modern Family e Wayward Pines, além de ter dado voz a Louie em The Simpsons. Dillon não se furta a fazer comparações. “Lars é doce, mas não foi um set fácil, com tantas cenas brutais. Diverti-me muito mais com os Farrelly. Coppola eu conheci muito jovem, quando não tinha experiência nenhuma. Só estar num set dele… Meu Deus! Faria não importa o quê.” De volta à Casa de Jack, Dillon disse que entendia as reações divididas em Cannes. “Lars sempre provoca reações apaixonadas, e no caso desse filme mais ainda. Seria muito estranho, se fosse unanimemente apreciado.”

Von Trier disse à reportagem que entendia mais de psicopatas do que de serial killers. Brincou – “Nunca matei ninguém, o que significa que todo esse filme é uma imensa fantasia. Se matasse, talvez fosse algum jornalista.” E Dillon, sobre o fato de a violência gráfica do filme ser dirigida principalmente contra mulheres – “Quer provocação maior, em plena fase de empoderamento feminino? Jack mata homens, ele conta, só não vemos com tantos detalhes.” Na trama que segue, por rupturas, o protagonista ao longo de 12 anos, Jack lembra seus crimes (mais) emblemáticos. Ele os descreve para Verge, o enigmático personagem de Bruno Ganz. Após cinco partes, ainda vem um epílogo – o inferno. “Lars gostava de contar que, mais que outros filmes de serial killer, sua fonte de inspiração foi a literatura de Patricia Highsmith. Aquela sabia matar.” Bem entendido que, nos livros e filmes neles baseados.

Von Trier não foge à psicologização da violência de Jack – o episódio da infância -, mas Dillon observa. “Acho que tem ali um humor perverso, uma certa ridicularização. É isso, mas não só isso.” Dillon não fugiu nem mesmo à questão mais embaraçosa de todas. Considerando-se que Jack está presente em cena o tempo todo, e na maioria delas matando com requintes de crueldade, o filme não faz dele um assassino carismático como o Hannibal Lecter de O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme. “Estamos falando de uma “Oscar winning performance”. E não é só a questão da interpretação. O mundo mudou muito nesses quase 30 anos (O Silêncio é de 1991). Tem havido uma banalização cada vez maior da violência, na arte como na vida. Lars não queria glamourizar. Falam mal dele, mas, como homem e artista, é responsável. Provoca, e agride, mas para tudo há um limite.” Um último tema, a direção. Há tempos Dillon trabalha com um amigo músico num documentário sobre música cubana. O filme vai narrar a jornada deles através da música da ilha. “É muito íntimo e excitante, e por isso tem exigido tanto. Não creio que vá querer dirigir outra coisa.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Luiz Carlos Merten
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