terça-feira, 11 de dezembro de 2018

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Monteiro Lobato, o Brasil em carne e osso e sem eufemismos

Estudiosos e fãs de Monteiro Lobato estão exultantes. Biógrafos arregaçam as mangas e editoras preparam novos lançamentos ou reedições para o próximo ano, quando a sua obra cai em domínio público. Mas não é só. Às vésperas da tão esperada “alforria”, celebramos também um século do livro que consagraria a figura do Jeca Tatu. Tido por Lobato, dono de um corrosivo senso de humor, como mais uma das “lorotas” que costumava escrever, Urupês se transformaria em estrondoso sucesso de público e de crítica.

A obra hoje centenária tem origem nos debates suscitados pelas queimadas no Vale do Paraíba, onde ficava a fazenda herdada do avô, o Visconde de Tremembé. Visionário, ao implementar modernas técnicas para desenvolver a produção de grãos, Lobato depara-se com esse arraigado costume da roça, que destruía a vegetação nativa, empobrecia o solo e matava os animais silvestres. Envia então violenta denúncia à seção Queixas e Reclamações de “O Estado de S. Paulo”, condenando a prática, popularizada na região, de atear fogo à mata para limpar o terreno destinado ao plantio:

“A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho-da-terra”, proclamava Lobato, alertando que, devido aos incêndios programados, em quatro anos a mais rica floresta despia-se dos “jequitibás magníficos e perobeiras milenárias” para, em decadência irreversível, terminar em sapezeiro, “sua tortura e vergonha”.

Por decisão do jornal, a carta potencialmente explosiva foi deslocada do espaço reservado aos leitores, para sair com destaque no corpo da página. Intitulado Uma velha praga, de 12 de novembro de 1914, seguido pelo artigo Urupês, um mês depois, ambos frutos da sua indignação, provocaram intensa polêmica. Comparando o pequeno lavrador das redondezas ao urupê, uma espécie de cogumelo parasitário que corrói a madeira, o protesto de Lobato repercutiu, em parte, porque teve o mérito de desmistificar o habitante da zona rural, pintado ora nos tons fantasiosos do bom selvagem, ora em fortes cores pitorescas.

Além de enterrar o indianismo romantizado de José de Alencar a Coelho Neto, Urupês viria questionar o caboclo interpretado por Cornélio Pires, folclorista que explorava comercialmente o imaginário caipira, lotando os teatros das cidades com seus tipos estereotipados. De acordo com Lobato, a caricatura não passava de estilização “sentimental, poética, ultrarromântica, fulgurante de piadas – e rendosa”, conforme linhas enviadas em 1915 a Godofredo Rangel, com quem se corresponderia até o final da vida.

Estimulado pela repercussão dos seus textos, o escritor resolveu editar Urupês por conta própria na Revista do Brasil, comprada com os recursos da venda da fazenda Buquira. O volume, que reunia contos, crônicas e artigos, não poderia ter acolhida mais entusiasta: “Tudo que imprimo voa”, revelaria ao amigo Rangel, em dezembro de 1919. “Vendo-me como pinhão cozido ou pipoca em noite de escavalinho”, exultou, para comentar que andava até intrigado com a calorosa recepção.

As razões de tamanho êxito não são difíceis de serem detectadas. Revolvendo as águas mornas do ambiente beletrista do período, Urupês inovou no conteúdo, ao trazer o homem simples do povo para o protagonismo da história, e na forma, ao empregar uma linguagem direta, reproduzindo a riqueza melodiosa da fala caipira. Em uma época em que o uso do português corrente na literatura era malvisto, sendo considerado sinônimo de cultura “inferior”, Lobato resgatou a oralidade e o coloquialismo, antecipando-se às convenções estilísticas propostas pelos modernistas da Semana de 22.

Urupês, como se sabe, marca o nascimento de Jeca Tatu. Indolente, sempre de cócoras, descalço, preguiçoso e cachaceiro, este “sacerdote da grande lei do menor esforço” iria, porém, sofrer diversas transformações nos sucessivos lançamentos do livro. Ele vai sendo redesenhando na medida em que o “pai” de Emília entra em contato com as pesquisas sobre saúde pública de Belisário Pena e Artur Neiva. Ao constatar a situação de abandono do seu personagem icônico, o escritor passa a enxergá-lo como vítima da miséria, da ignorância e das doenças endêmicas, por conta de políticas governamentais omissas e inescrupulosas. Assim, nas tiragens seguintes de Urupês, cuja terceira impressão esgotou-se devido a uma longa referência a ele feita por Rui Barbosa, em março de 1919, Lobato reformula o seu discurso.

“Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não”, admite o autor, no prefácio à 4.ª edição.

Com 30 mil exemplares vendidos até 1925, traduzido para o espanhol e o inglês, Urupês é, antes de tudo, uma tentativa de decifrar o País, exposto em suas páginas sem eufemismos, na mais crua realidade. Por isso, cem anos depois, esta obra carregada de simbologia continua atual, mantendo o frescor e o poder de encantar e surpreender os leitores.

*MARCIA CAMARGOS É ESCRITORA E JORNALISTA
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Marcia Camargos, especial para a AE*
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