sexta-feira, 16 de novembro de 2018

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A arte do registro

Quem entra na Bienal pelo portão sul do prédio, muito provavelmente vai se deparar com alguém deitado no chão e com um celular na mão, na tentativa de guardar um melhor registro dos cogumelos da obra Vivam os Campos Livres, em que o artista e curador espanhol Antonio Ballester Moreno reuniu seis mil peças de cerâmicas feitas por crianças de cinco centros educacionais da cidade de São Paulo. É um indicativo, já na entrada desta 33ª edição do evento, que teve início na última sexta-feira, feriado de 7 de setembro, sobre a necessidade do público de fotografar todas as suas experiências.

A abertura no feriado foi uma boa estratégia da Fundação Bienal. O público era crescente, ao longo do primeiro dia. Crianças, idosos, jovens fashionistas e adultos que aproveitaram o dia de sol para fazer exercícios no Parque do Ibirapuera. O térreo e os dois primeiros andares estiveram bastante cheios. O terceiro, e menor de todos, estranhamente mais vazio, talvez pela exigência de um pequeno esforço físico, para acessar o andar sem o apoio da escada rolante, fora de serviço.

As maiores aglomerações aconteciam, ao menos na abertura, nas áreas de performance. A mais atrativa, sem dúvidas, foi Para ser curado: Sente-se deixe-me te cobrir, aparição e instalação da artista sul-africana Lhola Amira, no núcleo sempre, nunca, de curadoria da americana Wura-Natasha Ogunji. Atraídas pelo curioso ritual, dezenas de pessoas assistiam à performance em pé ou sentadas ao chão. Muitas, claro, de celular em punho.

Comissionada para a Bienal, a instalação tem como proposta lembrar à Lei Rio Branco, conhecida como a Lei do Ventre Livre, de 1871, enquanto convida o público para ter um repouso espiritual. Nela, a artista tem como objetivo lavar, até o fim do evento, em dezembro, os pés de 1871 pessoas, um ato de gentileza e humildade, mas que remete a um trauma histórico. Depois de um longo processo de oração, durante a performance, Amira levanta e presenteia algumas pessoas com um cordão.

A estudante de antropologia Sylvia Bomtempo, de 21 anos, foi uma das pessoas que recebeu o presente. “O que me atraiu foi ver esse ritual. É uma obra em que a energia do público pode interferir”, analisa a jovem, que ficou surpresa com a obra. “Não esperava encontrar algo do tipo na Bienal, ainda mais por ser relacionado à minha área de estudo. Foi muito interessante.”

Já num apertado corredor, no primeiro andar, várias pessoas se espremiam para ver uma execução da instalação Sem Título, de 2014, do artista Tunga, morto em 2016, escolhido pela artista-curadora brasileira Sofia Borges para o seu núcleo A Infinita História das Coisas ou o Fim da Tragédia do Um. A mostra conta ainda com uma performance do francês Tal Isaac Hadad, que também chamou a atenção do público.

As obras em vídeo também foram destaque. A grande tenda montada pela mineira Tamar Guimarães para a exibição do seu ensaio visual baseado em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, estava lotada. A mesma coisa na obra em vídeo The Living Room, do artista holandês Roderick Hietbrink. Já a única fila do evento era para Ex Situ, instalação sonora do argentino Sebástian Castagna, dentro do núcleo O pássaro lento, da artista-curadora Claudia Fontes.

Para todos

Por um longo caminho labiríntico, a exposição de Sofia foi uma das que mais intrigou o público. Vários visitantes tentavam decifrar sobre o que era a obra Silver Hippie, da britânica Sarah Lucas. “Acho que é sobre o feminino”, dizia uma mulher à filha. Neste momento, é como se as obras passassem a ser do público, acredita Sofia Borges. “Para o artista isso é algo fundamental”, analisa. “Cabe ao espectador quase que ‘descriptografar’ o sentido contido nas obras, o que ele só faz a partir de suas próprias experiências. O que ele vê é o eco da sua existência.”

Ainda na obra de Lucas, um rapaz tentava tirar uma foto de sua mãe. “Vem que está disputado”, dizia o jovem. Para Sofia, como artista, a necessidade de fotografar tudo não a incomoda. “É algo recorrente hoje em dia e é também uma maneira de se relacionas com as coisas. Só acho que a gente pode estar se esquecendo do lugar não virtual.”

A artista sabe que nem todo mundo que vai a Bienal está ali pela arte em si. Algumas estão apenas de passagem pelo parque e aproveitaram a entrada gratuita. “É uma honra para mim fazer uma exposição que seja para todos”, diz. “É a coisa mais especial da Bienal.”

O curador-geral desta edição da Bienal, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, afirma ter pensado em todas as pessoas que vão até o evento, ao topar o desafio de realizá-lo. “O diferencial da Bienal é o seu público imenso e diversificado”, acredita o espanhol. “Temos a obrigação de saber quem são os visitantes e tentar fazer o evento ser amigável para todos eles.”

Serviço

3ª BIENAL DE SÃO PAULO
Pavilhão da Bienal. Parque do Ibirapuera, Portão 3. Tel. 5576-7600. 3ª a dom., 9 às 19h. 5ª e sáb., 9 às 22h. Gratuito. Até 9/12.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Pedro Rocha, especial para a AE
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