segunda-feira, 19 de novembro de 2018

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Na fronteira, em Pacaraima, só tremor une as pessoas

Por volta das 18h30 de ontem, um tremor fez trepidar vidraças, balançar móveis e bambear pontos de táxi na cidade. Assustados, brasileiros e venezuelanos correram para ruas e, cena incomum nos últimos dias, ficaram reunidos por alguns instantes. “Era só o que faltava em Pacaraima”, comentou um morador da cidade que fica na fronteira com a Venezuela.

O tremor durou poucos minutos e logo os presentes voltaram às reclamações habituais. Recentemente, Pacaraima, no norte de Roraima, tem vivido dias de nervos à flor da pele. A tensão, provocada por troca de acusações entre brasileiros e imigrantes venezuelanos, teve o estopim no sábado, quando um grupo soltou bombas caseiras, destruiu objetos e incendiou barracas de refugiados que acampavam na rua.

Cerca de 1,2 mil venezuelanos decidiram voltar para o país depois do episódio e o número de refugiados que cruzam a fronteira caiu de 1,2 mil por dia para 300. Mas autoridades e a polícia local demonstram preocupação sobre possíveis novos conflitos. Por causa do risco, cerca de 60 integrantes da Força Nacional começaram a patrulhar a cidade ontem. “Você viu algum policial aqui no centro? Tudo que eles anunciam é para os venezuelanos”, reclamou um brasileiro, sem se identificar. Na cidade, a maioria chama o episódio de “protesto”, “confusão” ou “aquela bagunça lá”. Após críticas e acusações de xenofobia, muitos preferem o anonimato. À tarde, o Estado viu duas viaturas da Força Nacional nas ruas do centro.

Entre os brasileiros, o principal argumento é o de que os venezuelanos estariam provocando um onda de violência na região, além de dispor de suposta prioridade em unidades de saúde e de assistência. “Aqui antes era bem tranquilo, agora eu tenho medo de sair à noite”, disse o comerciante Jaciento Silva, de 43 anos, que nunca foi assaltado, mas recebe quase diariamente no WhatsApp mensagens de supostos crimes dos imigrantes.

Pacaraima tem pouco mais de 12 mil habitantes e vem recebendo fluxos de imigrantes desde 2015. A situação se agravou no ano passado. “A maior parte da nossa população mora em terra de demarcação indígena. Na área urbana mesmo tem uns 5 mil, então os venezuelanos tomaram conta”, afirmou um comerciante, que também pediu para não ser identificado. Em mercados, restaurantes e hotéis, muitos funcionários são estrangeiros que conseguiram ser acolhidos no município. Outros tantos, no entanto, estão desempregados e passam a tarde sentados na calçada, olhando o movimento.

O próprio conflito de sábado foi motivado por um assalto em que a vítima foi roubada e torturada – e reconheceu os agressores como sendo venezuelanos. Depois disso, já não se vê mais as barracas com imigrantes que tomavam as ruas de Pacaraima. “Fizemos uma limpeza”, é o comentário mais frequente entre os moradores. “Foi uma grande humilhação”, rebateu a venezuelana Jaqueline Astudillo, de 35 anos, que exibe um vídeo mostrando que havia cesta básicas entre os itens queimados no ataque. “Por que você não vai perguntar o que aconteceu para um brasileiro?”, reclamou um morador que, observando a conversa, passou a gravar a reportagem com o celular. Questionado se queria dar sua versão, declinou.

Na sequência, houve aglomeração. Um policial militar desembarcou de uma motocicleta e intercedeu. “Aqui (em Pacaraima) está uma tensão muito grande. Eu estou com vergonha da xenofobia das pessoas. Eu mesmo sou da Paraíba, imigrante, por que vamos tratar os outros assim?”

Bancos vazios

Pela manhã, era incomum o cenário na tenda da Operação Acolhida, equipamento do Exército para receber e fazer a triagem dos venezuelanos. Em vez das costumeiras filas de refugiados, havia diversos bancos de espera vazios. Segundo agentes do local, o fluxo caiu de forma brusca desde o conflito. “Queimaram todos os meus documentos, só me sobrou a roupa do corpo”, diz o engenheiro de sistemas Raul León, de 36 anos, um dos venezuelanos atacados no sábado. Havia cruzado a fronteira na véspera. “A triagem demorou mais de um dia.”

León saiu da Venezuela para fugir de desemprego, da falta de comida e de remédios. “Já passei três dias sem comer.” Após as agressões de sábado, León pensou em voltar. “Senti medo, mas depois as coisas foram se acalmando”, relata.

Ao lado da mulher e de cinco filhos – a mais nova de 2 anos e o mais velho de 12 -, o comerciante Gregorio Bello, de 37 anos, estava com a passagem comprada para o Brasil quando recebeu a notícia do incêndio no acampamento. “Não podia devolver (a passagem), então pensei: Vamos em nome de Deus.” O desejo, segundo conta, é chegar a Boa Vista e conseguir matricular as crianças na escola. “Até o momento, os brasileiros me atenderam muito bem”, diz. “Espero que dê tudo certo.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.P

Autor: Felipe Resk, enviado especial
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