terça-feira, 11 de dezembro de 2018

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Manual para pais de segunda viagem

Ao som do despertador, ele já sabe que vai fazer tudo sempre igual: arruma o café da manhã, organiza as brincadeiras, aparta brigas, leva para o passeio na pracinha, arruma as mochilas e lancheiras, prepara o almoço, convence a deixar o “prato limpinho” e leva as gêmeas para a escola. “Dá trabalho, mas tem de fazer sem pensar. Liga no automático e vai embora”, diz o comerciante paulistano Renato Murad Saad, de 54 anos, pai de Luísa e Isabela, de 4.

Nas cinco horas em que as meninas ficam no colégio, ele aproveita para responder e-mails de trabalho e fazer reuniões. Andréa, mulher de Saad e mãe das meninas, é médica e tem um expediente que começa logo cedo – e costuma durar de 10 a 12 horas. “Quando chega ao fim do dia, dá aquela baixa e você só pensa em deitar e dormir. Não dá nem tempo de raciocinar. É uma canseira que nem se compara àquela do ‘pai padrão'”, compara ele.

Saad fala com a experiência de quem já vivenciou outro tipo de paternidade. Além das gêmeas, ele tem os filhos Gabriela e Mathias, de 21 e 19 anos, respectivamente, frutos do primeiro casamento. “Naquela época, eu trabalhava o dia todo. Ficava com eles à noite e no fim de semana. O amor é o mesmo, mas a chance de acompanhar o desenvolvimento era menor. Era um pai que não sabia a hora do antibiótico.”

Em Fortaleza, o bancário José Carlos Romero nunca imaginou que trocaria fraldas, daria banho e levaria o filho para tomar vacina. Durante infância e adolescência das três filhas do primeiro casamento – hoje com 34, 33 e 30 anos -, ele viajava muito a trabalho e coube à mulher, que também cumpria um expediente integral fora de casa, dar conta da criação das meninas.

“A vida dela era muito mais dura que a minha. Os dois éramos provedores, mas só ela acompanhava o desenvolvimento e cuidava no dia a dia. Era uma situação normal nos anos 1980, ainda mais para alguém filho de militar e egresso de um colégio militar como eu.”

Romero ficou viúvo aos 46 anos – com as filhas já adultas -, casou-se outra vez e agora é pai de Junior, o menino de 3 anos que ganhou o nome e o tempo livre do pai. “Faço tudo o que nunca fiz e vejo como isso é bom para ele e para mim”, conta o bancário.

Paternidade ativa

As experiências de Saad e Romero respondem às novas configurações familiares – como a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho -, ao mesmo tempo que refletem o anseio de parcela dos homens por uma paternidade mais participativa. “É um movimento em que todo mundo ganha – filho, pai e mãe – e cujas vantagens serão maiores quanto mais cedo começar este compartilhamento”, afirma Eduardo Marino, diretor de conhecimento aplicado da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV).

Estudos mostram que quando a mulher é acompanhada pelo pai da criança no pré-natal, parto e pós-natal, o apoio à amamentação aumenta e, consequentemente, o tempo em que ela continua a amamentar. Essa mulher também se sente mais amparada e diminuem as chances de depressão pós-parto.

Já os homens relatam sentimento de satisfação com o tempo maior ao lado dos filhos, passam a cuidar mais da própria saúde e desenvolvem habilidades de cuidado que não foram educados para fazer. As crianças, por fim, apresentam melhor desenvolvimento cognitivo e menor uso de entorpecentes na adolescência.

Isso sem contar o aprendizado pelo exemplo. “As meninas crescem compreendendo que não deve recair sobre elas o peso das tarefas domésticas e de cuidado de crianças, além de buscar relacionamentos mais igualitários. Os meninos aprendem que ‘ser homem’ também significa ser responsável pela casa, por filhas e filhos, e crescem mais equitativos na divisão de tarefas”, explica Milena do Carmo, socióloga e consultora em Paternidade e Cuidado do Promundo-Brasil.

A organização lançou em 2015 o relatório A Situação da Paternidade no Mundo, com dados que mostram como as mulheres ainda são sobrecarregadas: passam de duas a dez vezes mais tempo cuidando de uma criança do que os homens, apesar de já serem responsáveis por 40% da força de trabalho remunerada.

Do ponto de vista regulatório, dizem especialistas, é preciso colocar em prática políticas previstas pelo Ministério da Saúde, como a participação dos pais nas consultas de pré-natal.

“O aumento da licença-paternidade para 20 dias, recomendado pelo Marco Legal da Primeira Infância (lei de 2016, que reúne políticas públicas para crianças), teria custo mínimo comparado aos benefícios”, diz Marino, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. “Ainda é pouco perto do ideal – que seria um período de licença estendido para que o casal decidisse como dividir entre ambos, a depender de quem estivesse em situação mais promissora profissionalmente -, mas já é um começo.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Ocimara Balmant, especial para AE
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